| O dia em que Marceneiro mostrou o mau feitio aos clientes |
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| Crónicas - Agosto 22, 2010 | |
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Olhando para mais de quarenta anos de vida no fado, posso dizer que a figura mais engraçada que conheci foi, sem dúvida, Alfredo Marceneiro. A sua irreverência e falta de travão na língua faziam com que muita gente não lhe achasse piada. Já eu, deliciava-me com aquele mau feitio. E é precisamente sobre isso que fala a história desta semana... Marceneiro, que para quem não sabe era também compositor, tinha como regra não ser efetivo em nenhuma casa de fados. Porquê? Porque amado ou odiado, o público queria ouvi-lo e havia sempre quem estivesse disposto a pagar-lhe (e bem) para cantar. Naquela época, eram muitos os ditos "clientes melgas" que gostavam de se salientar perante os amigos ao mostrarem que se davam com as estrelas do fado. Marceneiro era, obviamente, um dos nomes mais desejados pelos "melgas". "Esteja quieto que me está a aleijar!" Lembro-me de estar a tocar na Adega Machado, em 1976, numa noite em que o "tio Alfredo" andava por lá: Lenço ao pescoço, boné, bota bicuda, cabelo bem penteado (aparência que lhe rendeu a alcunha "Alfredo Lulu"). Entrou um grupo grande e foi fácil detetar o "melga" da noite, que - com o dobro do tamanho de Marceneiro - abriu-lhe os braços e tentou abraça-lo como se fossem amigos de longa data. Mesmo sabendo que era dali que viria o dinheiro da noite, sabem qual foi a resposta de Marceneiro? Ora aqui vai: Marceneiro: Esteja quieto que me está a aleijar. O que você quer é salientar-se à conta dos artistas. Tire as mãozinhas de cima de mim faz favor! Melga: Ó tio Alfredo, então não me está a reconhecer? Você andou comigo ao colo. Marceneiro: Andei com você ao colo? Eu nem com os meus filhos andei ao colo, quanto mais com você que tem o tamanho de um armário! A gargalhada foi geral. E o que é certo, é que mesmo levando com o mau feitio do "tio Alfredo", o "melga" acabou por fazer as honras da noite e pagar-lhe dois contos para ele cantar...
Vital d'Assunção
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