Foi
uma das principais vozes da resistência ao fascismo. Adriano Correia de Oliveira “era um homem de grande sensibilidade, um
homem de compromisso”.
É desta forma que o etnólogo e seu amigo
pessoal, Louzã Henriques, o recorda. “Era uma boa pessoa, muito ligada
aos seus amigos, vivendo sempre num clima de uma certa boémia artística
que apreendeu em Coimbra, mas que se prolongou em Lisboa”.
Nascido no Porto e criado em Avintes, Adriano chegou a Coimbra em
Outubro de 1959 para frequentar o curso de Direito, com apenas 17 anos,
num tempo de agitação social propícia a impulsos e à mudança. Anos
antes, a década de 50 – no pós-guerra – , tinha sido uma época marcada
por fortes repressões. Só o movimento das eleições presidenciais de
Humberto Delgado (em 1958) viria a ser “uma espécie de lufada de ar
fresco”. Agora, “o país parecia mobilizar-se em toda a sua extensão, as
pessoas tinham perdido um pouco o receio de falar”, recorda Louzã
Henriques. Nessa altura começa também a surgir “um certo tipo de
música, com as baladas, um certo tipo de leitura e de arte, factores
que vão ter influência na forma de pensar o mundo”. E tudo isso chegou
a Coimbra...
Na cidade dos estudante de então, o fado vivia uma época de mudança,
com o contributo de cantores como Edmundo Bettencourt (fundador da
Presença e que se tornou lendário como compositor e intérprete da
canção de Coimbra) ou Artur Paredes. Mas Adriano “bebeu” outras
influências graças uma geração de ouro: a de Fernando Machado Soares,
que encetou a renovação do fado de Coimbra. “Havia um movimento de
ideias muito intenso e profundamente dinâmico, propício à mudança”,
refere o etnólo.
Em 1959, o então estudante de Direito inscreveu-se como primeiro-tenor
no Orfeão Académico e, inevitavelmente, juntou-se às vozes do fado de
Coimbra. A Academia e a cidade proporcionavam a Adriano novos
horizontes intelectuais. Aí entrou em contacto com os problemas da sua
geração, que eram os problemas de uma juventude em rota de colisão com
o regime. Na década de 60 participou também no Grupo Universitário de
Danças Regionais da Associação Académica de Coimbra e no CITAC –
Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, onde representou
várias peças.
Viveu, primeiro, numa residência de estudantes. No ano lectivo de 61/62
transferiu-se para a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa,
voltando para a Universidade de Coimbra no ano seguinte. Passou então a
viver na república Rás-Te-Parta que, em 1963 serviu de sede de
candidatura à unidade democrática, concorrente para as eleições da
Associação Académica patrocinada pelo Conselho das Repúblicas.
“Nessa época, as repúblicas eram “templos” de uma certa boémia
tertulial. Ali chegavam as influências que corriam no mundo e as que
ainda estariam nas próprias tensões criadas pelo ambiente político de
Portugal. Discutia-se com grande à vontade”, recorda Louzã Henriques.
“As repúblicas, os cafés e a própria organização associativa, neste
caso concreto a associação académica, forneciam um campo de
experiências, ao nível das artes, ao nível da afirmação de direitos, ao
nível da afirmação da posição da academia em relação ao poder, o que
começava a representar uma agitação de ordem intelectual”, relata.
Entre 1960 e 1980 Adriano gravou 90 títulos, deixando uma das obras musicais mais ricas da segunda metade do século.
Tal como outros músicos em Portugal ou no exílio, também Adriano
Correia de Oliveira fez da música um acto de intervenção. A “Trova do
Vento que Passa” , escrita por Manuel Alegre e por ele cantada,
constituem uma referência ímpar das músicas de intervenção em Portugal
contra o regime fascista e um hino do movimento estudantil.
Quando lhe faltava uma cadeira para terminar o curso de Direito,
Adriano trocou Coimbra por Lisboa, trabalhou no Gabinete de Imprensa da
Feira Industrial de Lisboa (FIL) e foi produtor da Editora Orfeu.
Na fase final da sua vida – Adriano viria a falecer a 16 de Outubro de
1982, com 40 anos, em Avintes vitimado por uma hemorragia esofágica –
foi acompanhado à guitarra por Paulo Vaz de Carvalho (hoje docente da
licenciatura em Ensino da Música na Universidade de Aveiro), que teve
um papel fundamental nessa época. “Era muito rigoroso e um excelente
artista e amigo”, lembra o médico.
Adriano nunca deixou Coimbra e, das muitas vezes que regressou, ficou
hospedado em casa do seu amigo Louzã Henriques. O médico, que esteve
quatro anos preso em Peniche por oposição ao regime, não acompanhou a
vida académica de Adriano, mas a amizade, que nasceria naos mais tarde,
permaneceu até ao fim dos seus dias. Hoje, quando fala do companheiro
de luta e de sonhos, Louzã Henriques não esconde a saudade.
“Para a altura em que ele cantou certas coisas, foi um homem valente.
Cantou coisas em que se afirmava, num tempo em que a repressão era
muito violenta”, lembra o médico. Todavia, “encarou isso sempre com
grande coragem, com grande postura. Não era um homem de inocências
políticas. Era um homem que sabia perfeitamente o que queria e por que
lutava. Nasceu para ser livre e para ser artista”.
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