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Alfama não cheira a fado, mas não tem outra canção

Nestes últimos dez anos, jovens músicos estão recriando géneros musicais tradicionais como o  fado.

Estas (re)criações fizeram com que estes generos musicais tradicionais ganhassem nova vitalidade e junto com eles territórios na cidade que são/estão diretamente vinculados às suas memórias.
O fado de Lisboa renasce nos mesmos bairros da Lisboa histórica e fadista. A cidade que está sendo desvelada não é a cidade do quotidiano apressado da grande metrópole, é a cidade da noite e da boémia, com seu tempo e espaço particular. Esta descoberta de uma cidade vinculada a um género musical específico acontece a partir de práticas musicais quotidianas que exigem um trânsito por essas cidades e pelo seu tempo e espaço específico, a boémia fadista. A revitalização de bairros tradicionais da cidade, de Lisboa, faz com que estes jovens músicos (re)descubram outra(s) cidade(s) a partir de géneros musicais que tão bem as cantaram.

A música pode construir um lugar de memória que represente a relação espaço e tempo. Esta pode caracterizar-se pela relação dos habitantes da cidade com espaços que já não existem mais, uma saudade do passado. Mas para além da relação com o espaço ela também está relacionada com as práticas quotidianas realizadas ou associadas a esses espaços. Para compreender os lugares que as músicas cantam é necessário ter em vista que os espaços que elas estão cantando são dotados de sentido, por isso, são chamados de lugares. O espaço é algo concebido, pensado, formalizado, percebido, significado e experenciado através de diversas construções sociais e é nestes momentos que eles se transformam em lugar.

"Aos Bairros com Tradição, da Boemia e do Passado”: As Cidades Cantadas em Música

O fado, enquanto género musical, nasceu num ambiente urbano. Mas não era qualquer cidade que estes género musical cantava, era a cidade do povo, do quotidiano de trabalho e de sociabilidade das camadas populares. Este género musical servia como expressão do quotidiano popular e urbano,  no século XIX e no século XX .
Foi nos bairros populares de Lisboa que o fado se tornou o que é, ganhou as suas características atuais. E foi o quotidiano destes mesmos bairros que ele se preocupou em cantar, das desgarradas nas tascas ou casas de prostituição e da guitarra portuguesa ainda tocada pelas prostitutas até as casas de fado com elenco fixo e repertório autorizado (Nery, 2004).

Este género musical na medida em que nasceu na cidade e cantou esta mesma cidade, ajudou a construir um imaginário sobre a Lisboa que estava a cantar. Não que este género musical não cante outras cidades, mas por ter nascido nesta cidade, criou através das suas músicas todo um imaginário sobre Lisboa. O fado é lisboeta. Mas a Lisboa que estes género musical estão a canta, não é a cidade como um todo, mas um recorte social e espacial desta mesma cidade.

A Lisboa do fado canta a Alfama, a Mouraria, a Madragoa, o Bairro Alto. Mais que somente descrever estes espaços da cidade, os fados que se confundem com esses próprios bairros, construíram e ainda constroem juntos a identidade do bairro, de Lisboa e do fado.

Mas o fado também canta as suas origens como a Mouraria e também vai em busca dela, como em Saudade por Cantar, fado de Tiago Torres da Silva e Paulo Paz na voz de Joana Amendoeira.

Quanta saudade
Foi ficando por cantar
Presa à vontade
Que tenho de te encontrar
E o que foi feito do dia
Se quando a noite caía
Sobre o meu xaile bordado
Eu pressentia
Que a saudade me pedia
Para ir à Mouraria
Aprender o que é o fado

O fado também canta uma cidade que por mais que busque ter outra música jamais consegue fugir do seu fado, no duplo sentido do termo, como a música Alfama música de Alain Oulman e poesia de Ary dos Santos na voz de Mariza.

Quando Lisboa anoitece
como um veleiro sem velas
Alfama toda parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece

É numa água-furtada
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes de água
Quatro paredes de pranto

Quatro muros de ansiedade
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção

O fado canta a cidade onde nasceu, os bairros que melhor o acolheram, os lugares na cidade onde melhor enraizaram as suas tradições. Mais que isso, o fado que canta a Alfama ou a Mouraria, canta o ambiente boémio em que estes género musical vive. E é este ambiente boêmio e fadista que as novas gerações estão tentando reconstruir não só com a revitalização física dos seus espaços, como no Bairro Alto, mas também de seu imaginário agora revitalizado com novos bares e novos movimentos.

E são através das músicas que muitos jovens entram pela primeira vez em contato com estes lugares da cidade, com seu quotidiano, suas práticas, sua sociabilidade e, principalmente, seu imaginário. É através da música que canta a cidade que muitos jovens músicos descobrem ou redescobrem os espaços da cidade, transformando-os em lugares dotados de significados.

As Cidades (re)Descobertas através da Música

A cidade vivida no quotidiano dos jovens músicos não passava, antes da descoberta dos géneros tradicionais como o fado, necessariamente por estes bairros da cidade onde estes géneros musicais nasceram e que cantaram. Muito dessa cidade cantada em fado só é descoberta ou ainda redescoberta por outros olhos através da música. A Alfama, o Bairro Alto são descobertos pelas mãos, ou melhor, pela audição de fados. Não que esses jovens nunca antes tenham transitado pelas ruas desses bairros tradicionais da cidade, embora isso até possa acontecer, mas a descoberta ou a redescoberta desses bairros se dá sob uma nova ótica, fadista, noturna e boémia.
Esses bairros tradicionais fazem parte da história da cidade e desses géneros musicais, e são através deles que estes espaços urbanos são revitalizados. A Alfama, bairro tradicional de Lisboa, sempre teve a sua sociabilidade vinculada ao fado (Costa, 1984) e é este mesmo fado que revitaliza este espaço da cidade cada vez que é (re)descoberto por novos e jovens músicos. A revitalização através do fado não passa necessariamente por uma recuperação do espaço urbano, mas sim através da resignificação dos seus lugares de lazer e sociabilidade através da vivência desses jovens músicos, fadistas ou apreciadores do fado.

No Bairro Alto a revitalização deste bairro tradicional e fadista passa pela recuperação da sua vocação boémia. Este bairro sempre teve um espaço dedicado ao fado, são muitas as casas de fado que se encontram nesta parte da cidade, mas a sua vocação boémia não é exclusivamente fadista. O Bairro Alto de hoje caracteriza-se por um “multiculturalismo” musical, onde fado, rock, pop, jazz, samba, ritmos latinos e muitos karaokes convivem num mesmo território da cidade.


Estes jovens músicos através de géneros musicais específicos como o fado, descobrem e redescobrem lugares na cidade cheios de história e tradição, sejam destes bairros específicos ou dos géneros musicais que ali nasceram, se consolidaram e tão bem cantaram. Com a (re)descoberta destes novos lugares na cidade estes jovens músicos estão se vinculando a toda uma tradição urbana, noturna e boémia, ou seja, a tradição fadista. A cidade torna-se assim, o lugar de descoberta de um tempo e um espaço próprio, só possível de ser desvelado através das músicas que tão bem o cantaram.


“Era então uma cidade, onde à noite, a liberdade, tinha o fado por canção”: As cidades vividas pelos jovens músicos

A cidade que é descoberta através da música, não é a cidade apressada do dia a dia das grandes metrópoles, mas a cidade da noite e da boémia com seu tempo e espaço característicos. Seigel (1992) tenta delimitar os limites da boemia através da metáfora do que ele chama de terra da Boémia.

Seus limites eram a pobreza e a esperança, a arte e a ilusão, o amor e a vergonha, o trabalho, a alegria, a coragem, a difamação, a necessidade e o hospital. Para seus descobridores e exploradores do século XIX, a Boémia era um país identificável com habitantes visíveis, mas que não constava em qualquer mapa. Marcar suas fronteiras era cruzar constantemente de um lado para outro, entre a realidade e a fantasia (Seigel, 1992, p.11).

Ciscati (2000) fala-nos em nma geografia da malandragem, geralmente vinculada ao fado na figura do rufia (Pais, 2008), esta divide-se em duas, na geografia da prostituição e no território da boémia. Sem dúvida o malandro e o rufia fadista estão ligados à boémia e à noite. A noite diz-nos  Ciscati (2000) é um tempo de relaxamento, de degeneração, de busca do prazer. A noite é o ambiente da boêémia onde se misturam poesia e música com transgressão de regras e leis. Não há uma boa noite na boémia para um malandro ou um rufia fadista sem uma boa bebida e uma boa música, cantadas em diversos versos musicais.

Há nas cidades um circuito da boémia muito frequentado pelos malandros ou os rufias fadistas. Eles variam conforme a época, mas alguns permanecem no imaginário coletivo, assim como o nome de alguns dos seus personagens.  Em Lisboa é Alfama, a Mouraria, o Bairro Alto. O malandro ou o rufia visto como herói tem na cidade o seu paraíso. É este espaço privilegiado que possui uma lei própria na noite que o malandro e o rufia fadista circulam, dominam e demarcam o seu território. Eles criam, assim, fronteiras não só simbólicas, mas espaciais que determinam o seu domínio e, muitas vezes, separam tipos um pouco distintos de malandros ou rufias em espaços diferentes da cidade.

A permanência do malandro ou do rufia fadista no tempo, por mais que ele mude de roupagem, está na permanência e importância da festa. Estou entendendo a festa como o momento em que “a cidade noturna vinga-se da cidade diurna do trabalho e da disciplina industrial” (Ciscati, 2000, p.222), ou seja, o lugar e o tempo da noite são outros e estão a estabelecer novos significados para esta mesma cidade.

Estes jovens músicos que estão a (re)descobrir a cidade através da descoberta de géneros musicais tradicionais que tão bem o cantaram como o fado, estão de certa forma construindo em pleno século XXI uma releitura do malandro ou do rufia fadista para a construção de um “novo boémio”. Estes “novos boémios” têm a sua identidade construída a partir da reinvenção de tradições musicais e urbanas do  do fado. Mais que isso, esses “novos boémios” descobrem esta cidade boémia através da valorização de um consumo cultural, o fado.

Mas a (re)descoberta da cidade através do fado dá-se através da vivência quotidiana noturna nos bairros de tradição musical. Estes jovens músicos que estão explorando estes bairros boémios da cidade fazem-no através do trânsito nestes mesmos bairros, onde elegem um determinado percurso para, a partir dele, irem explorando as vivências boémias, noturnas, fadistas, enfim, urbanas.
Marina Bay Frydberg 


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