O que se diz sobre Amália...





Crónicas - 10.10.2011
Escrever sobre Amália, já é mais do que escrever sobre uma Grande Voz, ou uma Grande Artista. É escrever sobre nós próprios. Eis alguns textos (de entre muitos) sobre a diva.

Ficou sobejamente provado, não há muito , que certa "intelligentsia" portuguesa, está bem longe de ser inteligente, quando alguns dos seus representantes - julgando representar o proprio Povo - tentaram crucificar ou marginalizar Amália, num sumário e grotesco "processo", de que só eles sairam ridicularizados.
Sem ter tido sequer necessidade de reagir ou defender-se, Amália renasceu incólume das próprias cinzas, em que esses apressados coveiros do talento e do mérito, pretendiam enterrá-la. E eis a sua voz, incomparável como sempre, mais vibrante e comovedora do que nunca, fiel a si própria e aos Poetas que tem cantado, triunfando do silêncio a que quizeram remetê-la, e sugerindo incansávelmente, através da harmonia que a caracteriza, a superioridade da alegria de quanto nos une, sobre a mágoa de quanto nos divide...1977, David Mourão-Ferreira



...Escrever sobre Amália, já é mais do que escrever sobre uma Grande Voz, ou uma Grande Artista. É escrever sobre nós próprios. Sobre a nossa grandeza, e sobre a nossa pequenez, sobre o nosso riso, e sobre as nossas lágrimas, sobre a nossa terra e sobre a nossa gente. É por isso que, quando Amália canta o que nós escrevemos, transforma os versos deitados no papel, numa explosão de vida e de força interior, que deslumbra, até, quem os escreveu. É por isso que, para o Poeta que Ela cante, escrever sobre Amália, é dizer-lhe obrigado.1977, José Carlos Ary dos Santos

 


...Há quem extraia significados à musica. Amália Rodrigues, extrai musica aos significados. É, a essa musica, extraída de tudo, ou até do nada, que devemos abrir a nossa sensibilidade... É ridiculo pensar que ela sofre quando canta. Estou convencido de que, na verdade, apenas sofre calada...Por isso, os sons e as palavras ainda rescendem a dor do silêncio, em que foram geradas... Ninguém se poderá abrigar à sua sombra, nem ela roubará o sol, a ninguém. Querer imitá-la é grotesco.O homem que imita as ondas, dá cambalhotas.1973, António Vitorino de Almeida

 


...O que é um milagre? É quando, numa só silaba, se pronunciam num mesmo tempo, a nascença e a velhice do mundo. É esta voz. Agora, é menina descalça, a correr pelos prados; depois é mulher nua, a correr os dedos pelo cabelo; senhora branca a correr com a escuridão da alma; ou velhinha negra, a correr as cortinas duma varanda de andorinhas...Amália, mima-nos como uma mãe, e faz-nos filhos, amantes, maridos, pais, irmãos. Faz de nós o que quer, o que nós queremos que ela faça. Faz-nos chorar, rir, saudade, amor...Porque é que a minha ignóbil geração a perde tanto, perdendo tanto tempo ,com perdigotos e perdigueiros, roufenhos e roqueiros, quando há a Amália para ganhar? Não a merecemos, não. Isto embora, como geração apenas, nunca a pudessemos merecer, por muito bem que a quizéssemos e trouxéssemos dentro de nós. Porque a unica coisa que merece Amália, é Portugal-todo, oitocentos anos para trás e para a frente. E nós, na piquena parcela que nos calhou dessa infinita temporada, apenas podemos chorar a alegria de poder tê-la. Tal como ela, lá dentro, na voz, nos tem a todos nós...
1982, Miguel Esteves Cardoso

 


Amália Rodrigues, Edith Piaf e Oum Koulthoum, são sem duvida, aquelas que ultrapassaram o estatuto de grandes estrelas, para se tornarem em mitos, que perdurarão na memória do planeta...1989, Le Monde

 

O Fado, está presente no diálogo de Amália. No palco do Teatro Romano, outro dia, queria explicar ao publico ,( " o contacto com o publico condiciona-me, é-me necessário...até posso não cantar se sinto que o publico não me segue...", e o diálogo com os romanos foi formidável) o que era este fado, porque são tristes os portugueses. " Não se compreende" dizia. "Sim, somos um povo pobre, mas temos um mar magnífico, belíssimas cidades, e somos tristes..." Alguem gritou da plateia: "... e Salazar ! " "...e somos tristes", continuou ela. Foi o recital da minha vida. Tenho a impressão de que estive junto de alguém, cujo talento ultrapassa o entendimento humano. Estive na presença de uma Deusa...1968, Alberto Belini-"Paese Sera"

 
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