| As multiplas variações do estereótipo do Fado |
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| Crónicas - 27.03.2009 | |
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Um hino anguloso, um hino triste, que não cantaria as glórias mas antes daria corpo ao estado de alma mais sombrio.
Na taxinomia simples que identifica os países e as pessoas, Portugal é o país do fado. E porque é o país do fado é um país triste. As multidões de turistas que se precipitam para as casas de fado vão à procura dessa tristeza. "Boa noite tristeza!", parecem querer dizer. A nossa tristeza seria assim a principal fonte desse vampirismo moderno que se chama turismo.
As sociedades pós-modernas e globalizadas precisam de definições rápidas e simples. Definições que cristalizem a complexidade dos sentidos e dos povos em torno de marcas de apreensão fácil, de sound bites. Neste sentido. Portugal tanto é o País do fado como o País do sol, num primeiro paradoxo bastante divertido.
A alma triste seria ainda mais triste por se desenvolver num ambiente solar, num país claro. Como seria possível? Com tanto sol, todavia tão tristes! Ou melhor, tristes, apesar do sol. O que quer dizer profundamente tristes, geneticamente tristes. Tão tristes que nem o sol aclara essa tristeza. Era uma tristeza bronzeada, quase torrada, mas ainda assim uma imensa tristeza.
Cairiam por terra todos os mitos que falam do Sul como a terra da felicidade, a terra prometida. E cairia por terra também alguma endocrinologia que encontra na relação da luz com o hipotálamo argumentos para o nosso bem-estar. Apesar de tudo isto, de todas estas demonstrações empíricas e científicas, continuaríamos orgulhosamente tristes. Tristes até ao fim. Tristes até à morte. Era esta a nossa condição e estaríamos dispostos a levá-la até ao fim.
Mas tudo isto são variações em torno do estereótipo e do preconceito inicial que, por redução ao absurdo, decidi levar ao limite. De facto, não estou convencido que o fado seja assim tão triste.
Nas suas múltiplas variações tonais, nas suas múltiplas modulações, o fado exprime uma gama afectiva que não se confina à tristeza. Há nas pregas do fado, nas suas dobras, nos seus interstícios, paisagens de uma coloratura riquíssima. Há momentos de intensidade clara que fazem com que o fado se afaste muito daquilo que se espera dele.
Uma vez disse que Portugal não podia ser só fado e por isso estive sob fogo cerrado dos sócios honorários do sindicato dos fadistas. E o que eu queria dizer era também o seu simétrico, ou seja, que o fado não pode ser só Portugal.
Esta sobreposição quase mimética entre o fado e Portugal é má para o fado e má para Portugal. É importante que se cruzem, que se casem, mas não se devem fundir numa coalescência estilo "Dupond e Dupont". E se o fado se encontrar com a arte contemporânea? Alguns diriam que ele sempre foi contemporâneo. E que muitos dos mais recentes intérpretes emprestam a essa pretensa contemporaneidade uma gravidade que ela nunca teria se não se cruzasse com o fado.
Mas não devemos colocar o problema desta forma. Não é o fado à procura da contemporaneidade nem a contemporaneidade à procura do seu fado. Antes uma espécie de encontro dadaísta - o fado, a arte contemporânea.
Que combinação mais improvável! E no entanto funciona. Cabe tudo dentro de uma caixa. Uma caixa de Pandora donde saem todas as surpresas. Dentro desta caixa acontecem os encontros mais inesperados.
A arte canta e o fado transforma-se em matéria plástica. Vivemos quase sempre acantonados nos fundos-de-saco dos nossos preconceitos. Julgamo-nos modernos e cosmopolitas mas o nosso mundo tem o tamanho de uma unha. Para lá carregamos tudo, também o nosso sofrimento.
Porque sofremos com esta taxinomia que nos impede de ser quem somos (também um tema do fado). Essa caixa que guardaria o fado e a arte contemporânea é, neste sentido, um copo misturador. Ela rompe preconceitos, porque coloca lado a lado, corpo a corpo, literalmente, universos que os mais puristas e preconceituosos achariam não miscíveis. Pelo menos desejavelmente.
Ela é assim, de certa forma, uma caixa de pecado. Mas isso é bom. |
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