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Cristina Nóbrega e Rocío Marquez - do Flamenco ao Fado

Concertos - Outubro 29, 2013
Até hoje tenho sustentando que fado e flamenco têm pouco a ver. Mais além d'uma aparente semelhança instrumental, que tambem não é certa.

De modo grosseiro poderíamos dizer que o fado é um poema cantado, onde, teoricamente, predomina a letra sobre a música (estando hoje em dia está teoria um pouco desvirtuada); no flamenco ocorre o contrário, a letra é uma curta estrofe repetida de distintas formas com um predomínio vocal e musical mais amplo e diferente. A tudo isto há que juntar as idiossincrasias de espanhóis e portugueses. O flamenco é mais violento, explosivo, desgarrado e esmagador, não tanto nos sentimentos que expressa, semelhantes no fado e no flamenco, mas na sua forma de expressão. Mantém, isso sim, uma forma similar de sentir e viver. E isso é o mais importante, a capacidade de emocionar, estremecer e arrepiar. Conforme o pais. Neste contexto, sem intenção mas desejando-o muito quando souberam deste encontro, reuniram-se em Huelva no “Centro de Arte Harina de Otro Costa”', a Onubense Rocío Marquez, consagrada artista flamenca, e a igualmente consagrada fadista lisboeta Cristina Nóbrega.

A primeira acompanhada pela guitarra de Joaquin Brito, e a segunda pelo mítico Carlos Gonçalves, tão querido e admirado por estas terras, a que se juntou a viola de Rogério Ferreira. No berço do flamenco, para um público habituado ao fado e conhecedor de flamenco em cujas veias este corre, e que já se encontra incorporado no seu A, não se aceitam frivolidades. A importância da sala ou do público não é medida pela distância de países longínquos e exóticos, às vezes incapazes de localizar a Península Ibérica no mapa, e frequentemente, mais atraído pela fama mediática dos artistas que pela qualidade da sua obra. Aqui simplesmente há que cantar. Cantar para um público acolhedor, sim, mas exigente que não ficará satisfeito com piruetas, nem cómicas representações da filha da 'Barbuda'.

A empatia entre as duas artistas e os seus músicos aconteceu no mesmo instante em que se conheceram e foi crescendo ao longo da noite numa evidente cumplicidade. A sala, com lotação há muito esgotada com o anúncio do evento, a abarrotar de público até ao limite do espaço, e a fazer recordar as mais tumultuosas noites da 'Mesa de Frades' ou da 'Casa da Mariquinhas'. No cenário, decorado com uma preciosa foto da ponte sobre o Guadiana entre Ayamonte e Vila Real de Sto. António, encontrava-se reproduzido em português e castelhano, o poema 'Lágrima' de Amália Rodrigues, em sua honra e do autor da música Carlos Gonçalves. Texto comovedoramente recitado em castelhano por Inês Romero, apresentadora do evento e ex-elemento do Grupo 'Jarcha', e que ambas as cantoras de negro rigoroso, interpretaram mais tarde, à despedida. A primeira a sair à “arena onubense” foi Cristina Nóbrega; “La Nóbrega” interpretou temas de Fado Tradicional; Franquelin de Sextilhas, Pedro Rodrigues, José António de Quadras, terminando com o emblemático 'Madrugada de Alfama', arrebatando uma longa salva de palmas e bravos a um público que já estava com ela.

Rocío Marquez acompanhada pela magistral guitarra de Joaquin Brito, iniciou com Malaguenhas e Abandolaos, arrancando 'Olés' do público. Continuou com Guajiras (cantos de ida e volta) por Pepe Marchena, concluindo a primeira parte com Tangos e finalmente, convidando a portuguesa ao palco para cantarem juntas 'Fado de Amor e Pecado', alternando quadras que Cristina cantou em Português e Rocío em Castelhano com ares flamencos. Quebrando a sua voz numa adaptação espectacular. Em principio a força arrebatadora do flamenco na voz da Rocío, que repetia e enlaçava intermináveis “quejios” quebros e requebros que arrepiavam o público, poderiam ter intimidado a portuguesa, embaixadora de um género mais pausado e intimista. Nada mais longe da verdade. A fadista altiva e tranquila, sabendo da intensidade que o fado tem, após os primeiros acordes de Carlos Gonçalves e ao ritmo da viola de Rogério Ferreira, cantou como se fosse a última vez que o faria, fraseando cada poema na sua justa medida e no tempo certo.

Começou com um tema de Alexandre O'Neil e Alain Oulman: 'Gaivota' que, por mais vezes que seja cantado ultrapassa em dificuldade alguns fadistas. Seguidamente ofereceu ao público onubense, dedicado já à fadista, um tema inédito do seu próximo álbum 'Toda a Tristeza do Mundo' de Tiago Torres da Silva, no Fado Zé Grande que teve uma larga e sonora ovação. Fechou com o popular 'Maria da Cruz' de Amadeu do Vale e Frederico Valério, despedindo-se com uma ovação ainda maior. Rocío iniciou a segunda parte com Bolerias (com alma), e a noite entrou na fase mais contundente do autêntico flamenco. Continuou com Alegrías, que deixaram o ferveroso público com 'pele-de-galinha' (...Que tens tu Rocío, que eu não sei o que é?...). Continuou com Seguirìas !puro canto jondo!. Constantemente interrompida por irreprimiveís 'Olés', saidos do fundo da alma do público, onde tambem saian os “quejios” dela.

Chegou a apoteose quando cantou Fandangos desde Alausno a Huelva, Carbonerilho a António de La Calzá, onde levou a sua voz e a sua garra ao limite da capacidade física. E só de me lembrar agora, voltam-me a arrepiar. Poucos sabem que uma Onubence foi Rainha de Portugal. Luísa Francisca de Gusmão, mulher do, curiosamente chamado Rei 'Músico', João IV de Portugal. Como uma rainha, cantou Rocío o tema 'Lágrima' com geniais e acertadíssimos requebros flamencos juntamente com “La Nóbrega”, que o cantava com o seu habitual bom gosto e sensibilidade, em versão original, ao compasso de Carlos Gonçalves, quem não perdeu detalhe da actuação da Rocío Marquez.

Na despedida, o Carlos Gonçalves, que revelou-se em me surprender, um grande conhecedor e admirador do flamenco, preguntou-me. - Olha, Há hoje outras artistas como esta no flamenco? - No flamenco, como acontece no fado, há muitas artistas. Mas como esta não. Sem dúvida, uma das melhores actuações que a minha memória pode recordar e que, seguramente, se repetirá. Dois estilos, duas mulheres, duas formas de cantar, de expressar as batidas do coração, com o cheiro comum que tem a noite, debaixo da mesma lua, nas vielas de Lisboa e nos becos andaluzes. Javier Gonzalez


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