| Fado |
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| Crónicas - 04.03.2007 | |||
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O Fado é um sopro vibrante que a voz recebe da alma. É um lamento de se trazer
um excesso vital dentro do peito. Um excesso de dor, de alegria, de utopia e das
várias emoções vividas. Fado é a expressão máxima do sentimento de se estar vivo. Cada pessoa encarna um destino, uma forma e uma emoção única e pessoal; simultaneamente comunga com as outras pessoas muitas realidades. O Fado tem portanto uma dimensão pessoal e uma dimensão colectiva. Fala da contingência e da fatalidade de se existir, de como se vive e de como se morre. Fala do encontro do simples e do transcendente no coração de cada um. O Fado apareceu em Lisboa, por volta de 1840, das canções dos marinheiros para as dos rufias. Cantava-se nas tascas, nas ruas, nas hortas, nas esperas de gado. Em 1850, era também, já cantado no Porto. A Lisboa da época, ainda muito rural, era palco do fenómeno emergente do crescimento urbano, pela migração dos campos para as cidades. O Fado é portanto a expressão de uma nova forma de vida e de sociabilidade. Recebeu influências artísticas várias; das canções dos marinheiros, dos camponeses, das sonoridades árabes das mourarias, dos lamentos e dos ritmos africanos, das danças da moda e do folclore tradicional. Pelo seu valor conquistou a Aristocracia e começou a ser cantado nos salões e festas. São referências desta época Maria Severa e o Conde de Vimioso. Depois da queda da monarquia, o Fado continuou durante a república. No Estado Novo houve uma certa apropriação pelo regime, como forma de propaganda. Salazar tinha o mote "futebol, fado e Fátima" como desígnio para Portugal. Esta apropriação afastou muita gente do Fado por o conotar com o regime. No entanto a ditadura acabou e o Fado continuou. Eram fadistas de referencia nas primeiras décadas do século XX Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha. Amália Rodrigues é o nome incontornável do Fado de então e que trouxe o Fado até aos dias de hoje. Cantora eximia, levou o Fado a todo o país e além fronteiras. Cantou em português e em várias outras línguas. Cantou Fado Antigo e Fado Novo, letras populares e os grandes poetas. Escreveu e cantou letras e músicas próprias. Manteve boas relações com o regime sem lhe pertencer. A sua carreira, de mais de 50 anos, foi uma vida dedicada ao Fado, que abriu o caminho para o futuro e a uma nova geração interessada e activa. São fadistas seus contemporâneos na segunda metade do século XX: Maria Teresa de Noronha, João Ferreira Rosa, Lucília do Carmo, Carlos do Carmo, Vicente da Câmara, Maria da Fé, entre outros. São nomes da nova geração: Mísia, Mariza, Camané, Mafalda Arnauth, Ana Sofia Varela, Ana Moura, Cátia Guerreiro, entre outros. Hoje o Fado é reconhecido como canção nacional e até como imagem de marca. Uma nova geração está a dar-lhe continuidade e tem querido inovar. Inicialmente cantado nas tabernas, o Fado é hoje cantado por artistas profissionais em salas de concertos e por amadores, adultos e crianças em colectividades e associações por todo o país e junto das nossas comunidades no estrangeiro. Hoje há muita gente a cantar o Fado, o antigo e um novo, inovado no estilo e na musicalidade. Parece-me que nos encontramos numa encruzilhada e que a questão é: como é que o Fado, que surgiu ainda na época romântica, será de hoje em diante, recriado nesta época contemporânea, tão diferente, sem cristalizar, mas também sem o descaracterizar ou extinguir?
Guiomar Macedo
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