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Camané - a singela essência do ser em português |
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Eventos -
28.11.2008 |
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O pendor da assistência, em
sucessivas e entusiasmadas adesões palmeantes, sentia-se levitar em
torno do bem desfiado rosário fadista - «Sei de mim» - de Camané,
milimétrico de fluência, dócil e triste...
Coliseu do Porto - Porto - 27/11/08
A 10 minutos do abrir de cortinas, a plateia estava
preenchida por metade. O balcão, as antigas Galeria e Geral pairavam no
vazio. Eu e o casal Domingos fomos colocados na Friza inferior
imediatamente a seguir ao lado direito do palco. Que privilégio.
Tudo-tudo estava alcance de olhos e ouvidos sem necessidade de
movimentar o pescoço.
Às 22h05 as luzes baixaram de todo e com
elas a plateia completamente lotada baixou ao silêncio absoluto.
Ninguém tossia ou mexia. As cortinas deslizaram para mostrar no
penumbrado palco quatro vultos muito levemente iluminados: ao centro,
José Manuel Neto, à guitarra portuguesa, Paulo Paz, no contra-baixo, e
Carlos Manuel Proença, em guitarra clássica. A 4/5 metros da banza para
a esquerda, Camané, sentado, iniciou a lide com «Sei de um rio» (Pedro
Homem de Mello / Alain Oulman), envolvido pela exacta e melodiosa
sonoridade que abriu auspiciosamente o espectáculo. Esplêndido. Senti
os poros soerguerem-se e a emoção colou-se-me no céu da boca. O
Domingos piscou-me o ôlho a confirmar a sensação. Estávamos deveras a
ouvir, a ver e a sentir Fado.
O pendor da assistência, em
sucessivas e entusiasmadas adesões palmeantes, sentia-se levitar em
torno do bem desfiado rosário fadista - «Sei de mim» - de Camané,
milimétrico de fluência, dócil e triste, assaz comovente, algo de
menino-homem a exprimir a singela essência do ser-em-português,
lucubrante de suavíssimo trejeito amaliano. Ora em ensaio-sobre (entrou
em palco o convidado Carlos Bica, ao contra-baixo) em busca da
novidade, ora em Fado segundo a cartilha do rigoroso, Camané, tímido
leal ou a fingir, segurou com plácida firmeza quase duas horas de
balsâmico espectáculo, acompanhado com excelência por uma banza em que
o gosto de cantar passa do simples prazer a sentimento excelso.
Torre da Guia
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