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Gonçalo Salgueiro: "O Fado enquanto sentimento não distingue nacionalidades."

Interviews - Janeiro 18, 2010
Gonçalo Salgueiro tem um novo CD de título homónimo. Editado em Dezembro passado o novo trabalho marca a estreia de Gonçalo Salguerio na escrita de poemas.

"Meu amor d'uma hora" é o tema que abre o álbum, a autoria do poema é de Gonçalo Salgueiro, a música de Marceneiro. A acompanhá-lo no CD estão Ângelo Freire (guitarra portuguesa), Diogo Clemente e Rogério Ferreora (viola) e Filipe Larsen (viola-baixo). Gonçalo  Salgueiro assume a produção executiva e concepção.

 A maior parte dos poemas é de sua autoria, como foi a aventura de escrever, de se "expor" ainda mais...

A poesia é uma das minhas grandes paixões pois desde sempre me foi incutido o gosto por ela, sobretudo através da minha mãe que me apresentou a uma das minhas grandes referências que é Florbela Espanca, e através da minha tia Maria de Lourdes de Carvalho, poetisa de fado há mais de 30 anos. Eu sempre escrevi. Apenas nunca tinha tido a coragem de tornar públicos os meus poemas e foi depois de apresentar dois poemas ao Jorge Fernando que fui encorajado a escrever mais poemas, com o intuito de eu próprio os cantar num futuro trabalho. Embarquei então, nesta que foi uma das maiores aventuras da minha vida, aliando os meus poemas a músicas de fado tradicional, que muito me dizem. Já para não esquecer a enorme dificuldade que existe cada vez mais em encontrar novo reportório poético de qualidade e frescura para o Fado.

O que disse a sua tia quando leu e ouviu os poemas?
A minha tia ficou tão surpreendida como o resto das pessoas a quem eu os dei a conhecer e como as pessoas que agora os ouvem e lêem neste novo trabalho. Encorajou-me a continuar. Presumo que terá gostado!...


Neste novo CD procurou uma maior definição da sua carreira fadista?
Penso que a minha carreira está bem "definida" e há dez anos. Este CD é o fruto de uma maior maturidade pessoal e artística, adquirida ao longo do meu percurso, tanto que é com muito orgulho que assumi parte da produção e a total concepção deste CD/DVD.

Fadista ou actor/cantor?
Esta pergunta é sempre muito "interessante". Acima de tudo, sou um artista. Parece-me que há sempre a necessidade de catalogar talentos. Um artista é um artista e como tal pode e deve, caso tenha a necessária versatilidade, procurar novas experiências, enriquecendo-se a si próprio e à(s) arte(s). Um fadista é sempre um cantor. A mensagem que é passada através da sua voz deve ser sempre bem interpretada e como tal um bom fadista deve também ter sempre um pouco de actor. Portanto, qualquer uma destas vertentes que apresentou nunca são opostas mas sim complementares e necessárias, daí que o meu percurso tenha sido e seja sempre o mais abrangente possível.

Neste novo trabalho há um vincado gosto pelo fado tradicional, porquê?

Porque esse gosto sempre existiu e quem acompanha as minhas apresentações sabe que sempre cantei fado tradicional, o qual muito respeito. Neste trabalho senti necessidade de dar resposta a essa minha vontade e às inúmeras pessoas que me perguntavam o porquê de não o gravar, e uma vez arranjado o reportório ideal para mim, resolvi fazê-lo. É muito gratificante e um aliciante desafio poder pegar em músicas já tão cantadas e torná-las "minhas".

Sendo dotado de uma excelente e bonita voz a sua carreira podia ir mais além, Fernanda Maria afirma-o na contracapa do CD, mas parece ziguezaguear, ou estou mal informada?
Espero que uma jornalista nunca esteja mal informada e muito menos que não faça o trabalho de pesquisa necessário antes de entrevistar seja quem for. Fernanda Maria foi muito gentil ao ter escrito um texto tão sincero e elogioso relativamente ao meu trabalho mas nunca referiu o poder ir "mais além". Mesmo porque, creio, que depois de dez anos a cantar aquém e além fronteiras, três trabalhos a solo, participações em inúmeros outros trabalhos discográficos (até mesmo como produtor) e em marcos do teatro português como sendo o "Amália", "Egoísta" e "Jesus Cristo Superstar", sinto que alcancei muito mais que o que alguma vez poderia sonhar. Sinto-me altamente grato e realizado. Para mim, o "mais além" é o saber que ganhei um lugar especial no coração de muitas pessoas.

Sabemos que o fado não se faz lá fora, mas vai cada vez mais para fora, como têm sido as suas actuações além-fronteiras?

As minhas actuações além-fronteiras têm corrido sempre muito bem e têm sido altamente gratificantes, graças a Deus. Quanto ao Fado não se fazer lá fora, não é bem assim. Há cada vez mais pessoas de outras nacionalidades a cantar Fado e a vivê-lo intensamente. Inclusivamente eu, uma vez que também sou produtor musical, produzi um disco de fados tradicionais portugueses com poemas catalães para uma artista espanhola, que alcançou grande sucesso com este nosso trabalho. O Fado enquanto sentimento não distingue nacionalidades.

O CD foi lançado em Dezembro, mas vai ficar por aqui? Ou está previsto uma série de concertos?
Sim, estão previstos alguns concertos e apresentações, a anunciar em data própria.

Como surgiu a parceria na produção com o Diogo Clemente?

O Diogo Clemente acompanhou-me pela primeira vez quando tinha cerca de 17 anos, sendo já um bom acompanhante e um músico humilde e ávido de conhecimento. Depois de eu ter ponderado todo este trabalho na sua concepção, achei que era a pessoa indicada pelo seu bom gosto e abordagem clássica mas não conservadora, para concretizar este projecto. Assim juntámos a vontade que ambos tínhamos de trabalhar juntos.

Dos fados que constituem o CD há algum favorito e algum que ache que nunca será capaz de cantar em público?

Uma vez que este disco é inteiramente dedicado à minha mãe, o tema que escrevi propositadamente para ela "Quis Deus que fosses Maria", provavelmente será difícil de cantar em público, pela sua carga emocional. Mas como eu sou uma pessoa verdadeira e humilde não tenho vergonha que os outros percebam a minha emoção ou até a comoção. Penso até que é uma forma de honrar o público.

Há uma escolha de intérpretes/poetas... cantar António Rocha, considerado um dos mais tradicionalistas e o "rei do menor", intimidou-o?

Foi minha intenção fazer um disco em que todos os poemas fossem escritos por pessoas que também são intérpretes, pela grande verdade e sensibilidade que quase sempre espraiam na sua escrita. Daí, a presença de Amália, Tozé Brito, Diogo Clemente, eu próprio e António Rocha no tema "Pede à Saudade". Tema que muito me comove, não só pela beleza dos seus versos mas sobretudo pela soberba música de Manuel Mendes, meu querido amigo, que muitas vezes me acompanhou e me entregou este tema antes de nos deixar.

Há a referência constante de Amália no seu cantar, uma vez mais, neste terceiro álbum a solo, fez questão de a vincar...
É bem sabido que Amália é, e sempre foi, uma das minhas principais referências no seu estatuto de génio internacional da música e como a principal responsável pelo Fado que hoje em dia conhecemos e cantamos. Como tal, ela está sempre presente nos meus trabalhos e gosto de pensar que também está nos trabalhos de toda a minha geração e não só. Este álbum fala de amor e da sua ausência e pensei que seria descabido não incluir nele as palavras de uma das mulheres que mais o cantou e viveu. É na sua condição de poeta e intérprete dos grandes sentimentos que Amália está presente neste disco "Gonçalo Salgueiro".

O Tozé Brito tem escrito para o fado, Ana Moura é um exemplo, como surgiu este tema dele no seu trabalho?
Foi para mim uma grande honra o Tozé Brito, que muito admiro, ter acedido ao meu pedido e ter-me entregue este belíssimo tema "Como chuva em Agosto". Mais uma vez, as suas composições se adaptam de uma forma única ao sentimento do Fado e essa foi também uma das razões que me levou à escolha deste tema para ser um dos singles do meu disco.

O “Fado Versículo” assume-o como sendo de Alfredo Marceneiro?
Sempre conheci o Fado Versículo como sendo de Alfredo Marceneiro...

Se o Versículo foi envolto em polémicas o fado vive um momento alto, como vê as actuais lides fadistas?
Eu procuro sempre não me envolver em polémicas e vou continuar a fazê-lo. As actuais lides fadistas e o momento alto do Fado vejo-o, com muito agrado uma vez que, já por inúmeras vezes o Fado teve "morte anunciada" e assim se prova que a Canção Portuguesa está nesta era da globalização mais viva que nunca.

Qual a sua opinião sobre a candidatura do fado a património da humanidade? Irá beneficiar o fado?
A candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade é apenas justa uma vez que é um género musical único, apreciado por todo o mundo. Quanto às benesses, aguardaremos para ver...

Jornal Hardmúsica


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