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Rabih Abou-Khalil & Ricardo Ribeiro - Em Português

Records - Dezembro 02, 2009
Enja Records / 2008
"O que mais me fascina neste singular e fascinante trabalho discográfico é verificar como Ricardo Ribeiro consegue harmonizar admiravelmente a sua voz com a música de Rabih Abou-Khalil, e sem prejudicar a dicção"...

Nascido em Beirute, em 1957, mas radicado em Munique desde que a guerra civil rebentou no Líbano em finais dos anos 70, Rabih Abou-Khalil começou por estudar alaúde e flauta clássica, até se especializar e tornar num virtuoso daquele instrumento consagrado pela tradição árabe. Rabih não se limitou, porém, a recriar a sua tradição, nem a explorar qualquer outro idioma musical convencional. Especializou-se, no lugar disso, em ensaiar novas linguagens de fusão, interpelando o jazz e a música clássica, mas também e cada vez mais as músicas do mundo. É o que ele chama de "folclore imaginário", um som que quer ao mesmo tempo ser novo e estranho e, todavia, natural e familiar. Daí também a singularidade dos músicos que o acompanham, integrando-se na actual formação o acordeonista italiano Luciano Biondini, o baixista francês Michel Godard e o percussionista norte-americano Jarrod Cagwin. Músicos que têm a escola das suas próprias raízes, mas partilham também do ecletismo e da versatilidade que são a divisa do alaúdista libanês. A mais recente aquisição deste bando de vagabundos sónicos é Ricardo Ribeiro, ele que é o rosto e a alma de "Em Português". Mas, afinal, quem é Ricardo Ribeiro?

Nascido em Lisboa, em Agosto de 1981, e criado no bairro da Ajuda, Ricardo Ribeiro começou a cantar fado entre amigos, logo aos 9 anos. Aos 12 já se estreava frente a uma plateia, numa festa da colectividade do seu bairro. Veio a Grande Noite do Fado: foi segundo classificado em 1996, levou a taça nos dois anos seguintes. De maneira que ainda com 15 anos passou a actuar em restaurantes e casas de fado, até que aos 18 resolveu fazer do fado profissão. Entrou pela primeira vez em estúdio para gravar um tema, num disco de tributo a Amália Rodrigues, lançado pela World Connection em 2004. Foi uma espécie de ensaio para o álbum de estreia homónimo, editado no início do ano de seguinte, na colecção de antologias da Companhia Nacional de Música, de Nuno Rodrigues. Hoje Ricardo não se orgulha, nem se envergonha dessa primeira experiência de gravação: "Foi um disco um tanto atribulado, porque eu na altura não tinha muita experiência e não foi algo que tivesse ponderado muito. O reportório constituído por fados tradicionais foi escolhido em função da minha sensibilidade, mas contei com a ajuda do Jorge Fernando. Por ocasião do lançamento do álbum dei uma entrevista ao "Y" [do "Público"] e o encenador Ricardo Pais (Teatro Nacional de São João, Porto) leu, foi comprar o disco e veio ver-me em espectáculo, a Lisboa. Convidou-me logo para fazer ‘Cabelo Branco é Saudade’, um espectáculo com Celeste Rodrigues, Argentina Santos e o Alcindo de Carvalho, fadistas na casa dos 80 anos. Fui convidado a título de jovem fadista que partilha a linguagem desses veteranos."

Um dos raros jovens talentos, poderá acrescentar-se, educado e comprometido com a tradição do fado mais castiço, poético e dramático da Lisboa doutras eras. Seguiu-se a digressão nacional e europeia (Espanha, França, Itália) e a edição em DVD de "Cabelo Branco é Saudade". Entretanto, "o Ricardo Pais também me dizia: ‘Você é a pessoa indicada para uma coisa que eu há muito tempo tenho na cabeça. Foi aí que me apresentou o Rabih Abou-Khalil, que ele tinha convidado para assistir a ‘Cabelo Branco é Saudade’". O projecto de Ricardo Pais já tinha nome, por sinal bem sugestivo: "Mariquinhas Dream House". Era para ser uma fantasia em torno da época de Alfredo Marceneiro, mas nunca chegou a acontecer. Ou melhor, evoluiu para o formato de concerto com Ricardo Ribeiro a assumir o papel de cantor do novo espectáculo em português de Rabih Abou-Khalil. A sua primeira cristalização traduziu-se em quatro espectáculos, dois no São Luiz, em Lisboa, dois no São João, no Porto, todos em Julho de 2007.
Um ano depois, no palco do CCB, o libanês apresentou canções num português mesclado de italiano, mas perfeitamente inteligível. Quando começou a trabalhar com o jovem fadista português, no entanto, não entendia patavina da nossa língua. Recorda o cantor: "Foi mesmo com ‘A Casa da Mariquinhas’ que tudo começou e por isso é o único clássico que acabou no alinhamento do disco. O Rabih ouviu o Marceneiro cantar, descobriu que a língua portuguesa tem a ver com o ritmo da música dele e compôs estas canções.

‘Em Português’ acabou, no entanto, por não ter nada a ver com o projecto inicial do Ricardo Pais. Até porque a princípio o que havia eram letras do Jacinto Lucas Pires, mas que ele entendeu que não deviam ganhar a forma de disco. Fui eu que acabei por pedir a poetas como o Mário Rainho, o Rui Manuel e Tiago Torres da Silva para escreverem as letras para estas músicas."
O sustento da aventura portuguesa do libanês foi, porém, a sua química instantânea com Ricardo Ribeiro. "Logo de início, quando o Rabih fez a primeira música, ao fim de três audições comecei a improvisar uma interpretação e ele ficou radiante. Até comentou: ‘É incrível como um jovem português canta a minha música com se fosse dele’. Criámos uma empatia tão forte que não sei explicar. Há uma frase de que eu gosto muito: ‘Ao ser humano não acontece aquilo que merece, mas sim aquilo a que se assemelha’. Ainda hoje nos tratamos por ‘irmão’."

Para um jovem tão próximo dos clássicos do fado, acaba assim por surpreender a adesão a um projecto tão experimental como "Em Português". Ricardo Ribeiro responde, porém, que há mais que um Ricardo Ribeiro:
"É evidente que em certas frases que canto neste disco há entoações fadistas. Não posso, contudo, dizer que é fado porque não é, nem esse era o objectivo. ‘Em Português’ não é o fado, sou eu. Este disco representa outra faceta. Sou fadista, mas posso cantar outras músicas, aliás, como também acontece no tema em espanhol que canto no novo disco do João Gil. Não tenho qualquer tipo de problema com isso, mas há coisas que devem permanecer intocáveis. Não estou de acordo que se altere. Estou de acordo que se inove, mas não que se altere. De contrário já não sabemos que identidade temos, de onde vimos e para onde vamos."» (entrevista a Luís Maio, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 12.09.2008)

Demos agora a palavra a Rabih Abou-Khalil: «"A primeira coisa que tentámos foi a minha versão da ‘Casa da Mariquinhas’. Tinha feito uns arranjos difíceis e fiquei espantado com a velocidade com que ele apanhava a linha melódica." Mas não é só a forma como canta que lhe agrada em Ricardo Ribeiro. Uma das coisas que o levou a acreditar que esta seria uma parceria que podia funcionar é a forma como o fadista interage com os outros músicos. "É uma coisa que poucos fazem. Ricardo está atento a tudo o que está a acontecer e vê-se como parte disso. É muito raro, porque geralmente os cantores quando cantam são só eles e mais nada." Passa-se tudo, portanto à volta de uma língua que ao princípio Rabih não falava e que é a única que Ricardo fala. Difícil, imaginamos. Mas não para o libanês. É certo que desde pequeno que conhecia Amália Rodrigues, através de um disco, "Busto", que os pais tinham comprado numa viagem a Lisboa e tinham levado para Beirute, onde a família ainda vivia (Rabih deixou o Líbano em 1978 e instalou-se em Munique, onde casou com uma alemã). Era uma música que os pais achavam "muito, muito triste", mas que ele pensava que "não era assim tão triste".

Depois, nas várias visitas a Portugal, onde tem vindo dar concertos, comprava sempre discos de fado. E foi capturando o ambiente, ele que quando vê, ouve, prova, sente ou cheira alguma coisa pensa sempre se a pode transformar em música. É uma espécie de deformação profissional: "Penso sempre: ‘isto será música?’ Bacalhau pode ser música?", explica, rindo. Mas, apesar do cruzamento de sonoridades estar na base do seu trabalho como compositor, nunca se tinha imaginado na aventura de fazer um disco (que é o seu primeiro com voz) a partir de palavras que não entendia. No entanto, sendo filho de um poeta ("e qualquer pessoa com um pai poeta tem algo de português"), tem uma relação com as palavras que vai para lá do sentido. "É como a pintura abstracta. Posso decidir se gosto ou não de um poema pelo som das palavras, pelo ritmo." Foi assim que começou a compor para português – se bem que no processo tenha começado a compreender e a falar a língua. Quer, no entanto, deixar claro uma coisa: este disco não é "fado com alaúde" nem "música árabe com fado". É algo que transcende isso, apesar de ele não ter (nem querer ter) um rótulo para lhe pôr. "Seria idiota vir de uma cultura diferente e dizer que compreendo o suficiente para acrescentar alguma coisa ao fado."» (entrevista a Luís Maio, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 12.09.2008)

Quando soube da existência do disco, e que era cantado por um fadista com música de um compositor do mundo árabe, receei que o produto final fosse qualquer coisa deste género: de um lado, uma voz a cantar fado e, do outro, uns músicos a tocar música árabe. Enganei-me e ainda bem: o que mais me fascina neste singular e fascinante trabalho discográfico é verificar como Ricardo Ribeiro consegue harmonizar admiravelmente a sua voz com a música (nada previsível e sempre surpreendente) de Rabih Abou-Khalil, e sem prejudicar a dicção, coisa nada fácil quando se adopta o estilo árabe de cantar e de entoar as palavras. Em certas passagens, até dá a impressão que a voz é uma imanência do alaúde, uma espécie de ‘alter ego’ vocal do instrumento, sobretudo nos registos mais graves. Genial! Resumindo e concluindo: "Em Português" pode incluir-se, com toda a justeza, entre as melhores obras que até hoje se fizeram à luz do conceito de música luso-árabe, e que nada desmerece o que de muito bom já fizeram neste domínio Janita Salomé e Eduardo Ramos.


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