| Tu cantas diferente, disseram-lhe em miúda |
|
| Crónicas - 06.03.2010 | |
|
Mariza, a fadista africana, de pele mulata e cabelo louro
branco, ostenta o seu perfil simbólico, de fusão
de tempos e culturas, de tradição e modernidade, como enviada especial
ao mundo da cultura portuguesa. E ao contrário, ou não estivesse
classificada nos escaparates como world music, um epíteto criado pelas
discográficas para os catálogos etnográficos e cuja ironia - chamar
mundo ao que é especificamente local - se esbate na tendência de fusão
que neles se verifica. Uma fusão que mais não faz de resto que
reencontrar as origens, reinventando-as - como faz Mariza ao integrar na
sua obra instrumentos, vozes, canções e ritmos de outras tradições
locais e ao descobrir nelas as semelhanças e as ligações com a "sua"
canção.
A sua, sim. Mesmo se nasceu em Maputo, então Lourenço Marques, filha de um português branco e de uma portuguesa negra, naquilo que ainda era então - em Dezembro de 1973 - Portugal, Marisa dos Reis Nunes assentou pátria na Mouraria, onde os pais aportaram pouco depois da chegada a Lisboa, em 1977, e abriram um restaurante, o Zalala, onde se cruzavam fadistas e se cantava o fado. Terá sido aí que, segundo a lenda (as pessoas criam lendas da sua infância), cantou em público a primeira vez aos cinco anos, já com direito a um xaile próprio - a canção citada para a ocasião é, apropriadamente, Os Putos, uma das mais conhecidas do repertório de Carlos do Carmo. A vocação - ou o que se lhe possa chamar - não se declarou tão facilmente, porém. Adolescente, Mariza enveredaria por outras zonas musicais, cantando em bares disco-sound, bossa nova, soul.
Em 2005, numa entrevista ao DN três anos após o primeiro disco (Fado em Mim) e aquando do lançamento do terceiro (Transparente), explica: "De vez em quando cantava um fado ou outro, a medo, porque achava que não sabia e respeitava o não saber. Eu sabia o que era mas uma vez alguém no meu bairro disse 'tu és diferente'. Eu era adolescente e quando se tem essa idade não se pensa que ser diferente seja positivo. Não temos esse poder de encaixe. Eu achava que estava a desrespeitar qualquer coisa e parei de cantar. Só ouvia. Não cantava. Essa frase marcou-me, eu não percebia em que era diferente. Não conseguia entender o que me disseram com aquele 'tu cantas diferente', isso era bom ou mau? Hoje percebo que talvez seja bom, pelo percurso que fiz, mas naquela altura não percebi."
Cantava, ainda assim. Na escola confessa ter sido pouco aplicada e mesmo malcomportada; nas entrevistas e biografias publicadas, o grau de ensino que averbou não está claro, mesmo se sabemos que foi colega de Maria Rueff (ela não se lembra). Quase foi vocalista dos Cool Hipnoise e dos Kussondulola, fez um cruzeiro como cantora a substituir uma amiga brasileira, passou uns meses no Brasil. Era nessa altura, diz, "sobretudo rock'n'roll", e cita Skunk Anansie como banda favorita (e referência para o cabelo rapado?). O reencontro dá-se por acaso. Conta que num bar, ao fim da noite, cantou um fado para o dono de uma casa de fados. Ele convidou-a para lá ir. "Fui fazer a experiência. Aquilo foi assim um 'baque' no coração, na alma, não sei explicar. E disse 'não, eu quero é ficar aqui'.Tinha um convite para gravar um disco em Londres com a banda de que fazia parte, a Funky Town. Mas um dia chegou a casa e disse ao namorado, também membro da banda, que esquecesse: "Não quero fazer discos nenhuns, gosto de estar ali, estou a aprender outra vez, estou a reviver a minha infância, aquilo que aprendi quando era miúda, estou tão feliz, não vou fazer uma coisa que não vai ter nada a ver comigo nunca na vida."
Fadista, então - coisa que evita dizer de si, explicando que a expressão "ah, fadista", ouvida de miúda na Mouraria, é "um grande elogio", algo que só lhe faz sentido "dito de fora". E com "um percurso" (evita a palavra "carreira") de que se orgulha, no qual admite ter feito "coisas fantásticas", entre quatro discos (o último, Terra, em 2008) e muitos platinas, mais de um milhão de vendas e concertos em todo o mundo, incluindo o Live 8, uma actuação no show de Letterman e uma noite no Pavilhão Atlântico com 14 mil pessoas enquanto do outro lado do oceano se anunciava um prémio, o Grammy de 2007, para o qual fora nomeada (não ganhou). Nomeada no início como "a nova Amália" - em todas as novas vozes femininas do fado se prediz o clone da diva -, deixou para trás a sombra e explora a "diferença". Se lhe perguntam se "ainda é fado", responde: "Isso não sei. Existe uma linha que sei que não se pode passar. É como a linha da água. Sabemos que está ali e que ali termina para ti." Quanto aos puristas, "deviam preocupar-se com eles próprios. São eles quem puxa o fado para trás. O fado é uma música urbana, vive do ritmo da cidade, das pessoas, da evolução das pessoas." Em frente, então, no caminho dela. Sim, isso influi.
Fernanda Câncio
|
|
