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Joana Amendoeira: "O fado teve sempre renovadores..."

Entrevistas - Outubro 28, 2010
O concerto em Oviedo de Joana Amendoeira foi o mote para uma entrevista levada a cabo por Ángel Fernandez um entusiasta do fado e radialista asturiano.

Tão jóvem e já com sete discos... o que traz o novo "Sétimo fado" à sua carreira? Qual foi o conceito, as ideias que usou para a gravação?

 

O meu novo disco “Sétimo Fado” não é propriamente um disco temático ou conceptual numa só ideia, é um disco para o qual fui seleccionando diversos poemas e músicas, quase todos originais, repletos de sentimentos e vivências dispersos que reflectem naturalmente o que sou, o meu crescimento pessoal e como fadista. Eu penso que este disco é aquele em que consegui reunir, em qualidade, o maior número de poetas, compositores, assim como qualidade musical pelos músicos que me acompanham, e que são, também os grandes responsáveis pela realização que sinto cada vez que oiço as gravações. Durante a fase de criação em estúdio procurámos ser muito verdadeiros, gravando todos ao mesmo tempo para essa emoção passasse em cada música. Para além dos momentos mais puros de fado gravados só como trio de fado, o Pedro Amendoeira - Guitarra Portuguesa (meu irmão), o Pedro Pinhal - Viola de Fado e o Paulo Paz - Contrabaixo, também convidei o Davide Zaccaria - Violoncello e o Filipe Raposo, pianista de um talento inestimável (que também toca acordeão), responsável por muitos dos arranjos deste disco. Esta é uma sonoridade nova no meu percurso, mas penso que são as experiências que nos enriquecem a alma e se com esta sonoridade puder contribuir para o universo do Fado, fico muito feliz. São nuances quentes, que pintam o Fado que nos sai do coração e da alma, com as quais me identifico muito neste momento. Agora com 28 anos sinto-me bem mais madura do que nos álbuns de estúdio anteriores e penso que essa maturidade transparece na interpretação de cada fado .

 

Ja tem distância bastante para falar da sua trajectoria como fadista? Como definiria esta sua carreira?


Eu penso que tenho tido um percurso gradual e assente em fortes alicerces. O fado despertou na minha vida aos 6 anos, altura em que eu não tinha qualquer consciencia da magnitude que o Fado teria no meu desenvolvimento e na minha vida. Eu realmente cresci com o Fado. Considero os meus primeiros dois discos (1998 e 2000), gravações adolescentes em que cantava muitos fados das minhas referências e foi a partir do disco “ Joana Amendoeira ” (2003) que comecei a delinear a minha personalidade como fadista, começando a apresentar um repertório próprio, bem vincado no fado tradicional com poesías originais. Também o facto de ter cantado 9 anos no Clube de Fado (até ao final de 2009), foi importantíssimo neste crescimento, pelo contacto com todos os músicos e fadistas que tanto me ensinaram, como foi o caso especial do meu querido mestre José Fontes Rocha (guitarrista e grande compositor) e pela experiencia diária de enfrentar o público. Considero também que as minhas experiências em palcos internacionais, cada ano que passa, mais intensas e numerosas, perante culturas tão diversas e distantes de Portugal, têm sido muito importantes no meu crescimento e na minha maturidade. Sou uma fadista sempre com um pé na tradição e na modernidade, preocupada em contribuir com um reportório próprio para o Fado e com iniciativa para fazer experiências, convidando instrumentos fora do fado para se juntar à nossa forma tradicional de o tocar e cantar: o objectivo é enriquecer e não transformar o Fado.

 

Há uma distância grande entre o fado das casas de fado de Lisboa e o fado que vocês apresentam nas grandes salas?


Eu penso que não, porque não mudo a minha forma de cantar num local ou no outro, o que pode diferir é o lado mais intimista que está subjacente numa casa de fados, mas numa grande sala também é possível trazer as pessoas para junto de nós em cima do palco. Tudo depende da empatía que se consegue criar e normalmente a magia do fado conquista tanto salas de centenas de pessoas, ou locais ao ar livre para milhares de pessoas ou simplesmente uma pequena casa de fados… é por isso que cada vez mais há convites a todos os fadistas da nova geração, principalmente, para Teatros, Salas de Concerto ou Festivais em todo o mundo!

 

Tem cantado sozinha com uma guitarra e também com uma orquesta sinfonica. O fado muda?

 

Não, o Fado nunca muda, pois a minha abordagem e a dos músicos de trio de Fado que me acompanham é a mesma, é puramente fadista e nos casos em que tocamos com Orquestras Sinfónicas, o que já aconteceu 4  vezes, os arranjos estavam pensados para complementar a nossa forma natural de tocar. Tocamos da mesma forma como se estivéssemos sózinhos mas nesses casos com as cores clássicas das cordas, das madeiras e metáis, dos sopros. Foram momentos inesquecíveis para mim…

 

Quais são os  pontos altos da sua evolução musical. Os "hits" do seu fado. Talvez algum poema escrito especialmente para si?

 

Sim, o mais especial de todos é o “Amor mais Perfeito”, de autoria de José Fontes Rocha com poema de Mário Raínho, que felizmente gravei com ele ao vivo no álbum “Ao Vivo em Lisboa” (2005). Mas há muitos outros fados que são muito especiais para mim e reflectem a evolução que tenho desenvolvido por exemplo músicas do meu irmão, do Paulo Paz e do Pedro Pinhal, particularmente o “Se eu adivinhasse que sem ti” e muitos deste novo disco “Sétimo fado ”, como o “ Fado Rosa Maria ”, o “ Fado de um amor que ficou” e o “Pão das Palavras”.

 

Há um grande divorcio entre os que abonam pelo classicismo no fado e os renovadores do género?

 

A meu ver, esse divórcio está a ser cada vez menor e finalmente está a ser reconhecido o trabalho que muitos jovens estão a fazer. O fado na sua história teve sempre renovadores ou pessoas com iniciativa de experimentar, os exemplos maiores são Amália e Carlos do Carmo e sempre foram muito contestados pelos puristas, que mais tarde reconheceram o legado que nos deixaram e deixam ainda hoje em dia! O Fado evolui naturalmente e o que os puristas deviam ter também em atenção é que os jovens estão preocupados em manter a tradição, buscando os fados tradicionais antigos para que nunca sejam esquecidos, mas ao mesmo tempo reflectimos a época e as influencias do nosso tempo, que trazemos na nossa voz!


Que surpresas tem encontrado na sua vida divulgando o fado pelo mundo ?

 

A maior surpresa aconteceu quando na Suécia fiz varios concertos e uma pessoa do público me disse que tinha aprendido a falar portugués pela paixão que sentía pelo Fado e pela mágoa de não saber o conteúdo das letras. Acho isto de uma beleza impresionante, o poder da música e particularmente do Fado deixa-me muito orgulhosa por ter nascido num país com uma tradição tão única como é o Fado! Também na primeira vez que cantei na Lituânia, em 2008, fui surpreendida por uma jovem que no final do concertó de Vilnius, me ofereceu uma pintura sua sobre o fado “Rosa sem Espinhos”, do álbum de 2003. Nunca imaginei que alguém pudesse conhecer um dos meus fados mais antigos, e logo na Lituânia… Há realmente situações muito gratificantes e surpreendentes!

 

Já tem cantado em Oviedo. Que recorda dessa experiencia?

 

Recordo que foi um dos concertos mais emotivos que já me aconteceram em Espanha, com um público muito conhecedor do Fado e que gosta muito do Fado tradicional! Estou ansiosa de voltar ao Teatro Filarmónica e poder apresentar muitos fados do meu novo disco mas também recordar outros fados mais antigos! Comigo estarão em palco o Pedro Amendoeira , o Pedro Pinhal e o Paulo Paz.

 

Um fado que jamás pode deixar de cantar e porquê?

 

Há um fado que canto muitas vezes desde os meus 11 anos, apesar de nunca o ter gravado. É o que considero o poema mais bonito escrito por Amália, o fado “Estranha forma de vida”, na música do Fado Bailado , de Alfredo Marceneiro. Identifico-me muito com as estas palavras e pensó que é a sua obra prima, mesmo sendo simples como é… No fundo penso que cada verdadeiro fadista tem o seu “coração independente” que não comanda, pois quem nos move e comanda é o próprio Fado…


Algum fado que não goste de maneira nenhuma?

 

Sinceramente não me lembro de nenhum fado em particular de que não goste de forma nenhuma, posso não identificar-me com um género que também está quase perdido que é o Fado Humorístico. Esses fados com certeza nunca iria cantar…

 

O que levou a Joana Amendoeira a enveredar pelo fado?

 

O que me trouxe ao Fado, não sei explicar pois era uma criança tão pequena… a única explicação poderá ser a influencia dos meus país, que sempre gostaram muito de ouvir fado, em casa, ou no carro quando fazíamos viagens, mas mesmo assim é difícil de explicar… é Fado…

 

Convença os poucos que ainda não acreditam: "O fado não é triste"


O Fado é vida, logo a vida tem tristezas mas também tem alegrías… o mesmo acontece com o Fado … Todas as histórias, sentimentos, de melancolía, saudade, amor feliz, ou amor não correspondido, a pura alegría das festas dos bairros de Lisboa, tudo isto cabe no Fado! Tudo depende de quem o interpreta e da sua própria personalidade… no meu caso, considero-me uma fadista positiva e alegre, não querendo dizer com isto que não cante também fados bem tristes, pois também tenho experiências tristes na minha vida! Acima de tudo, importa dizer que: O FADO É VIDA!



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