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Aldina Duarte
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Fadistas - Actualizado em Janeiro 02, 2011

Nasci em Lisboa. Cresci em Chelas num bairro social. A minha mãe alertou-me para a importância de aprender com tudo o que visse e ouvisse.

e da importância de usar a imaginação e os sonhos para superar as dificuldades da vida. Ensinou-me a acreditar na vida e a ouvir o coração.

Comecei a trabalhar com 20 anos num jornal, depois numa rádio e por fim no Centro de Paralisia Cerebral. Comecei por cantar no coro de um grupo meio musical, meio teatral, Valdez e as piranhas douradas, enquanto trabalhava no Centro de Paralisia Cerebral. A minha alegria passou para o meu trabalho e sei que os meus alunos têm hoje memórias que tornam as suas vidas mais agradáveis. Entre a minha vida diurna e a minha vida nocturna, durante um ano, participei no filme Xavier, de Manuel Mozos, a cantar o único fado que sabia desde pequena, A Rua do Capelão, e as filmagens eram mesmo na Rua do Capelão, na Mouraria. Os moradores da zona bateram tantas palmas que tive de repetir o fado só para eles ouvirem. Nunca mais esqueci essa noite e desde então sempre senti um grande respeito por esta arte.

Mais tarde, comecei a tirar tons na Casa de Fados onde, pela primeira vez, ouvi Beatriz da Conceição, recomendação imperativa do realizador Jorge Silva Melo, a quem fiquei de levar uma entrevista desta artista para ser utilizada num documentário sobre o fado; falámos de fado e da sua vida de fadista. Fiquei apaixonada por tudo o que ouvi, pedi-lhe conselhos, falou-me de tudo o que é mais importante no fado. Quis ser fadista. Passei dias a ouvir muitos discos de fado, noites a ouvir muitos fadistas, meses a ler e a decorar poemas. E o primeiro espectáculo que fiz foi para os funcionários do Centro de Paralisia Cerebral. Emprego que acabei por deixar.

Cantei fado, numa peça de teatro Judite Nome de Guerra, de Almada Negreiros, encenada por Germana Tanger, no Teatro S. Luís. Foi o primeiro Teatro em que estive no palco. Ganhei a noção do quanto estas profissões têm de sagrado, achando cada vez mais que muito mais havia para aprender. Pouco tempo depois, fui fazer os fins de semana na Casa do Registo da Mãe d'Água, uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, Noites de Fado nas Festas da Cidade. Comecei a achar que a comunicação era maior quando cantava em locais mais pequenos. Depois, veio a televisão, um programa de Filipe La Féria, Grande Noite. Ao fim de três programas senti que não estava no lugar certo, havia muitas luzes, estava sempre a mudar de roupa, a entrar e a sair de cena, não conseguia concentrar-me no que cantava e achei que não sabia o suficiente para merecer estar ali.

Depois deste começo, parei para ver o que queria fazer. Criei as Noites de Fado no Teatro da Comuna, com a ajuda do encenador João Mota e Paulo Anes, com quem muito aprendi sobre a seriedade e a beleza do teatro, da poesia e do fado. Senti-me em casa, entendida e apoiada. Foram criadas condições para aprender o essencial para me tornar uma fadista profissional. Cantei com o Camané, com quem havia casado entretanto. A sua genialidade como artista era marcante, o seu saber como fadista era uma lição permanente, o seu amor à sua profissão era um compromisso para a vida toda, o seu apoio e a atenção constantes ao meu trabalho ajudaram-me a tomar a decisão de ser fadista profissional. Convidávamos, uma vez por mês, os fadistas que admirávamos e os actores que diziam poesia de poetas portugueses, Beatriz da Conceição, Manuel de Almeida, Maria da Nazaré, Carlos Paulo e Manuela de Freitas. Com o apoio incondicional dos grandes amigos de sempre, as pessoas enchiam as nossas noites, os jornais falavam muito e bem da ideia, o público era composto por gente nova, menos nova, ricos e pobres, famosos e anónimos.

Recebi um convite para trabalhar, todas as noites, numa Casa de Fados. Era como se tivesse conseguido ter nota para uma entrada difícil na escola dos fadistas, a Casa de Fados. Quis criar durante o meu momento de cantar qualquer coisa do que havia sentido na minha passagem pelo Teatro S. Luís e na minha experiência na Comuna. Mantive os rituais que sempre achei distintos e belos no fado: o xaile preto, o vestido preto, discreto e elegante, o silêncio, a luz baixa, tudo o que sempre me deslumbrou desde a primeira vez que vi e ouvi diversos fadistas que, tantas vezes, diziam - o fado é uma coisa muito séria porque é sagrado. Fui bem sucedida, acabando por ser convidada a cantar noutras casas de fado e a participar em diversos espectáculos.

Um dia, surgiu um convite para o estrangeiro, um importante teatro europeu, o Piccolo Teatro de Milão, para cantar fado numa peça sobre a vida de Fernando Pessoa, "Os últimos Três Dias de Fernando Pessoa ", escrita por António Tabucchi e dirigida por Giancarlo Dettori (actor principal) / Lamberto Puggelli (encenador) / Giorgio Strehler (o Mestre). Desta experiência trouxe muito do que quero hoje para a minha vida e para o meu fado. O respeito dos artistas pelo público é total, jamais lhes mentem no que quer que seja, a gratidão é sempre declarada, a luta pela defesa de tudo o que é cultura dum povo, a devoção do público aos seus artistas é total, pois o público que eu vi entrega aos artistas o seu património e os artistas fazem tudo para merecer tal confiança. Desde a costureira, passando pela cozinheira, até ao seu mestre, todos entoam as suas canções, todos lêem os seus escritores, todos querem saber mais sobre as suas artes e a sua história.

Voltei cheia de saudades de Lisboa, da minha família, dos meus amigos, mas também da vida que de lá trazia. A riqueza que eu vi lá também a vejo cá. Comecei a ter mais cuidado no que cantava e como cantava. Ouvi sempre com total atenção o que o José Mário Branco dizia, durante as gravações dos discos, ao Camané e aos músicos que o acompanhavam, o silêncio também é música. Fui para outra casa de fados, onde permaneço até hoje, a casa de Maria da Fé, a quem oiço dizer que o fado é sempre um mistério, nunca sabemos como estamos e o que vamos conseguir fazer, tudo o que temos no coração aparece no que cantamos. Como a Manuela de Freitas muitas vezes diz - o poema tem que ser cantado de dentro.

E agora começou a nova aventura, uma nova aprendizagem, os concertos; levar o Fado, este fado, o meu fado, o fado de todos nós, para outra dimensão e protegê-lo de adversidades ou perversões várias, aprendendo a conhecer profundamente esse lugar chamado Palco e esse circulo alargado de ouvintes chamado Público. Em Portugal, o local de eleição de sempre e para sempre desta arte exclusivamente nossa; os melhores aqui na nossa terra, serão sempre os melhores no mundo, porque somos únicos, e os únicos que sabemos como ninguém poderá saber e sentir esta arte, a solidão e a ignorância entre fadistas e portugueses poderão, às vezes, fragilizar quem se entrega à defesa e descoberta desta estranha forma de arte e de vida tão antiga e simultaneamente nova, salvando-se sempre na perspectiva permanentemente renascida duma eternidade possível!

Vou cantando para além de Lisboa, o ponto de partida do meu fado para todo o lado, e de onde parto e aonde regresso sempre para tudo, para cantar o meu fado quer a norte quer a sul de Portugal… por cá alargam-se os espaços e cresce o número de corações que me ouvem no que tenho para lhes cantar, o que é uma grande responsabilidade e um desafio… lá por fora a não compreensão da língua ainda não bloqueou a partilha do essencial, pelo contrário, em Marrocos, em Viena de Áustria, na Bélgica - a cantar para José Saramago e para o seu público (todos tradutores especializados na obra do escritor a quererem saber mais p'la boca do próprio) - e de volta ao Piccolo Teatro de Milão agora para apresentar o meu trabalho de "Apenas o Amor", onde encontro desde sempre pessoas com quem aprendo e desperto para o essencial; desta vez conheci o trabalho e pessoalmente um Grupo de Teatro da Palestina, um grupo de actores, músicos e um encenador que se juntam no meio duma guerra para alimentar a criação artística que dizem que os ajuda a acreditar na paz e na felicidade para que afinal todos nascemos…

E a mim cabe-me dar tudo a cantar, também no palco da Culturgest, para merecer o convite de Miguel Lobo Antunes, para quem um gesto de cultura passa também pelo encontro e pela conversa "cara a cara" entre quem convida e quem é convidado, para se verem e ouvirem a pensar alto sobre o trabalho em causa e a vida em geral… o que à partida me fez sentir em casa porque acredito na existência da minha arte (e na das artes em geral!) como algo essencial na construção de um mundo melhor, mais sensível, inteligente... mais desperto e mais humano!
Regresso sempre a casa com orgulho e gratidão pela grandeza desta arte que preserva cuidadosamente uma música que nasceu para a servir a nossa língua na sua forma mais inteira no som e no silêncio,  a palavra escrita, a palavra dita, a palavra cantada, a Poesia. Como diria o pensador "não fora a

A cada partida regresso com a certeza de estar ligada a esta terra acima de tudo porque sou fadista, seria incapaz de exercer esta profissão fora desta morada; andei "lá por fora", Itália, Espanha, França e Holanda, com permanência duradoura em Amesterdão, cidade que me encantou à laia dum conto de fadas. Todas estas minhas primeiras viagens pelo mundo são mais um motivo de gratidão à minha profissão, porque aprendo infinitamente com todas e tantas diferenças culturais, geográficas e humanas que só as viagens nos ensinam, porém, quando a distância de Lisboa é demasiada a minha motivação para cantar enfraquece, como se lhe faltasse o alimento que só pode vir de todos os afectos com que cresci e cresço dia-a-dia. Quero continuar a partir, por curtos espaços de tempo, só para redimensionar o regresso… a mim e aos meus amores!

Nesta altura da minha vida ando a descobrir(me) no meu último disco -CRUA - e no concerto outros sentidos dentro do mesmo caminho; consegui fazer o CRUA só com Letras do João Monge sobre músicas do Fado Tradicional! Enquanto intérprete, sem falsas modéstias, tenho a certeza que cresci com esta oportunidade única; canto alguém de muito talento que vive no mundo e no tempo em que vivo, a criatividade construtivamente confrontada, questionada e discutida com quem acredita e ama a nossa arte como nós, com todas as semelhanças e diferenças que nos unem, permitiu-me aprofundar o meu trabalho e, sem espanto, a própria vida!…


 

Comentários 

 
+1 #1 frade 2008-12-22 14:54 Gosto do que faz,porque faz com gosto.
Quem assim faz merece respeito e admiraçao
Gosto do fado das vendedeiras,mes mo em tempo de crise???

Um Abraço, Aldina e força
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#2 Ana Paula Valente lacerda 2009-06-06 21:37 Aldina!…Que surpresa agradável saber que seguiste a carreira de fadista…Mtas vezes me perguntei o que teria sido feito de ti, deixei de te ver cá no bairro de chelas, onde ambas nascemos e morámos…Fomos colegas na primária, onde já nos encantavas qd cantavas o fado maravilhosament e para a idade de então…qd fecho os olhos ainda vejo a tua imagem ao cantares lá na escola da Camara (como lhe chamávamos)…Ainda tenho fotos nossas, da nossa turma só de meninas :)
Li aqui que estás na casa da Maria da Fé, um dia destes vou ouvir-te e quem sabe ainda te recordes aqui da (Paula Valente), como vocês me chamavam :-) Parece emntira, mas é desse tempo que mais sinto saudades, pois era o tempo da nossa inocência pura e da ignorância sobre a dura realidade que é a vida.
Hei-de ir visitar-te, pois não sei outro método de te voltar a ver e mto provavelmente não terás tempo para nos vermos de outra forma que não essa.
Força amiga, mostraste cedo a boa fadista que hoje és…Mereces
Até um dia destes.
Bjos

"Paula Valente"
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