Paulo de Carvalho na Casa da Música versão para impressão enviar por e-mail
Ao Vivo - 11.02.2008
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Primeiro, entra Paulo de Carvalho, com Carlos Manuel Proença, José Manuel Neto e Daniel Pinto, e interpreta uma mão cheia de canções, mesmo a jeito tradicional, mas com um notável toque pessoal.


Casa da Música - Porto - 09/02/08

Paulo de Carvalho deslocou-se à cidade do Porto para apresentar pela primeira vez um espectáculo encomendado pela Casa da Música. O convite pedia ao músico que apresentasse a sua visão particular da canção portuguesa, todos os restantes pormenores seriam da sua responsabilidade.

"DoFado" foi o nome que Paulo de Carvalho deu a este seu trabalho. Tinha lido, antes de sair de casa, um artigo do Jornal de Notícias acerca deste concerto, onde encontrei várias palavras do próprio protagonista. Diz ele que "o fado deve ser misturado" e penso eu "não posso estar mais de acordo". Mas tanto posso que fiquei mesmo quando li: "não quero que o fado fique preso num espectáculo, em que se canta de olhos fechados".

Bem, ao entrar na Sala Suggia da Casa da Música, fiquei surpreendido: não sabia que o nome de Paulo de Carvalho era capaz de encher assim uma sala daquelas. Ao pôr os olhos no programa do espectáculo, reparo que o cantor trará consigo um trio de guitarras acústicas, característica fundamental do fado, e ainda um trio piano, baixo e bateria. Achei demasiado arriscado juntar-se estes seis instrumentos, mas poderia ser que resultasse em algo genial e único. Mas afinal, o concerto teve "várias fases". Passo a explicar...

Primeiro, entra Paulo de Carvalho, com Carlos Manuel Proença (guitarra clássica), José Manuel Neto (guitarra portuguesa) e Daniel Pinto (baixo acústico), e interpreta de seguida uma mão cheia de canções, mesmo a jeito tradicional, mas com um notável toque pessoal. "Uma Canção", "O Homem das Castanhas", "Os Putos", "Lisboa Menina Moça" e "Desculpem Qualquer Coisinha" aqueceram e deram as boas-vindas a um público que começou assim a ficar encantado.

Depois deste bem sucedido início quase sem pausas, Paulo de Carvalho aproveita para agradecer o convite que lhe foi feito e para cumprimentar a cidade que não visitava em palco há muito tempo. Posto isto, estava na hora de chamar a primeira convidada da noite: Beatriz da Conceição, nome grande e incontornável da história do fado. Com os mesmos três instrumentistas em palco, ofereceu aos presentes três fados autênticos, o último deles uma composição a si dedicada da autoria de Paulo de Carvalho e Tiago Torres da Silva.

Findada esta louvável participação, era hora do anfitrião da noite retomar a sua actuação. Durante mais alguns temas ainda com a tradicional formação, mas com outro convidado ao piano. André Sarbib mostrou que os blues e o fado, às vezes, podem ter tudo a ver, "Serenadas de Hilário no Céu", com poema de António Gomes Leal, surpreendeu e animou os presentes com uma divertida interpretação de Paulo de Carvalho. Apenas uma crítica a apontar: não pareceu resultar muito bem a simultaneidade do piano com as guitarras acústicas, se bem que, na maior parte do tempo, estas duas vertentes tenham intercalado os seus tempos de antena.

A transição para o trio que iria, estava prometido, apresentar alguma inovação, foi feita usando o tema "Cacilheiro", tocado por duas vezes por dois grupos de músicos diferentes, demonstrando duas leituras distintas do fado. Na segunda volta, para além do cubano Victor Zamora (piano), do brasileiro Gustavo Roriz (baixo) e do português Joel Silva (bateria), subiram ao palco o uruguaio Antonio Serrano (harmónica) e, aparecido de repente a meio da canção, o rapper AGIR, alter-ego de Bernardo Costa, filho de Paulo de Carvalho, que espantou tudo e todos com a sua enérgica intervenção. Atingiu-se o clímax do concerto e estava praticamente assegurado o sucesso do espectáculo que se tornou mais animado e festivo com a recriação do fado feita pelo tal trio piano, baixo e bateria.

Mas apenas mais uma canção assim se ouviu, os músicos abandonaram o palco e Paulo de Carvalho convidou a entrar um Grupo de Cantares de Mulheres do Minho. Sinceramente, nada podia quebrar mais a animação conseguida anteriormente. Com uma actuação amadora, o inocente grupo de mulheres interpretou, a capella, alguns cantares tipicamente rurais e, desculpem-me lá, desisteressantes. Passemos, então, à frente este mau momento...

Voltou ao palco o jovem baterista Joel Silva e Paulo de Carvalho viajou mais uma vez com o fado, desta vez para o adornar com ritmos africanos. E mais uma vez me supreendeu, ao fazer solos quer rítmicos quer melódicos, chegando a brincar com a sua voz, mostrando um grande à vontade.

A seguir, deu-se um passeio pelo Brasil, seguindo o balanço da maravilhosa onda do samba. Assim, retomou-se a animação e o concerto acabou com todos os convidados em palco a entoar em coro a quadra "Os meninos à volta da fogueira / Vão aprender coisas de sonho e de verdade / Vão aprender como se ganha uma bandeira / Vão saber o que custou a liberdade", do tema "Meninos de Huambo". Quer dizer, o fim só veio mesmo com um regresso de Paulo de Carvalho ao palco para cantar o obrigatório e eterno "E Depois do Adeus", acompanhado por André Sarbib.

Resumindo, do fado para os blues, para o hip-hop, para o samba, para a world music; da canção portuguesa para o Brasil, para África, para todo o mundo... Desmanchando e reconstruindo o fado com toda a tranquilidade...

Mais um histórico cantautor a descobrir... e este tem 46 anos de carreira!

Jotta


 




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