| Silêncio que se vai cantar o fado... de olhos em bico |
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| Crónicas - 10.01.2011 | |
Em viagem no Japão fui surpreendido por fadistas e guitarristas... todos eles com os olhos em bico. Para nos entendermos, inventámos um acordo ortográfico luso-japonês. Ora venham daí saber qual...
Caros amigos, desde já peço desculpa pela minha ausência mas tenho andado literalmente de olhos em bico numa série de concertos pelo Japão. Agora de regresso a Portugal, é precisamente sobre este país de vastos contrastes que vos conto a próxima história gira que envolve fado, um japonês e uma sopa... de sandálias. Se há duas coisas em que nós portugueses somos peritos é em comer e brincar um bocado com a língua (salvo seja!). E foi entre estas duas coisas que desenvolvi uma enorme cumplicidade com um japonês fadista, durante a gravação do seu primeiro álbum, intitulado "Fado Sentido". Em plena gravação, num dos intervalos para jantar cheguei sozinho com o Taku ao restaurante e pedi a ementa. Ainda ele não tinha posto os olhos nas opções e lembrei-me de uma brincadeira habitual entre mim e o engenheiro de som: "Taku, aqui a especialidade é uma sopinha deliciosa: Chama-se sopa de sandálias". Com seu ar educadíssimo mas muito surpreendido, apontou para os pés para as sandálias que trazia: "Sandálias Vital San?". E eu teimei: "Sim é a especialidade da casa. Tipicamente portuguesa". E ele fez o seu típico som: "Ooohhh!". Sem combinar, o engenheiro de som sentou-se à mesa e perguntou: "E então, vamos á sopinha de sandálias?". Escusado será dizer que o japonês mais curioso ficou. Quando a terrina da sopa rica do mar chegou à mesa ele não se desmanchou e ficou a ver o que de lá saia sem fazer perguntas. Embora ao comer soubesse perfeitamente que era peixe e marisco, a meio comentou com uma piscadela de olho: "Sopa de sandálias muito bom, muito bom! Oohhh!", e a habitual vénia. Acordo ortográfico luso-japonês Esta reacção extremamente pacífica e educada, mas sem nada de parvo, é uma belíssima prova da personalidade japonesa que vim a descobrir no périplo pelo Japão no lançamento do segundo álbum "Fado Inacabado". Por mais "encomendas" que tanto eu como o guitarrista João Chitas fossemos nos nosso comentários e gozos (que depois de muito "saquê" foram muitos... à boa moda portuguesa!) , eles foram os reis da vénia. Lembro-me de termos insistido que a partir daquela viagem havia um acordo ortográfico luso-japonês e que a palavra obrigado seria transformada em "obrigáto". Podem não acreditar, mas só para nos fazerem sentir bem recebidos, o próprio Taku e restante comitiva adotaram a palavra sem pestanejar e quando demos conta, no fim de um espectáculo para cerca de 400 pessoas tínhamos um plateia em uníssono a bater palmas, fazer vénias e a agradecer com um sorriso: "Obrigáto... Oohhh!". Curiosamente, há poucos dias estava a jantar em Lisboa e sou surpreendido com um burburinho na mesa atrás da minha. Quando me viro, vejo dois japoneses que me fazem uma vénia, riem-se muito e brindam-me com um surpreendente: "obrigáto!". Por esta é que eu não esperava... Vital d'Assunção |
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Em viagem no Japão fui surpreendido por fadistas e guitarristas... todos eles com os olhos em bico. Para nos entendermos, inventámos um acordo ortográfico luso-japonês. Ora venham daí saber qual...
