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Célia Barroca

Fadistas - Actualizado em Janeiro 02, 2011
Já dobrou a casa dos quarenta, mas a sua jovialidade pede meças. Célia Barroca é uma fadista amadora, na verdadeira acepção da palavra.

Sente a música e o que canta. Mas não pensa em enveredar pelo profissionalismo. A carreira docente dá-lhe estabilidade e maior autonomia para se dedicar aos espectáculos onde cruza a ruralidade do meio onde nasceu com manifestações artísticas mais urbanas.

Célia Barroca é o resultado de um cruzamento artístico entre o rural e o urbano. E os seus espectáculos reflectem isso mesmo. O fandango ribatejano irmana-se com coreografias modernas. Há momentos de poesia, por vezes fotografia. A voz enquadra as projecções de slides ou de vídeo. A típica guitarra portuguesa e a viola de fado trocam sons com instrumentos mais elitistas, como o contrabaixo ou o violoncelo.

São reflexos assumidos de uma vida começada em Riachos e que mais tarde conheceu o bulício urbano e cultural de Lisboa, onde estudou e se formou, primeiro em História, depois em Teatro, no Conservatório Nacional. Foi actriz profissional durante três anos no Teatro do Século. Hoje é professora de Expressão Dramática na Escola Superior de Educação de Santarém, já fez o mestrado em Comunicação Educacional Multimédia e está no início do doutoramento, na extensão de Orense da Universidade de Vigo, com uma tese sobre as mulheres no teatro.

Não tem falsas ambições nem aparenta modéstia quando diz que a vida académica a realiza profissionalmente, lhe dá estabilidade e a torna independente. O que valoriza ainda mais a paixão que nutre pela música, um complemento importante, que a fascina e a faz vibrar. O segundo CD está a ser preparado e deve estar pronto em Outubro. Músicas inéditas, da autoria de Luís Pinhal e Luís Martins, com letras da própria Célia Barroca.

Mas vamos voltar ao princípio. Célia Barroca corporiza a história clássica da criança que tinha ouvido para a música, que gostava de cantar para a família. E que tinha um pai que a incentivava, até porque também ele tinha boa voz e gostava de mostrar os dotes em reuniões de amigos. O fado pode ter sido influência paterna, reconhece.

Depois deu-se o ingresso no rancho de Riachos, onde cantou e dançou. Por vezes, em digressões ao estrangeiro, pediam-lhe que interpretasse também uns fados. As danças e cantares duraram até ingressar na universidade em Lisboa. Começava aí a etapa urbana que durou uma boa meia dúzia de anos, antes de regressar ao Ribatejo para dar aulas.

Foi na região onde nasceu que foi incentivada a cantar por um grupo de amigos ligados ao fado. E assim começou a sua carreira “a sério”, vai para 14 anos. Embora reconheça que o profissionalismo no mundo da música nunca esteve na agenda. “A música foi sempre um hobbie. Assumo-me como fadista amadora, é uma carreira paralela à actividade docente. A conciliação não é difícil porque não canto todos os dias”.

Mais: “É muito difícil ser profissional do fado, ainda mais quando se tem uma profissão que dá uma certa estabilidade”. Mas acha que toda a gente devia ter uma actividade paralela. “Há sempre um outro lado que é importante desenvolver”.

O primeiro espectáculo a solo fê-lo em Paris. “Foi aí que ganhei coragem para continuar a fazer isto. Tomei-lhe o gosto e aprecio fazer espectáculos com o meu cunho pessoal. É nisso que estou a apostar neste momento”. Luís Petisca, Pedro Pinhal, Rodrigo Serrão e Susana Santos são os músicos que a acompanham, faz questão de dizer.

Célia Barroca já dobrou o cabo dos quarenta anos, é solteira, não tem filhos. Fala com a ligeireza de quem está habituada a ter uma plateia de ouvintes. Empenha-se em causas, milita no Bloco de Esquerda, mas não é “um animal político”. A sua voz faz-se ouvir regularmente em espectáculos de beneficência. Sente-se uma pessoa solidária mas não lhe peçam acção política misturada com canções.

Vê o mundo do fado como um repositório de tradições, como um universo que é preciso cultivar e também inovar mas sem adulterações. É por isso que dá importância ao guarda-roupa e tem uma estilista que talha as indumentárias com que se apresenta em palco. “O fado tem uma certa solenidade, que se mantém. Quem vai assistir exige uma certa ambiência, embora goste de pôr um toque de modernismo nos meus espectáculos”.

Todos nós temos Amália na voz e Célia Barroca assume-o sem complexos de qualquer espécie. “Acho que descobri o fado por ela, fui sempre uma fã incondicional”. Começou no fado a cantar temas de Amália, menos conhecidos, interpretações de poemas de Manuel Alegre, de Luís de Camões ou de José Carlos Ary dos Santos. “Descobri-os aí há 20 anos e a minha paixão pelo fado começou aí”.

Apesar da experiência, o nervoso miudinho ainda a ataca por vezes antes de entrar em palco. Até nos espectáculos aparentemente de menor responsabilidade. “É uma coisa que não consigo controlar nem explicar”. A única superstição que tem é entrar com o pé direito. “Por vezes até troco o passo”. As suas exigências também não têm nada a ver com as de algumas estrelas musicais. “Com um bom som, metade do espectáculo está feito”. A voz faz o resto, desde que não falhe, como uma vez sucedeu a meio de um espectáculo. Ficou afónica, teve de interromper o recital, beber água, mas depois voltou.

Animadora de tertúlias fadistas, sente-se particularmente bem a cantar no estrangeiro. Emociona-se, sente o que canta. “É uma boa sensação cantar fora do país. Com os estrangeiros há sempre a expectativa de saber como vamos ser recebidos por pessoas que não conhecem a nossa música. Para os emigrantes é ainda mais emocionante, porque nos sentem como um pedaço do país. Tratam-nos de forma admirável”.

Célia Barroca faz questão de dizer que se considera uma fadista independente. “Não estou ligada a nenhum grupo, mas tenho amigos que me vão convidando”. E assim a agenda de concertos vai-se compondo. O desafio agora é o novo CD. A promoção começará lá para o Outono e as expectativas são legítimas. “Gostava de fazer alguns espectáculos aqui na região”, diz a fadista de Riachos, terra de outros nomes da música que já se afirmaram ou se vão afirmando, como Pedro Barroso e Teresa Tapadas.
João Calhaz


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