| Carlos Paredes - A terra revolvida dentro de nós |
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| Crónicas - Outubro 11, 2008 | |
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"Movimento Perpétuo", gravado durante o Verão de 1971, é um milagre da música portuguesa, da mais portuguesa que existe. Sobre isso, aliás, Eduardo Lourenço, o pensador, já escreveu palavras certeiras: "Se tão inefável alma portuguesa em algum lado encontrou maneira de se comunicar foi nas suas notas que não falam de nada que possa ser dito, mas nascem directamente de um coração sintonizado com o canto inaudível do que somos como sentimento e vida". Mário Correia, por seu turno, já dissertara em idêntico raciocínio. "Nas suas mãos - nas nossas mãos - a guitarra portuguesa é o canto da terra revolvida dentro de cada um de nós, a voz indomável das nossas mais recônditas e profundas origens", escreveu, num livro dedicado ao músico que "deixa que a guitarra se desprenda das suas mãos e parta com todos nós , à procura da nossa essência. É, pois, essa profunda portugalidade que me leva a aconselhar, sempre, a sua música a qualquer estrangeiro que se mostre interessado em conhecer cultura portuguesa - e as reacções são sempre as mesmas: pasmo absoluto. Carlos Paredes, o Mestre, gravou o primeiro disco em 1957. Um ano depois foi preso pela PIDE devidoàs suas ligações com o Partido Comunista. Continuou a compor, gravar e a actuar, até sair de cena, em 1993, devido a uma mielopatia crónica. Para a eternidade fica esta "espécie de fusão, de confusão íntima entre o artista e a sua guitarra como se ela emanasse dela ou ela, sobrenaturalmente, se transformasse nele", citando, novamente palavras de Eduardo Lourenço.
Cristiano Pereira
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