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Joana Amendoeira: "Carreira no fado começou com um pequeno suborno"

Interviews - Fevereiro 16, 2012
Joana Amendoeira actuou pela primeira vez aos 8 anos e só a convenceram a cantar com a promessa de um brinquedo novo

Dedicou a sua vida ao fado ainda era criança e hoje, aos 29 anos, reconhece que é uma das muitas pedras que ajudou a construir o fado como património mundial da humanidade. Senhoras e senhores, directamente do Museu do Fado, em Lisboa, tem a palavra Joana Amendoeira.

Tremeram-lhe as pernas quando cantou pela primeira vez em público?

Tremeram muito. Disse que sim mas quando chegou a hora disse que não queria. Tinha oito anos e só me convenceram com um pequeno suborno. Prometeram-me que no dia seguinte iam comigo a uma loja comprar um brinquedo. Foi no Vale de Santarém, numa festa que a minha mãe ajudou a organizar para os doentes de hemodiálise de uma clínica onde trabalhava. Ela é enfermeira. Foi o meu primeiro contacto com o público, a cantar acompanhada com guitarra e viola.

Aos 12 anos ganhou a Grande Noite do Fado no Porto. Foi aí que percebeu que nasceu para ser fadista?

Sim. A partir dos 11 anos, depois de todo aquele ambiente vivido no coliseu, de estar a ensaiar e a aprender outros fados, do contacto com muitos músicos no Castiço, uma casa de fados que existia em Santarém onde comecei a ensaiar para a grande noite do fado. A partir daí senti que a paixão pelo fado era tão grande que me ia acompanhar toda a vida. Só não tinha consciência que me iria apaixonar ainda mais.

Quando descobriu que tinha voz para cantar o fado?

Não tinha bem consciência que tinha jeito para cantar o fado, mas sempre me interessei por ouvir fado em casa. Gostava que a minha mãe pusesse os discos de vinil e adorava ouvir Amália, Carlos do Carmo, Hermínia Silva. E notaram que eu tinha um certo requebro fadista na voz, ainda muito infantil e por limar. Brincavam comigo e davam-me fados para eu aprender. Foi tudo muito natural.

Os seus pais não lhe diziam para estudar em vez de andar a cantar fados?

Isso não foi preciso porque felizmente era boa aluna e tive sempre boas notas mesmo cantando ao fim de semana. Quando tinha 14 ou 15 anos já cantava muitas vezes e tinha os meus pequenos cachês.

Na escola viam-na como uma espécie de génio precoce?

Primeiro achavam um bocadinho estranho, mas ao mesmo tempo foi engraçado porque puxei os meus colegas para descobrir o fado e começaram a gostar.

Embora seja uma jovem que ainda não completou 30 anos, já leva quase 20 anos de carreira.


Eu costumo contar a minha carreira a partir do primeiro disco, que foi publicado em 1998.

Seja como for são 14 anos de carreira com discos editados. Vai cantar até que a voz lhe doa?

Espero que não me chegue a doer. Espero ter uma voz saudável pela vida fora. Quero cantar até saber que é a altura de me retirar. Não ir para além do que muitas vezes vemos.

A retirada não deve ser fácil.

Compreendo que uma pessoa que passa a vida inteira a cantar, que tem o contacto com o público, que tem essa libertação da alma, tenha dificuldade em enfrentar o momento em que o corpo já não acompanha o espírito e reconhecer que é altura de parar.

Um artista sem público fica órfão.

É verdade. Espero saber retirar-me no momento certo, mas ainda falta muito tempo (risos)...

Ter na voz a ferramenta de trabalho obriga a cuidados acrescidos?

Sim. É preciso ter cuidados. Nunca fumei, não bebo bebidas frescas, tenho cuidado com o frio, com as mudanças de temperatura. Basicamente são esses os cuidados. E chá de perpétuas roxas também é muito bom.

Nos últimos tempos têm aparecido muitos jovens fadistas. Tem lidado bem com a concorrência?

Não os vejo tanto como concorrência. Vejo mais esse fenómeno pelo lado positivo que é o facto de o fado estar a chegar cada vez mais aos jovens e a interessá-los. Isso é que mantém este género vivo. Penso que estamos a atravessar uma segunda época de ouro, depois da que se viveu nas décadas de 60 e 70. E há lugar para os estilos mais diversos. Há dez anos que estamos a ver este fenómeno a consolidar-se. Por isso se vêem grupos inspirados no fado a aparecer, como os Amália Hoje ou os Deolinda. Isso também quer dizer que o fado está na moda. Há um interesse de fora para dentro e que é muito global, não é só em Portugal.

Fica também a sensação que o mercado do fado se tornou apetecível para certos cantores que vêm de outros estilos, como o pop/rock.

Já existem alguns casos, como a Ana Moura e a Cuca Roseta. Penso que o fado só sai a ganhar.

Por falar em Ana Moura, outra fadista ribatejana da sua geração. Ela já teve o privilégio de cantar com os Rolling Stones. Com que monstro do rock gostaria de fazer um dueto?

Um convite desses seria lisonjeador. Gostaria de cantar em dueto com o Michael Bublé, embora não seja propriamente um cantor de rock. Gosto muito de o ouvir, é um cantor extraordinário e que parece ser muito divertido.

Grande parte da sua vida profissional é feita à noite. Deitar cedo e cedo erguer é ditado para esquecer?

Durante uns anos foi mesmo para esquecer. Agora estou um bocadinho diferente e acordo mais cedo, mesmo continuando a deitar-me tarde. Estou a conseguir disciplinar-me porque é muito importante aproveitar o dia.

Foi viver para a zona de Lisboa há alguns anos por necessidade ou por gosto?

Adoro viver em Lisboa. Talvez por causa daquele ambiente todo das letras dos fados. Todo esse imaginário que estava dentro de mim levou a que desde muito cedo quisesse viver em Lisboa. Ao ponto de que, acabado o liceu, vim para cá.

Santarém não é uma musa inspiradora em termos de fado?

É também uma das cidades mais bonitas do país e é a minha terra. Estará sempre a par de Lisboa. No Ribatejo existe muito fado e muitos fadistas que começaram a aprender lá. Existem muitos músicos e os maiores deste país também são de lá. Espero um dia fazer um disco dedicado só a fados do Ribatejo. Estou a programar isto para um futuro próximo.

Canta letras de grandes poetas portugueses. É uma questão de prestígio ou dá muita importância a essa faceta?

Não é só por cantar Pedro Homem de Melo ou David Mourão Ferreira ou Fernando Pessoa, é porque a poesia no fado é quase tudo. Não é tudo porque a música também é importante. Mas as palavras são aquilo que faz mexer a alma, o coração e transmitir alguma coisa cá para fora.

Sente muito as palavras que canta?


Sim. Mas não se está sempre com o mesmo estado de espírito e quem canta todos os dias não pode estar sempre no máximo da sensibilidade.

Não se torna enfadonho repetir esse exercício todos os dias?

Antes pelo contrário. Estamos sempre a descobrir-nos por dentro e a procurar uma forma de ir buscar mais alma.

No estrangeiro, a maior parte da audiência não percebe o que canta. Faz questão de lhes explicar de que fala a letra?

Sim. Tento explicar em inglês o que vou cantar no fado seguinte.

Abriu uma garrafa de champanhe quando soube que o fado tinha sido classificado património imaterial da humanidade?

Estava no avião e só soube quando aterrei. Vim directa para o Museu do Fado. Celebrei e cantei aqui. Foi uma grande festa.

Sente que é uma pedra que faz parte da construção desse património?

Sim, sinto-me parte deste edifício que é o fado. A minha vida é toda dedicada ao fado desde pequenina e não podia pensar de outra forma.

Ter um irmão no seu grupo de músicos ajuda?

Sim, muito. Sinto-me acompanhada de forma diferente pelo meu irmão. Não quer dizer que outros não toquem muito bem para mim ou que não goste de cantar com eles, mas com o meu irmão é uma ligação de sangue mesmo.


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