| A exacta medida da tristeza |
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| Crónicas - 10.04.2011 | |
Se calhar, habituámo-nos a ser tristes e já não sabemos ser de outra
forma. Encostámo-nos a um tempo que é o nosso e deixámo-nos ficar no
conforto daquilo que conhecemos
Porque somos um povo tão triste? Esta pergunta fez-me a Marta na semana em que o país recorreu à ajuda externa. Na semana em que ficou mais nítida a nossa profunda crise e o nosso profundo desespero. Mas a pergunta não estava ancorada nessa conjuntura tão recente, ditada pelos cabeçalhos dos jornais e pelos rodapés das televisões. A pergunta tinha algo de mais profundo, mais remoto, mais intrínseco, vindo do nosso tempo histórico e do ADN que nos define os passos e o sentir. Sim, porque razão carregamos esta tristeza? Porque razão temos fado e não samba? Porque razão não temos valsa mas sim saudade? Porque razão temos um mar feito de lágrimas e sílabas feitas de plástico. Porque cantam os poetas mais a tristeza do que a alegria? A Marta, do fundo de um optimismo que nasce a ferros nestes dias de desalento, dizia que até nem tínhamos tantas razões para esta tristeza genética, visceral. Temos um país à beira-mar e não há cidade com a luz de Lisboa, nem com sete colinas e prédios de flores nos beirais. Temos ilhas e mar e voltar. E, às vezes, por muito que se tente, nem conseguimos estragar aquilo que temos de bom e único. E se é assim, realmente porque será esta tristeza de todos os tempos, agora debruçada na crise que nos consome os dias. Provavelmente não existem respostas, nem grandes explicações ou filosofias. É assim e pronto, como as coisas que realmente não se explicam Se calhar, habituámo-nos a ser tristes e já não sabemos ser de outra forma. Encostámo-nos a um tempo que é o nosso e deixámo-nos ficar no conforto daquilo que conhecemos. Que pode não ser grande, nem glorioso, mas é nosso. Nestas coisas quotidianas e familiares, até mesmo a tristeza doméstica, que se conhece como a um cão velho e fiel, pode ser mais segura do que o grande passo da mudança, do risco, do desconhecido. Mesmo do passo em relação à alegria. Talvez por isso, vamos sempre passar pela tempestade e pela bonança com a mesma melancolia de quem dobra o casaco e o deixa esquecido no lugar de sempre. A crise vai passar, um dia. E nós também, com a certeza do tempo que corre. Porque existimos assim, habituados a ser, como diz Eduardo Lourenço, a ficção da nossa própria ficção. É ele, aliás, que nos pergunta, a propósito dos Lusíadas,: "já se viu um poema épico assim tão triste, tão heroicamente triste ou tristemente heróico, simultaneamente sinfonia e requiem?"Raquel Gonçalves |
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Se calhar, habituámo-nos a ser tristes e já não sabemos ser de outra
forma. Encostámo-nos a um tempo que é o nosso e deixámo-nos ficar no
conforto daquilo que conhecemos
