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Aldina Duarte: "Nenhuma destas novas fadistas talentosas pode ocupar o meu lugar"

Entrevistas - Março 01, 2014
A dias de celebrar 20 anos de carreira na Culturgest, falou sobre a vocação, a insegurança e a ditatura. Uma viagem ao passado

Do babysitting ao design têxtil, passando pelo jornalismo escrito e na rádio, experimentou de tudo. O fado descobriu-o tarde e por acaso e não conseguiu evitar dedicar-lhe a vida. Aldina Duarte, de regresso à casa da Culturgest no próximo fim-de-semana, partilha connosco um banco e durante uma hora também as travessuras de um percurso preenchido.

 

O que cantará em "O Que nunca Direi"?


Esse título nasce do maior encanto que o fado tem para mim. É cantar o que em alguns casos é mesmo impossível dizer por palavras, no dia-a-dia, a quem quer que seja. Acho que só com a criação artística se consegue partilhar determinadas dores ou sentimentos de uma enorme ternura. Eu particularmente gosto de cantar segredos, sonhos, tormentos, a solidão, de cantar a ternura. Tudo sentimentos que de certa maneira são mais implosivos que explosivos.

 

Tem vários convidados, entre eles o Júlio Resende no piano e a Ana Isabel Dias na harpa. Gosta de estar acompanhada em palco?


Sim, gosto de me sentir acompanhada pelos meus cúmplices. Mas foi por estar a festejar os 20 anos de carreira que quis fazer um concerto baseado nas fases fundamentais do meu caminho. Estes músicos representam essas fases. Estão o Carlos Manuel Proença e o José Manuel Neto, com quem canto há mais anos e gravo os meus discos, e há ainda um momento em que crio dois ambientes importantes: o da casa de fados e quando canto com o Júlio Resende ao piano. A Ana Isabel Dias surge através da Olga Roriz, num dos espectáculos que fez para mim, "Aldina Duarte por Olga Roriz", em que cantava uma série de fados fazendo duetos com instrumentos diferentes, piano, acordeão, contrabaixo... Um desses duetos foi com a harpa, daí a Ana.

 

Esta comemoração dos 20 anos tem uma data exacta?


Tomei como ponto de partida o meu primeiro projecto, as Noites de Fado da Comuna, em 1994. Eram noites em que cantava eu e o Camané e convidávamos todos os meses um actor para dizer poesia portuguesa e um fadista da nossa preferência. Foi daí que surgiram todos os contratos, o meu primeiro convite para entrar na casa de fados, também para gravação discográfica. É o meu grande marco.

 

O Jorge Silva Melo, que a apresenta para este concerto, acabou por ser um dos principais culpados por ter encontrado o fado.


É mesmo o culpado. É por causa dele que vou pela primeira vez a uma casa de fados e oiço a Beatriz da Conceição. Foi tudo a pedido dele, para lhe fazer uma pré-entrevista para um documentário que ele queria fazer. Isso mudou a minha vida. Mais tarde foi ele que me ajudou a passar o meu fado para um grande auditório que foi a Culturgest. Tive dois acontecimentos que foram determinantes para estar onde estou: encontrar uma casa no Senhor Vinho - é que, apesar de ser adulta, precisava de um amparo muito forte. Quando foi a altura de sair de casa para o mundo, o palco da Culturgest tornou-se igualmente sagrado para mim. E para passar ao grande auditório precisava de alguém que soubesse o que eu não sabia para não perverter o essencial do meu fado. Precisei da sabedoria e do talento do Jorge Silva Melo, que sempre gostou do meu trabalho, mesmo quando estava em bruto.

 

No momento em que ouviu Beatriz da Conceição cantar quis saber mais?


Durante um tempo não pensei noutra coisa senão no que tinha ouvido. Não conseguia digerir aquilo, foi um choque, um tremor, uma das coisas mais fortes da minha vida. A partir dali tornou-se uma compulsão e obsessão, senti uma vergonha enorme por pensar que estava diante de uma arte que só existe aqui e sobre a qual não sabia nada.

 

Tão aplicada que até ia de dossiê para as casas de fado.


Foi o meu pretexto para poder chegar à Beatriz. Não conseguia abordá-la logo no início, depois de a ouvir cantar pior, achava uma ousadia abordar aquela senhora, depois da coisa extraordinária que ela me tinha revelado. Arranjei como pretexto um dossiê de letras para poder estar na casa de fados, porque não tinha dinheiro para estar ali a consumir todos os dias. Assistia aos ensaios antes de haver clientes e um dia ela chamou-me. Veio ter comigo para pedir opinião e eu disse que não era para isso que lá estava, que queria abordá-la porque o Jorge Silva Melo me tinha pedido. Não deu grande importância a quererem fazer um filme com ela, queria era falar de fado. Isso foi determinante, porque ela, além de cantar, de ser uma artista rara, é uma sábia na sua profissão. E quis partilhar isso comigo. Pensei: 'pera lá a minha vida vai mudar, de certeza. E mudou.

 

Estudar era importante para si?


Sim, por natureza sou hipercuriosa. Tenho muito respeito pelo conhecimento. Nem tinha pensado em ser fadista, só queria ouvir, conhecer.

 

Mas já cantava?


Cantarolava. Tinha feito parte de uns projectos, sabia que tinha voz e na escola os professores diziam que tinha um excelente ouvido, mas não tinha essa paixão. Nunca dei valor. Depois de muito ouvir e conhecer tive a tentação de cantar. As pessoas que ouviram e que estavam à volta, incluindo a Beatriz, ajudaram-me a levar a coisa para a frente.

 

Até essa altura quais eram as preferências musicais?


Gosto muito de rock, de música alternativa, pop. Mas a primeira música com que tive um contacto mais forte foi com a de intervenção: José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto, o Jorge Palma, e só mais tarde é que cheguei ao mestre José Afonso. Para além destes intérpretes, porque o que realmente me atraía era a importância que a palavra tinha, fizeram-me perceber o poder da palavra cantada. E o uso que faziam das próprias melodias. Ainda assim, continuo a sentir que a voz da minha alma é o Jacques Brel. Às vezes são empatias quase inexplicáveis, sinto-me ligada de uma maneira única àquela voz e repertório, àquela tristeza. Mas de facto o que me marca, e isso determinou tudo nas bandas de que gosto, são as interpretações. Até instrumentalmente os meus eleitos são intérpretes, do Paco de Lucía ao Carlos Paredes. A interpretação é o maior mistério da criação artística.

 

No que toca à intervenção, falamos também da capacidade de pôr na música diferentes leituras.


Isso é a grande chave do fado. Estas melodias foram cantadas ao longo de quase 100 anos sempre com variadíssimas letras e vozes diferentes. Repare a importância que para um fado tem a interpretação. As melodias têm estruturas fixas mas são abertas para acolher histórias diferentes. Afinal posso ter chegado tarde ao fado mas acho que cheguei à essência através dessa preferência pelos intérpretes. Claro que tenho várias referências, mas, declaradamente, não me conseguem associar a nenhum fadista. Tem a ver com ter desenvolvido as minhas capacidades interpretativas com outros artistas de outras áreas. A minha matéria fadista não foi só moldada pelo fado, mas sim por outros intérpretes que oiço desde os 12 anos.

 

Ter crescido num bairro pobre ajudou a despertar da consciência política e social?


Acho que sim. A minha primeira infância é antes do 25 de Abril. Eram muito visíveis, até para uma criança, as discrepâncias entre um bairro social, de lata, e as casas apalaçadas onde a minha mãe trabalhava. Qualquer criança se apercebia de que aqueles dois mundos não se tocavam. Com a música de intervenção sinto que aqueles cantores davam voz aos problemas, às injustiças. A minha consciência política é formada também por esses artistas. Senti que eles eram a minha voz, das minhas inquietações. E ensinaram-me a sonhar. O José Mário Branco, além de sentir que dava voz à minha revolta social, dava-me também consciência de que era possível qualquer coisa melhor, que estava para vir. E deu--me o poder de sonhar que não é coisa pouca, é determinante na maneira como interpreto. O Jorge Silva Melo dizia que, apesar de o meu repertório ser duro, denso, triste e atormentado, há sempre um ponto de luz, uma coragem, uma esperança para quem quiser ouvi-la. É um acto de fé. Isso está lá também porque está em mim.

 

É um dever da música?


Não acho que a arte tenha de servir rigorosamente para nada. Dêem-lhe a utilidade que derem, ao artista não lhe podem cobrar mais nada. Há grandes artistas que são grandes canalhas, sabemos que o nazismo utilizou grandes criações e pensadores para defender a sua doutrina sinistra. Mas é um risco da criação e da liberdade que lhe é inerente. No meu caso, se canto com o que sou, é evidente que tenho esta necessidade de comunicar, de intervir com aquilo que faço no espaço público que ocupo. Acho que fazer as pessoas sentir é uma forma de intervir. O sentir talvez seja das formas de intervenção mais fortes.

 

Demorou a chegar ao primeiro disco, "Apenas o Amor" (2004). Tentava ganhar coragem?


Achava que não tinha os mínimos necessários. O disco é uma coisa que fica para a vida, é mais abrangente, dá-nos maior visibilidade. Até que chegou uma altura em que pessoas em quem confio me convenceram que preparada nunca estaria e que tinha os mínimos necessários. Confiei mais nelas do que em mim e lá o fiz.

 

Depois desse disco sentiu-se mais confiante?


Hoje tenho alguma serenidade. Sei que nunca vou ser uma artista segura no que está a fazer. A exigência é grande, a autocrítica maior. Costumo dizer que nunca ninguém disse tão mal de mim a cantar como eu a mim mesma. Mas há uma coisa que estes 20 anos me deram: uma serenidade de quem finalmente percebe que tem o seu lugar, bom ou mau. Surgiram inúmeras fadistas mais novas, extraordinárias, que têm mais sucesso comercial, merecidamente. A minha escolha também é muito singular: escolhi um caminho que não é o vigente, não gosto de fazer digressões, e isso mexe com tudo. Tive de criar um caminho próprio e encontrar a maneira de ser feliz. Queria fazer este trabalho com felicidade, gratidão e prazer. Nenhuma destas fadistas mais novas, com tanto talento, ocupou o meu lugar nem pode ocupar, isso é claro para toda a gente. Não só aumentei muito o meu público como se fidelizou totalmente.

 

Há muitas caras no público que já conhece?


Sim. Têm os meus CD, vão aos concertos, à casa de fados, pedem para assinar tudo, enviam emails, tenho mesmo um público fiel. E não sou nada de comunicar, sou até bastante reservada. Sou simpática com as pessoas mas muito dificilmente crio intimidade. O meu público sabe uma coisa: tenho uma honestidade e uma humildade no meu trabalho absolutas. Enganar, não vou enganar ninguém. Eles sabem que fazem parte de mim quando canto. Uma vez recebi um email de uma admiradora que dizia: "Veja lá que quando vou a um concerto tenho a sensação que está o tempo todo a cantar para mim." E é mesmo isso.

 

Como acontece essa cumplicidade?


Quando estou a cantar canto como se estivesse a cantar para cada pessoa. E quando os temas são mais extrovertidos canto como se estivesse a cantar para um grupo que está ali pelo mesmo. E, honestamente, espero que as pessoas sintam que quando estão a bater palmas é mais a elas do que a mim. Pela capacidade de sentirem aquilo que eu ali fiz. É a maior retribuição que me podem dar, bater palmas a si próprios por se terem disponibilizado para o que estou a fazer.

 

Recorda-se da primeira vez que cantou para um público?


Foi num concurso de música moderna cuja final aconteceu num palco ao pé do Cais do Sodré. Ganhou precisamente o grupo em que estava, Valdez e As Piranhas Douradas.

 

Que música tocavam?


Meio teatral, meio musical, era um projecto concebido pelo Pedro Wilson, do qual ele era vocalista, escritor. Fazia uma caricatura das músicas do mundo, da América Latina, África, a popular portuguesa. Eu e a Susana Vasconcelos éramos as coristas, as piranhas douradas. Ela era actriz e eu dava aulas no Centro da Paralisia Cerebral.

 

Foi um momento estranho?


Sim, muito estranho. Tinha 21 anos. Antes de ser profissional também cantei no filme do Manuel Mozos, "Xavier". Eu era uma miúda da rua que cantava um fado na Rua do Capelão, na Mouraria. Foi extraordinário, cantei para a gravação e estava o povo todo a ouvir e tive de repetir porque eles estavam orgulhosíssimos de estar ali a acontecer uma filmagem e alguém estar a cantar fado. Aí senti um peso, que um fado era uma identidade.

 

Como é que foi ter ao Centro de Paralisia Cerebral?


Fiz um curso de Design Têxtil na António Arroio. Aí cheguei a uma formação para doentes com paralisia cerebral e debilidade mental, fiz um curso para poder ser monitora. Assim acabei por ficar. Antes dos fados foi a grande experiência profissional da minha vida, por me formar humanamente. Depois veio o fado, a minha vocação.

 

E tudo mudou.


Quando estamos a exercer a nossa vocação as adversidades fortalecem-nos e às vezes até se tornam criativas. Mas se não estivermos a exercer a nossa vocação elas enfraquecem-nos cada vez mais. No fado tudo me fortalecia, até o que não era bom. Senti-me tão realizada que me tornei melhor pessoa.

 

Onde encaixa o jornalismo neste percurso?


Foi a minha primeira profissão. Não, foi a minha segunda. Primeiro fui babysitter de três crianças entre os quatro meses e os seis anos. Depois abriram vagas para o novo jornal "O Século". Levei os meus trabalhos de História de Arte e fui admitida para a redacção do caderno cultural. Lá fiquei, mas também percebi que não era bem aquilo. Não tenho personalidade jornalística.

 

Porquê?


Gosto de escrever, mas a minha relação com a informação e o conhecimento é mais lenta, mais profunda.

 

Por isso apostou na rádio?


A rádio é um amor mal resolvido. Não vou acabar os meus dias sem fazer um programa de rádio. Não tenho televisão, tenho um rádio em cada divisão da casa. Adoro, gosto da animação, do jornalismo de rádio, da conversa, gosto de tudo.

 

Foi um encontro por acaso, este com o fado. O que seria se não fosse fadista?


Hoje já não consigo imaginar isso, eram menos 20 anos na minha vida. Hoje canto de terça a sábado, é mesmo a minha forma de vida. Mas se não pudesse cantar - não gosto de pensar nisso, que me aflige -, mas se não pudesse mesmo, arranjaria maneira de estar ligada. Ia trabalhar para o Museu do Fado, ia para o bengaleiro de uma casa de fados, comprava uma casa de fados, sei que essa ligação é para toda a vida. Seja da forma que for, este é um elo dos que nunca mais se cortam. Não passa pela cabeça de ninguém arrancar um olho. É assim, não faz sentido, era amputar-me.Maria Espirito Santo (jornal i)

Foto: Rita Carmo


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