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Nomes do fado - Maria Teresa de Noronha

Archive - Julho 08, 2013
Deve-se a Maria Teresa de Noronha uma viragem na História do Fado.

Após esta forma musical, vinda da rua, do arraial e da taberna, ter conquistado os salões da fidalguia, era aí cultivada no recato dos serões familiares, das festas intimistas, ou como parte do culto tauromáquico em solares ribatejanos. Para manter a distância das origens condenáveis, jamais os tocadores, cantores e, muito menos, cantoras das famílias tradicionais – que os havia de muito mérito – se expunham publicamente senão nalguma verbena de caridade. Foi Maria Teresa do Carmo de Noronha, nascida em 1918 dos Condes de Paraty e Condessa de Sabrosa pelo casamento, a primeira fidalga que teve a coragem e a ousadia de partilhar com toda a gente, pela rádio, discos, televisão e espectáculos, uma voz excepcional, uma alma fadista de finíssima sensibilidade, um talento musical a quem se devem melodias adoptadas como clássicos desde que as criou. De início afrontando a celeuma dos seus pares, cedo os conquistou, bem como o País inteiro, tornando-se o estandarte do que se convencionou chamar Fado Aristocrático, quando outros nomes de famílias bem nascidas lhe seguiram as pisadas, para bem de um género musical que ganhou foros de marca cultural de uma Nação.

Quer desta atitude de partilha, quer da capacidade criadora e interpretativa, não se pode dissociar a figura incentivadora de seu marido, José António Sabrosa, guitarrista amador e compositor de bom nível, a quem se devem as músicas dos fados "Saudade das Saudades", "Fado da Defesa", e ainda "Minha Guitarra", "O Meu Fado" e "Passos na Rua".
Mas a voz, principal atributo de Maria Teresa de Noronha, essa nasceu com ela e com mais ninguém. Fresca, muito bem timbrada, de uma afinação e colocação naturalmente perfeitas, ia dos agudos suavemente metálicos aos graves envolventes (ouça-se "Fado da Idanha"), sem o mínimo esforço, sem se perceber uma respiração, com uma dicção modelar. Nas suspensões em pianissimo foi inigualável, ficando como exemplos antológicos o seu "Pintadinho" e "Rosa Enjeitada", este a excepção que confirmou a regra de rigor fadista a que sempre obedeceu, cultivando apenas o fado tradicional, caracterizado por estrofes regulares, de métrica constante, sem refrão.

Estabeleceu padrões, como o já citado "Pintadinho", o "Anadia" e outros, baseados nas harmonias simples do Corrido, Menor, ou Meia-Noite, mas cuja originalidade interpretativa transformava em verdadeiros temas, com personalidade melódica própria ("Fado Menor e Maior" ou "Minha Mágoa"). No "Fado das Horas", além da melodia, trouxe-nos a novidade de, em vez do costumeiro "Ai..." intercalado como bordão antes do último verso bisado de cada quadra, cantar com a mesma modulação a primeira sílaba desse verso. Modestamente chamou a estas verdadeiras composições, arranjos. Apenas se declarou autora de "Nosso Fado", com base no Dois Tons, e "Corrido Antigo", um Corrido um pouco mais estruturado.
Ousou também cantar Fado de Coimbra, até então feudo de vozes masculinas. Fê-lo com a mestria patente no "Fado Hilário" e ainda em "Canção duma Tricana" e "Cantiga de Amor-Saudade". Na escolha das letras, foi de um apurado bom gosto, respeitando os cânones fadistas, mas de poética mais elevada, mais culta.

Manteve, na carreira, uma contenção que lhe terá vindo do berço e impediu maior projecção artística, merecida até a nível internacional. Era, porém, de um profissionalismo exemplar. Jamais gravou ou actuou em estúdio lendo uma letra: levava todos os fados decorados, mesmo nos programas da Emissora Nacional, emitidos em directo e sem público, onde cantou 4 fados todas as semanas, durante 23 anos consecutivos, desde que aí se estreou, em 1938, até se retirar, em 1961. Espectáculos fazia poucos, não se escusando, porém, aos de finalidade caritativa. A televisão divulgou a sua figura de uma distinção sóbria, sem xailes ou artifícios cénicos. Actuou, com grande êxito, no Brasil; em Espanha, no Festival da Feira do Livro de Barcelona, em 1946, e numa série de espectáculos em Madrid, a convite do Governo espanhol; em 1964, já retirada, cantou em Londres, na nossa Embaixada, na Casa de Portugal e na BBC (rádio e televisão).
Depois disso, só em privado era possível ouvi-la. Continuou dedicada ao Fado, indo com o marido às casas onde cantavam os seus favoritos. Uma delas era o Faia, onde adorava ouvir Lucília do Carmo e Alfredo Marceneiro, quando aparecia. Nas raras vezes em que aí confluíram esses três gigantes, fechava-se a porta e a luz exterior, depois de sair o último cliente e o pessoal. Ficavam os guitarristas. Pedindo uns aos outros os fados de que mais gostavam, aplaudindo-se mais por comentários, de entendidos que eram, do que por palmas de tão poucos, ficavam, até ao esquecimento das horas, em mútuo deleite. A um canto, um jovem absorvia em êxtase esses momentos irrepetíveis: Carlos do Carmo, a quem devemos a narração deles e confessa terem sido determinantes na decisão da sua própria carreira. Devem os amantes do Fado mais isso, na parte que lhe cabe, a Maria Teresa de Noronha.

António Chainho, que a acompanhou na gravação do último disco [LP "Fado Antigo", em 1971] e na digressão ao Brasil, terá testemunhado a derradeira vez em que Maria Teresa de Noronha cantou. Foi no "Picadeiro", em Cascais, por alturas de 1976. Fora lá para ouvir Manuel de Almeida. Este, depois de actuar, pediu-lhe que cantasse. De início escusou-se, com um sorriso nostálgico e um "Há tantos anos que não canto...". Por fim, cantou. A mesma sensibilidade, o mesmo lamento contido na alma e liberto pela voz da Grande Senhora do Fado derramou-se pela sala e pelos olhos de Manuel de Almeida, que os enxugava comovido.
Tardiamente, o reconhecimento oficial condecorou-a e o popular consagrou-lhe uma Grande Noite do Fado, a que assistiu em casa, pela televisão, já doente.

Esta colectânea é, também, galeria de outros talentos que, muitas vezes esquecidos, estão por detrás da qualidade final discográfica. Tal é o caso de Raul Nery, guitarrista ímpar, acompanhador de Maria Teresa de Noronha ao longo de quase toda a carreira, preferido dos maiores nomes da sua época, pela rara combinação de virtuosismo, sobriedade e bom gosto musical. Solista capaz de execuções dificílimas, mantinha um dedilhado límpido, uma sonoridade cristalina. Mesmo nas tercinas e trilos mais vertiginosos, todas as notas estavam lá, bem diferenciadas, sem atropelos, diríamos que "explicadas". Quando acompanhava, era discreto, remetia-se a apoiar a voz, valorizava-a. Apenas nas pausas trazia a guitarra ao primeiro plano, preenchendo com elegância esse espaço, dialogando. Disso é soberbo exemplo "Minha Dor", onde não é menos notável a viola de Joaquim do Vale, verdadeiramente orquestral.
Outro nome a salientar é Hugo Ribeiro, o técnico por quem passaram nomes grandes e pequenos da música portuguesa, durante quase cinco décadas, no Teatro Taborda (à Costa do Castelo) e nos estúdios de Paço d'Arcos. Bonomia, ilimitada paciência para os caprichos dos artistas, tinha gosto pelo Fado e um raro talento para gravar a guitarra portuguesa, instrumento dos mais difíceis de captar: na verdade, com uma diferença de milímetros, colocando o microfone perto de mais, ouve-se o raspar desagradável das unhas postiças nas cordas; demasiado afastado, ou a uma altura inadequada, perde-se o timbre sineiro e vibrátil que faz da cítara lusitana um instrumento único.
Uma tal combinação dos melhores poetas, compositores, instrumentistas e técnicos, servindo a voz divina de Maria Teresa de Noronha, faz desta antologia, compilada pelo ouvido atento e conhecedor de José Pracana, um tesouro inestimável.» (Daniel Gouveia, Julho de 1997, texto inserto no caderno do CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997)

Nota: Aquela antologia é hoje difícil de encontrar no mercado, mas o repertório nela incluído é o mesmíssimo que consta noutra mais recente intitulada "O Melhor de Maria Teresa de Noronha" (Valentim de Carvalho/Iplay, 2008), apenas tendo sido alterada a ordenação dos temas. A imagem do topo pertence à capa.

Completam-se hoje 20 anos exactos sobre a data (5 de Julho de 1993) em que a grande (enorme) cantora Maria Teresa de Noronha deixou de pertencer ao número dos vivos. Ficou para a posteridade a obra discográfica que não sendo muito vasta é de superior qualidade, como muito assertivamente refere Daniel Gouveia, e que constitui, sem dúvida alguma, um legado de referência obrigatória no que respeita à arte de bem cantar o fado. Há quem afirme que Maria Teresa de Noronha foi (é) a maior cantora do género, logo depois de Amália – afirmação que eu não hesito em subscrever –, mas tal reconhecimento não tem tido correspondência na divulgação do seu repertório na rádio pública. De tempos a tempos, lá aparece um ou outro tema na rubrica "Alma Lusa" ou no espaço alargado depois da meia-noite de domingo, o que é francamente pouco e está longe de fazer plena justiça à memória da ilustre artista, pois é elevada a dívida que o país tem para com ela pelo notabilíssimo contributo que deu à música e à cultura portuguesa. Será razoável que uma intérprete de tal dimensão não esteja representada na 'playlist' da Antena 1, que é, para todos os efeitos, a grande montra musical da estação? Pois eu convido os senhores que gerem a referida 'playlist' a ouvirem os espécimes de Maria Teresa de Noronha abaixo apresentados. Se não forem desprovidos de um mínimo de sensibilidade musical/artística, terão oportunidade de exclamar para os vossos botões: «É realmente incompreensível que pérolas deste quilate, que nunca nos demos ao cuidado de ouvir atentamente – por preconceito e preguiça –, estejam excluídas da 'playlist' da Antena 1, o canal generalista da rádio estatal que tem a obrigação legal (formalmente estabelecida no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão) de divulgar a melhor música portuguesa!!!



in http://nossaradio.blogspot.pt


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