Tenho reparado que aquilo a que as pessoas chamam tradição umas vezes é o manter soluções que continuam a ser úteis, mas outras é simplesmente um apego a manifestações externas, e não ao espirito que estava por trás da acção ou à razão que levou aquela realidade.
Por exemplo, noto que hoje em dia há uma tendência para as pessoas cantarem fado de preto com um xaile sobre os ombros, como se isso fosse a tradição. Mas parece-me que o que o que é mais característico e tem valor no fado é ser autêntico e generoso, partilhar-se com os outros o que se é, com a voz que se tem.
O fado apareceu e quem o cantava era a gente do trabalho, os marinheiros, as varinas, a gente dos bairros de Lisboa que trabalhava com o gado e nos campos em redor. Cantavam com o que vestiam no dia a dia, com o que tinham. Portanto, parece-me que mais do que nos vestirmos como eles se vestiam, manter a tradição será cantar com o espírito com que eles cantavam, que é cantar com o que vestimos hoje, cantar com o que sentimos e vivemos hoje, cantar com naturalidade, com generosidade, com o que se é. É essa partilha com os outros, com quem ouve, que faz do fado, não só uma forma de cantar, mas sobretudo a beleza e o valor dos momentos genuinos.
Guiomar
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