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Da pobreza extrema aos grandes palcos do mundo
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Crónicas - Novembro 27, 2008
«Na vida não revelada de Amália Rodrigues, da pobreza extrema aos grandes palcos do mundo, a objectiva viaja através de momentos públicos e privados que inspiraram o estilo e as interpretações ímpares da artista»

É com estas palavras que o realizador Carlos Coelho da Silva, resume aquilo a que se propôs fazer em "Amália, o Filme", o primeiro biopic sobre a fadista, prestes a chegar às salas de cinema.

No filme, Amália, interpretada com competência pela actriz Sandra Barata Belo, ela própria com traços físicos similares à fadista, vê a sua vida ser dividida em três momentos marcantes, todos eles ligados à morte e à solidão: a separação dos pais e da irmã Celeste ainda em menina, o concerto em Lisboa logo depois da queda do regime fascista e uma noite solitária num quarto de hotel em Nova Iorque, confrontada com uma ameaça de doença terminal.

A sensação de destino traçado é transversal a toda a película, não fosse a história sobre o Fado, e sente-se na pequena Amália que canta para quem quiser ouvir na rua, na jovem que não aceita as imposições das suas origens humildes e na mulher sofredora incapaz de ser feliz na sua vida sentimental.

Pelo ecrã passam muitas das personagens, sobretudo masculinas, que ficaram para a história associadas à fadista, tais como Alain Oulman, Frederico Valério, Eduardo Ricciardi, Ricardo Espírito Santo, mas é sobretudo nas relações com a família, principalmente com a irmã Celeste e a rigidez quase muda da mãe Maria, que os diálogos passam da superficialidade que impera em maior parte do filme e ajudam a dar profundidade à maneira algo fugidia com que a fadista é retratada.

Aos ouvidos chegam-nos, claro, os poemas imortais de 'Com Que Voz', 'Foi Deus' e claro, 'Estranha Forma de Vida', cantados na voz original de Amália e repartidos de forma cuidada e efectiva ao longo da histórica.

Completamente centrado na fadista, o filme peca talvez por não contextualizar com precisão os conturbados tempos que se viviam em Portugal e no mundo no auge da carreira de Amália. A relação com o regime de Salazar é tocada ao de leve, sobretudo na maneira como a intérprete é tratada como heroína pelo seu papel na libertação de Oulman das 'garras' da PIDE e depois vista como traidora no regresso aos palcos no pós-revolução.

No final resta uma obra competente, filmada num estilo não muito comum no cinema nacional, numa homenagem sincera ao legado ímpar de Amália Rodrigues.

Rita Tristany
 

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