Ficaria
conhecido por um nome ao mesmo tempo íntimo e universal: Zeca Afonso.
Um nome que refere mais do que o artista, mas convoca uma figura
poderosa no imaginário colectivo, figura que adquire contornos de mito.
Disso tinha, de alguma forma, consciência. Na longa recolha de
entrevistas que José António Salvador reuniu no livro Livra-te do Medo,
afirma: "Eu um mito? (...) Só sinto que sou um mito quando me falam
disso.
José Afonso não se limitou a
determinar o curso da história da música. Foi protagonista destacado
nas principais mudanças culturais, políticas e sociológicas que
Portugal conheceu desde os anos sessenta.
Talvez
seja esta a principal característica que distingue Zeca Afonso. Ele
transcendeu largamente a sua condição de compositor-cantor e o seu
estatuto de artista. Foi um homem que fez de novo.
"EU TINHA UMA GRANDE VONTADE DE CANTAR"
José
Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu em Aveiro, no dia 2 de Agosto
de 1929. No ano seguinte os seus pais partem para Angola por razões
profissionais, permanecendo ele em Aveiro, em casa de tios, devido a
questões de saúde.
O seu pai, o juiz José
Nepomuceno Afonso, deixou-lhe marca profunda: "Era um sujeito bastante
neurótico, com grandes flutuações de humor, mas do ponto de vista
intelectual de uma solidez, de uma precisão, de um rigor
impressionantes. (...) Não encarou muito bem a minha actividade de
cantor. (...) Queria um filho doutor. Formalmente teve, mas na prática
deu-me para as cantigas. Mais tarde (...) foi-me aceitando melhor
quando descobriu que as canções eram contra o regime".
É
a sua mãe, professora primária, que vai exigir a ida de Zeca para
Angola, com três anos. Viaja no navio Mouzinho, acompanhado por um tio
que o deixa ao abandono por se encontrar em lua-de-mel. O rapazito vai
agarrar-se a um missionário, a única pessoa que lhe presta atenção.
Recordá-lo-á em sonhos por toda a vida.
No
Bié, mais tarde em Luanda e depois em Lourenço Marques, Zeca Afonso
fica profundamente impressionado por África. "A África como entidade
física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas
recordações".
Em 1936 volta de novo a Aveiro,
partindo no ano seguinte para Moçambique, onde se junta de novo aos
pais e aos irmãos, Maria (a Mariazinha) e João. Os irmãos serão uma
presença forte na vida de José Afonso. O irmão, mais velho, é uma
figura próxima e estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis
um pouco ao longo de toda a sua vida. A irmã, mais nova, concitará os
seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa de novo
a "Portugal Continental", passando a residir na casa de um seu tio,
presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Aí contacta com a
mentalidade profundamente conservadora do país interior, que muito o
vai incomodar. Mas é, também, o período fértil em que descobre as
canções populares da Beira, que mais tarde tão grande presença virão a
ter na sua música.
Com 11 anos vai para
Coimbra, para casa de uma tia, num ambiente igualmente fechado,
conservador e ultra-religioso. Aí, no Liceu D. João III, conhece
António Portugal e Luiz Goes. E é ainda no liceu que começa a cantar
serenatas, o ponto inaugural da sua ligação à música. Dirá: "Eu tinha
uma grande vontade de cantar. (...) Naquela altura qualquer tipo que
tivesse um bocado de voz, mesmo pouca ou nenhuma, era imediatamente
agregado para aquele grupo de serenatas. Havia também um mecanismo
muito interessante, não sei se vinha da burguesia ou da nobreza,
através do qual um tipo convidava um amigo que sabia cantar quando
estava interessado em alguma rapariga que se encontrava sob reserva em
qualquer "lar". Ao amigo que sabia cantar cabia-lhe o papel de prestar
homenagem amorosa à rapariga, mandatado pelo interessado. Em muitas das
serenatas desempenhei essa incumbência".
Nesses
primeiros anos terá uma vivência apaixonada por Coimbra "Troquei essas
recordações, uma espécie de liberdade física de que gozava em África,
pelo mito de Coimbra, uma Coimbra romântica daquela liberdade libertina
que nos cantavam e nós cantávamos. (...) Imaginava uma Coimbra além das
suas reais dimensões. Era uma Coimbra poetizada, porque quando eu
queria concretizar na cidade essa imagem, era uma chateza do caraças".
Em
1949 entra para a Universidade de Coimbra, no curso de Ciências
Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Virá a concluir a
Licenciatura com um interesse apenas remoto, visto que a música era já
a sua principal motivação. Alguns dos discos iniciais traziam na capa o
nome do artista com "canudo": Doutor José Afonso. Desta época data,
também, o seu primeiro casamento, do qual nascem os seus filhos José
Manuel e Helena, e que será vivido no meio de severas dificuldades
económicas.
"RIOS QUE VÃO DAR AO MAR"
Como
tantos outros, José Afonso é atraído pela expressão musical mais aceite
na Academia: o fado. Os seus dois primeiros discos de 78 rotações, são
editados em 1953. Entre outros temas, neles estão Fado das Águias (o
primeiro tema gravado pelo cantor) e Solitário, de António Menano. É
acompanhado por
António Brojo e António Portugal nas guitarras e
Aurélio Reis e Mário de Castro nas violas. Três anos mais tarde edita o
seu primeiro EP, de novo com fados de Coimbra.
A
partir de 1958, já depois de uma digressão musical a Angola integrando
a Tuna Académica, onde a realidade colonial e o racismo o deixam muito
impressionado, José Afonso começa a cantar regularmente em
colectividades e meios populares, em parte para superar dificuldades
económicas.
Balada do Outono, um tema
decisivo para a superação da forma tradicional do fado de Coimbra, e
que está na origem do movimento da balada, é editado em 1960.
Águas
Passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar (...)
O
conteúdo político do tema, com letra e música de Zeca Afonso, é apenas
implícito. Mas foi descodificado pelos mais atentos, tal como não lhes
escapou a ousadia formal da "Balada", que crismará um género consagrado
na década seguinte. Na opinião de Louzã Henriques: "Considero muito
importante a Balada do Outono do Zeca, porque pela primeira vez aparece
uma coisa que, não tendo a estrutura de um fado, modificava a técnica
da própria balada (...). Pela própria evolução do país começa então a
vincar-se um desejo de intervenção política (...). Naturalmente, esta
consciência política radicaliza alguns grupos, surgindo daí uma certa
antipatia por coisas que eram tradicionais: a guitarra entra em
desprestígio, bem como o próprio fado, o uso da capa e batina, a praxe,
etc. (...) A guitarra praticamente desaparece ou passa para segundo
plano; o suporte musical passa cada vez mais para a viola".
Comentários
Cumprimentos Citar
Um génio! Imortal!
Não acho que tenha sido um azar ter nascido em Portugal… Pelo contrário, acho que só poderia ter sido Português! Venham mais génios. Citar