António Chaínho - a afirmação da guitarra portuguesa
Notícias - 14.03.2010
Desde cedo dentro do fado, António Chainho quis afirmar a guitarra portuguesa. Passou a convidar as vozes para que o acompanhassem. No seu novo disco, "Lisgoa", junta a guitarra portuguesa a vozes da Índia, numa homenagem a um país que sempre o encantou.

Foi criado ao som da guitarra do seu pai e da voz da sua mãe, a cantar Amália. Quanto disso ainda é ainda hoje?

Daí veio a grande evolução da minha técnica. O meu pai ensinou-me a tocar aos 6 anos. Por vezes, andava a jogar à bola com os meus amigos, lembrava-me de um fado e corria para casa para ir pegar na guitarra. Tinha bom ouvido e comecei a acompanhar a minha mãe, enquanto ela cantarolava em casa. A morte dela, quando eu tinha 16 anos, fez-me parar de tocar uns meses. Doeu-me, mas recomecei. Durante parte da sua vida acompanhou vozes e agora as vozes acompanham-no a si.


Como vive essa mudança?

É a terceira fase da minha carreira. A primeira foi quando cheguei a Lisboa, queria aprender mais e ouvir mais. Depois acompanhei todos os cantores que podia. Isso passou e fiquei só com três artistas para sustentar a minha vida. Inicia-se então a terceira fase, uma carreira a solo. Chamaram-me louco.


Foi a afirmação de um guitarrista ou a afirmação da guitarra portuguesa?

Da guitarra portuguesa. Mas quando eu era miúdo, os guitarristas eram muito mais conhecidos. Hoje são ignorados. Uma vez o Paco de Lucía disse-me: "Em Portugal têm de fazer o que fizemos em Espanha. Começámos a ser nós a convidar os artistas".

 

Para este novo álbum juntou várias vozes, em diferentes línguas, numa homenagem à Índia. Que dimensão tem para si?

Quando lá fui pela primeira vez, pareceu impossível. Foi um pensamento de quando era criança e estudava. Só tirei a quarta classe. Se nem os ricos na minha aldeia conseguiam estudar, quanto mais os pobres como eu. Mas, na altura, ter a quarta classe significava saber muito. E a Índia sempre me marcou. Lembro-me de estar deitado e de sonhar com a Índia e com o meu tempo de miúdo. Deixou-me confuso. Portanto, concretizar este projecto é como um grande desabafo que me sai de dentro.


Tem sonhos por concretizar?

Praticamente fiz tudo na minha vida. Durante um tempo, se ganhava 100, gastava 50. Tudo para um dia mais tarde poder realizar os sonhos que sei que morrerei sem concretizar. Hoje toco nas maiores salas do mundo. Penso no que é que poderá acontecer-me mais. Já terei feito tudo... Mesmo assim, acho que ainda tenho sonhos.


(Texto original publicado na Revista Única da edição do Expresso de 06 de Março de 2010)

 

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