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Liberdades fadistas: Entrevista a Ana Moura e António Zambujo

Entrevistas - Março 15, 2014
Começaram a cantar noite após noite no Senhor Vinho, casa de fados gerida por Maria da Fé e José Luís Gordo. Mas rapidamente os seus percursos, distintos, os puxaram para um outro circuito, o dos palcos, com um alcance cada vez mais internacional.

na Moura tem buscado um universalismo tangente à pop (partilha palcos com Prince ou Rolling Stones, encomenda canções a Pedro da Silva Martins, Márcia, Luísa Sobral ou Miguel Araújo) ou nos arrabaldes do jazz (canta Joni Mitchell, convidou Herbie Hancock para o seu último álbum). Daí que, sabendo da ousadia que assinava no seu último álbum, adequadamente intitulado Desfado por trocar as voltas à sua canção, admita a surpresa do bom acolhimento comercial do disco ou confesse que, durante a promoção do festival Caixa Alfama, percorrendo as ruas desse bairro andasse “receosa de levar umas boquinhas” que questionassem estas suas liberdades fadistas. Afinal, as gentes que por ali andavam meteram-se com ela, trauteando alguns dos fados tradicionais do seu início de carreira, lembrando-a de que, por mais voltas que dê, nunca deixará de lhes pertencer.

António Zambujo, devoto confesso de João Gilberto, tem deixado que o seu fado seja permeável à bossa nova, à candura do cancioneiro de Caetano Veloso, mas também às mornas e ao jazz vocal, tudo quanto seja música cuja interpretação assente numa delicadeza interpretativa. É música por vezes rente ao silêncio, cuidadosa, em busca de uma beleza pouco exuberante. Também ele canta temas de Pedro da Silva Martins (Deolinda) ou Miguel Araújo (Azeitonas). Aliás, com este último actuará no festival indie-rock Primavera Sound, no Porto, no primeiro fim-de-semana de Junho, a bordo de uma banda chamada Os da Cidade — canções alcandoradas na ideia de que “hoje em dia há muita gente a fazer o caminho inverso da migração para as cidades, interessada em procurar as suas origens, que vai à terrinha para as festas de aldeia, para as romarias”, explica.
A 18 e 19 de Março, actuam juntos no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, repetindo o formato a 21, no Coliseu do Porto. Mas, na verdade, esta é a confirmação de uma cumplicidade que já ficou provada em palco.

 

Depois da estreia, em Novembro, no Centro Cultural de Belém, regressam agora a este formato de concerto conjunto. Como começou tudo, quem deu o pontapé de saída?
ANTÓNIO ZAMBUJO — Foi o Museu do Fado que nos desafiou a montar um espectáculo, originalmente para a iniciativa Há Fado no Cais, no CCB. Tocámos em Novembro, mas isto foi preparado com um ano de antecedência. Quando fiz o Coliseu com o meu concerto, em Dezembro de 2012, esta apresentação com a Ana já estava marcada. Foi através desse convite que resolvemos juntar os trapinhos [risos].

 

Foi fácil perceberem como se faria a gestão da dinâmica do concerto?
ANA MOURA — Foi muito fácil. Juntámo-nos para ensaiar e começaram a surgir ideias. Rapidamente chegámos à conclusão de que teria graça estarmos todos em palco — os músicos da formação do António, os da minha formação, toda a gente, como se fosse a sala de uma casa de fados. Não quisemos que houvesse qualquer preconceito em relação a estarmos em palco mesmo não fazendo nada durante uma ou outra música. Queremos que seja mesmo uma partilha e assim não há aquela preocupação de alguém ter de sair do palco, aquela coisa muito montada.
A.Z. — Sim, não temos marcações teatrais ultra-rígidas.

 

O alinhamento também é relativamente livre, com essa descontracção de casa de fados, ou está previamente definido?
A.Z. — Os coliseus terão a mesma base que criámos para o concerto do CCB, limando algumas arestas, coisas que não funcionaram tão bem quanto esperávamos. A base tem um pouco que ver com o nosso percurso: começamos com uma parte de fados tradicionais...
A.M. — Depois entram outras músicas que nunca gravámos, coisas que nos influenciam.
A.Z. — E termina com músicas dos nossos últimos discos. O alinhamento é feito muito em função das músicas que fazem sentido enquanto sequência. A grande preocupação foi que houvesse um fio condutor em todo o concerto.

 

Um concerto com este desenho implica, naturalmente, que haja uma grande afinidade com o trabalho do outro.
A.Z. — As parcerias e as ligações fazem todo o sentido se houver alguma ligação, pelo menos alguma cumplicidade — admiração já será uma coisa fantástica. Temos de nos rever um bocadinho naquilo que o outro faz. De outra forma, só pode soar meio artificial e forçado.

 

Também ajuda à criação desses laços o facto de terem uma história de vida com algumas semelhanças, ambos originários de meios (Ribatejo e Alentejo) que não propriamente o berço do meio fadista?
A.M. — De uma forma inconsciente, é capaz de influenciar, sim. Conhecemo-nos há 14 anos, no Senhor Vinho. Foi a minha primeira casa de fados e o António estava lá nessa altura, fazia parte do elenco. Tinha acabado de chegar também.
A.Z. — A nossa maneira de ser também é muito parecida.
A.M. — Sim, às vezes falamos das tournées e das coisas que nos são mais difíceis de ultrapassar e são comuns.

 

O que são essas coisas mais difíceis de ultrapassar?
A.M. — Ainda há pouco, o António falava-me da diferença horária que desta vez [em Janeiro e Fevereiro, Zambujo realizou uma digressão nos Estados Unidos] o afectou imenso. Nós somos os dois morcegos [risos], vivemos mais à noite. Mas ele agora está todo contente porque diz que acorda de manhã e deita-se cedíssimo, tem aproveitado e sente-se muito mais vigoroso...
A.Z. — Meia-noite às oito da manhã — é a melhor coisa do mundo. Agora estou assim e adoro. Acordo superbem-disposto, saio para a rua. É uma maravilha.
A.M. — As tais coisas difíceis são o stress constante, as viagens, a falta de descanso. Às vezes, pensamos que o cansaço que sentimos é apenas físico, por dormirmos pouco, e que depois basta dormir dez horas seguidas e já recuperámos. Mas não é verdade, porque há um cansaço psicológico que vai sendo acumulado ao longo das tournées e com o qual é muito difícil de lidar. Agora estive um mês parada — há muito tempo que não me lembro de uma paragem destas —, no final de Dezembro e início de Janeiro. No fim do ano passado, sentia cansaço físico e às vezes fazia por dormir bastante, mas só quando parei é que caiu tudo e comecei a sentir um cansaço psicológico enorme, enorme... Mas quando se anda naquele ritmo frenético não se pensa — “OK, temos de fazer isto agora? Vamos!” Tanto eu como o António estamos sempre dispostos a ir para o próximo destino.

 

Nos períodos em que há possibilidade de fazer essas paragens, sentem necessidade de limpar a cabeça, não ouvir música, estar tão afastados quanto possível de tudo o que possa lembrar a rotina?
A.M. — Acontece-me isso, mas depois tenho saudades. É incrível.
A.Z. — Eu sinto falta de desligar. Este ano, a minha paragem foi parecida com a da Ana, no final do ano. O nosso último concerto do ano passado foi a 18 de Dezembro e depois parámos. E fui para o Alentejo, onde é impossível não haver música. Está sempre toda a gente a cantar modas alentejanas, anda-se em grandes jantaradas e não se desliga. Mas dá para abstrair. Sobretudo, consegue-se estar afastado dos aeroportos, que é algo extremamente cansativo.
A.M. — Eu queria ter feito isso, ter ficado em Portugal, mas de repente também me apeteceu estar mesmo com um chinelo no pé e despreocupar-me de tudo, e acabei por ir para Cabo Verde.

 

Onde, na verdade, a música também está sempre presente.
A.M. — Todos os dias! Ainda por cima, o Tito Paris agora está a viver lá e estive todos os dias com ele. E ele chamava-me sempre para cantar. Eu não queria cantar, mas acabei por fazê-lo todos os dias, sem excepção. Só que ao menos não era o meu reportório, eram mornas.
A.Z. — Uma coisa de que sinto saudades, e sinto muitas vezes saudades, é de ir a uma casa de fados. Até para ir ouvir os outros, para ver o que os outros estão a fazer. Sinto falta disso e não temos tido oportunidade.

 

Há quanto tempo não vão a uma casa de fados?
A.M. — Por acaso, fui há poucos dias porque foi o aniversário do meu guitarrista e ele toca numa casa de fados relativamente nova. Foi muito bonito — estavam poetas, músicos, fadistas...
A.Z. — Eu já não vou há muito tempo, nem me lembro... Acho que a última vez terá sido quando cantei no Caixa Alfama, em Setembro, e quando acabou o meu concerto fomos todos para a Mesa de Frades.

Quando vão a uma casa de fados, preferem estar do lado dos bastidores e não se colocarem numa situação em que tenham de cantar?
A.Z. — Completamente.
A.M. — Eu tenho imensas saudades de ir às casas de fado, mas para ouvir mesmo. Aliás, acontece-me não ir mais porque às vezes há pessoas que pedem para cantarmos e o facto de recusarmos é um pouco deselegante.
A.Z. — Até há quem não peça! [risos] Uma vez na Tasca do Chico, em Alfama, estava lá e o apresentador nem me disse nada. Tinha chegado há dez minutos, estava sentado e ele resolve dizer: “E agora, com todos vocês, António Zambujo vai cantar não sei quê.” Claro que depois fui. Mas eu gostava dessa coisa, de estar sem essa pressão, estar a assistir só para ouvir.

 

E o que sentem que perderam por não cantarem regularmente numa casa de fados?
A.M. — Eu fiquei nervosa. Fiquei mesmo. Perde-se o hábito de cantar tão próximo das pessoas. Essencialmente, aquilo de que sinto falta nessas noites é daquele convívio e de estar constantemente a reparar “olha este fado tradicional”, “olha este poema”, estarmos a falar sobre poesia, sobre um poema que nos tocou numa determinada altura. Faz-me falta a partilha.
A.Z. — Eu também. E sinto falta de tocar para os outros, de acompanhar. Acaba-se por se desenvolver muito mais a técnica e a capacidade de improvisar na hora, de inventar uma harmonia diferente para uma determinada música. Acho que perdi um bocadinho disso.

 

No fundo, é um ambiente de uma aprendizagem constante.
A.Z. — A casa de fados, para mim, funcionava como uma sala de ensaios, onde podia experimentar, tinha total liberdade criativa para fazer o que me desse na real gana — podia cantar uma moda alentejana, o que quer que fosse, atirava-me sem preocupações. Dessas experiências, surgiram sempre ideias novas, muitas coisas que acabei por aplicar nos discos e nos concertos.

É uma boa situação para testar os limites? Afinal, estão a cantar com músicos de fado, para um público que vai ali para ouvir fado, pelo que a noção desses limites deve estar bastante presente.


A.Z. — Também. Se bem que a casa de fados onde tocámos, o Senhor Vinho, é frequentada por público que vai para ouvir fado mas também por muita gente que vai ouvir pela primeira vez. É uma mistura. Havia noites em que tínhamos mesmo aquele público que gosta muito de fado e nessas noites, normalmente, eu não vendia muitos discos [risos]. Mas é engraçado perceber a reacção das pessoas.

 

É mais desgastante a nível emocional cantar numa casa de fados (em relação à situação de concerto)? Numa casa de fados, cantam três ou quatro músicas, fazem uma pausa, e voltam mais tarde, têm de ligar duas vezes esse registo de entrega e fazê-lo todas as noites.
A.Z. — Acho que desgasta mais emocionalmente porque se torna uma coisa demasiado repetitiva. Quando se deixa de ver a casa de fados como um sítio onde se pode fazer as experiências que se quer, testar coisas novas no reportório, e se começa a ver como um trabalho em que tem de se ir para a função todos os dias, das nove à meia-noite, intelectualmente não é muito bom, acaba por se estagnar. Fica-se ali, sempre no mesmo sítio, a ver as mesmas pessoas todas as noites, a fazer todas as noites a mesma coisa, dar as mesmas voltinhas. Sei que acontece porque já assisti a quem cante uma música de uma maneira e nos dias seguintes cante sempre a mesma música e da mesma maneira. E o fado é sobretudo uma música de improviso, espontânea, tem de se criar.
A.M. – A determinada altura, para quem canta todos os dias, torna-se difícil.
A.Z. — É desgastante.

É o reverso da medalha da experimentação, poder ficar viciado, não sair das mesmas soluções?
A.Z. — Um bocadinho. É importante saber dosear as coisas. Quando hoje em dia vou a uma casa de fados, e como não vou tantas vezes, noto que acabo por desfrutar mais, existe o factor surpresa de estar a ouvir aquilo pela primeira vez, ouvir as pessoas, surpreender-me com algumas vozes, com os músicos.

Serve também como forma de não deixar esquecer a origem da vossa carreira, lembrar onde e por que caminhos tudo começou?
A.Z. — Também, parece-me importante.
A.M. — Ajuda igualmente haver um determinado distanciamento de uma importância que é dada naquele meio, quando estamos todas as noites, a determinadas coisas. Depois percebemos que não é bem assim, depois de viajarmos e nos afastarmos. Vamos lá e apreendemos exclusivamente as coisas boas, as coisas que nos inspiram e que valem a pena. Esse distanciamento acaba por nos fazer perceber: “Oh, meu deus, tanto que eu sofri por uma coisa que não tinha importância nenhuma.”

 

Quem chega de novo a uma casa de fados é recebido de forma calorosa ou os novos costumam ser olhados com alguma desconfiança?
A.Z. — Um bocadinho dos dois. No nosso caso, era-nos reconhecido valor e isso é meio caminho andado…
A.M. — Nos fados, há muito isso: pode não se gostar de determinada pessoa, mas se tem valor ela é respeitada.
A.Z. — Mas depois há a outra parte. Por exemplo, eu via um bocadinho isso com a venda dos discos. Estavam lá expostos os discos de todos os cantores mas, por alguma razão, as pessoas gostavam mais de comprar o meu. Percebi que isso causava algum desconforto naqueles que estavam lá há mais tempo. Mas nunca foi nada muito, muito grave. Tínhamos sempre a protecção da Maria da Fé. Ela é superprotectora de toda a gente.

 

É a vossa maior referência comum?
A.Z. — É uma madrinha. Aprender com ela é muito interessante. Ela está sempre muito atenta e faz uma coisa que eu não conseguiria fazer e muito pouca gente consegue: está a ouvir toda a gente com a máxima atenção, chama no final, dá conselhos, sugere voltinhas que se devia fazer. Para ela, todas as noites são diferentes.
A.M. — É muito maternal.

 

Quando estão em Lisboa, têm uma vida muito caseira, resguardam-se muito?
A.Z. — Muitíssimo.
A.M. — Eu também. Sou muito caseira porque sinto imensas saudades de casa. Ainda estou naquele processo de fazer a história da minha casa. É um bocadinho despida de história, gosto de pôr umas almofadas fora do sítio para sentir…
A.Z. — Para sentir que está lá gente, não é? [risos]
A.M. — Quando chego a Portugal, preciso de uns dias para me sentir mesmo em casa. Depois é que ando lá por casa e penso “gosto tanto da minha casinha”.
A.Z. — Completamente de acordo. É exactamente igual.

Leva alguns dias a reentrar na normalidade?
A.M. — Quantas vezes me aconteceu acordar em casa e pensar “estou onde?, onde é a porta?, onde é que fica a casa de banho”? Isto de estar todos os dias um quarto de hotel diferente…
A.Z. — Lança-se a mão e o candeeiro está do outro lado [risos].
A.M. — Ajuda ter animais em casa. Agora tenho dois gatos. E são dois para fazerem companhia um ao outro. Pelo menos a casa está habitada pelos gatos.

 

António, há tempos dizia numa entrevista que se não fosse o fado teria uma vida muito desinteressante. Porque o fado ocupa muito espaço nas vossas vidas ou porque para além do fado não têm grandes interesses?
A.Z. — Eu tenho interesse noutras coisas, não sou é interessante a fazer outras coisas [risos]. Alguns amigos de infância dizem-me, meio a brincar e meio a sério, que se não tivesse esta voz não era ninguém na vida: “Eras um desgraçado, nem sabes mudar uma lâmpada.” É um bocadinho verdade. Mas também é verdade que se nós, na altura, percebêssemos que não tínhamos talento, teríamos investido noutra formação qualquer. A música, mesmo antes do fado, a música tradicional e tudo o resto entraram na minha vida logo muito cedo, comecei a centrar-me na música imediatamente e assim foi, é e será. Provavelmente também é por isso que não me especializei a trocar lâmpadas [risos].
A.M. — Já há algum tempo que estou numa fase em que sinto vontade de me inspirar em coisas diferentes e não tenho tempo. Mas sinto essa necessidade, preciso de outras coisas fora daquilo que faço, do meu universo, de que gosto, mas implicam disponibilidade. Mas quando estou cá torno-me tão caseira… Fico um bocado em pânico porque quero programar. Há tanta coisa que tenho consciência de ter deixado de fazer, a que quero voltar, que acabo por não fazer nada. Custa-me encontrar uma rotina nesta vida que não tem rotina absolutamente nenhuma. Mas é uma condição porque temos mesmo de nos entregar, que dar tudo de nós quando gostamos realmente de fazer algo. Estou a lembrar-me da história de um guitarrista que encontra alguém na rua e esse alguém diz-lhe: “Eu dava a minha vida para tocar como você.” Ao que ele responde: “Pois, eu dei a minha.” De facto, tem de se dar mesmo. Um instrumentista para ser excelente tem de se entregar diariamente.
A.Z. — Passa a ser quase uma obsessão.
A.M. — As pessoas acham que são só os concertos, mas há tanta coisa envolvida. Eu chego a casa, mas estou a fazer a promoção da próxima tournée da Turquia. Chego da Turquia e estou a fazer a promoção em casa, por telefone, da digressão seguinte. É uma entrega constante.
A.Z. — Mas vale a pena.

Que outras coisas são essas a que lhe falta tempo para se dedicar e onde procurar inspiração, Ana?
A.M. — Cinema, literatura... É preciso ter tempo. Costumo dizer que isso é um luxo. Tenho algumas dificuldades de concentração e não consigo ler e ouvir música ao mesmo tempo. E também não consigo ler num aeroporto. Embora tente. Ainda por cima as coisas que escolho para ler são normalmente um bocadinho mais dark, mais profundas. E preciso de um contexto próprio, de algumas condições para entrar nos livros.

 

De que tipo de leituras está a falar?
A.M. — Gosto de Kafka, gosto de Clarice Lispector. Ela é muito pesada, até os contos para crianças da Clarice são pesados. E preciso de estar tranquila, sem ruído. Uso as horas de voo para dormir, porque preciso de dormir pelo menos oito horas e não consigo — a seguir ao concerto vou jantar, a seguir ao jantar tenho de fazer a digestão e então vou dar uma volta a pé com os meus músicos, chego ao quarto e quero dormir para aproveitar todas as horas, mas nessa altura está-se com a adrenalina toda. Por isso é que vou jantar depois e não janto antes. E na manhã seguinte temos de sair para a cidade seguinte. Tudo sempre numa roda-viva.
A.Z. — Para resolver esse teu problema, há uma palavra.
A.M. — Então?
A.Z. — iPad. Faço tudo com o iPad, tenho os livros todos, os filmes, os discos, os jornais. A primeira coisa que faço de manhã, quando acordo, é ler os jornais. Nos aviões, como não consigo dormir, vou lendo jornais e livros. Para ver filmes, também é fantástico. Foi uma grande invenção.

Vivem com que tipo de prazos? Antecipam muito aquilo que vai acontecer, sabem o que vão estar a fazer daqui a seis meses?
A.M. — Eu nunca sei nada. Já me aconteceu estar no aeroporto e perguntar ao meu road manager: “Para onde é que vamos?” Acontece-te?
A.Z. — Sim, nos Estados Unidos nem se fala…
A.M. — Pois, para que cidade vamos. Isso acontece-me muito. Não consigo programar com muita antecedência, porque é tanta coisa que tenho de funcionar num modo de “se amanhã é para fazer aquilo, então é a isso que me vou dedicar esta noite”.
A.Z. — Também é por isso que temos uma equipa de pessoas a trabalhar connosco, que existem nas nossas vidas para nos libertarem desse tipo de trabalho, para que nós nos possamos concentrar mais na música.
Ambos têm carreiras com uma sólida implantação internacional. Ponderam ou ponderaram nalgum momento sair de Portugal, ir viver para fora?
A.Z. — Quando fiz o primeiro concerto no Rio de Janeiro, marquei uma data em que iria não definitivamente mas pelo menos durante um ano morar para o Brasil. Mas depois de ir todos os anos e de ver como aquilo tem descambado por causa da história do Mundial de Futebol, a loucura que tem sido de obras, a especulação imobiliária completamente absurda, chegar ao Rio de Janeiro e perceber que, neste momento, é se calhar a cidade mais cara do mundo, essa vontade arrefeceu um bocadinho. Nunca coloquei a hipótese definitiva, gosto muito de Portugal. Apesar de todas estas parvoíces que vemos serem feitas, gostamos do país, temos aqui a família, os amigos. Mas tenho pena de que isto esteja tudo tão mal feito, podíamos viver aqui num paraíso — e não estou a falar de paraíso fiscal [risos]. Podíamos viver com outras condições que não temos e é difícil perceber porquê, todos a culparem-se uns aos outros, ninguém assume que está errado — não importa quem é o culpado, mas corrija-se. Hoje em dia sinto que o Estado português é um daqueles filhos que endividam os pais até mais não e os pais têm de os sustentar. Não se percebe.
A.M. — E agora são os pais que emigram, como o Fernando Tordo.

A propósito de Fernando Tordo, têm medo de um dia se verem numa situação em que já não seja possível ter carreira aqui e se vejam mesmo obrigados a sair?
A.M. — O meu medo é geral. A minha carreira neste momento não é só aqui. Portanto, o meu medo é mesmo de não ter mais carreira, em toda a parte. É natural que se pense nisso e se arranje outras opções. Isso acontece mais com pessoas que trabalham só em Portugal. Eu já pensei várias vezes em viver fora de Portugal. Se bem que não sei bem o que isso significa, porque às vezes há quem me diga que viveu não sei onde e depois percebo que foram dois meses. Acontece-me muitas vezes ir para outros sítios em vez de vir para Portugal. Mas aí estou em casas que não são minhas, não estou a pagá-las. Mas já pensei viver um ano em Paris, um ano em Londres e um ano em Nova Iorque. Só que, tal como o António, gosto muito deste país.
A.Z. — A ideia de sair daqui agora vem com mais frequência. Sinto que morar em Portugal, hoje em dia, é ser roubado. Li há pouco a notícia de que a União Europeia acha que os salários dos portugueses têm de baixar mais 5%. Como é que é possível? Como pode a União Europeia, que sabe perfeitamente o estado em que as coisas estão, ter o descaramento de dizer uma coisa dessas? É completamente absurdo. Isto já é um roubo descarado. Para quê, para pagar as nacionalizações dos bancos? Não pedi nada disso. Está tudo errado e isso entristece-me.


E isso de ir viver para o Rio de Janeiro foi uma decisão a quente, uma reacção imediata ao facto de se sentir bem acolhido?
A.Z. — Primeiro foi uma decisão a quente, mas depois foi uma decisão ponderada, com data prevista e tudo. Depois a FIFA lixou-me os planos. Foi onde senti de facto essa coisa de “não me importava de morar aqui”. Acabamos por nos adaptar às realidades. Lembro-me que quando vim morar para Lisboa há 14 anos foi um choque tremendo. Durante os primeiros tempos em que morei aqui, todo o tempinho livre que tinha, nem que fosse uma tarde, pegava no carro para atravessar a ponte, voltar ao Alentejo e estar com as pessoas. Depois fui-me adaptando a Lisboa e hoje em dia a coisa inverteu-se. Já vou ao Alentejo como uma pessoa que é de lá, mas não está lá. Habituei-me a morar em Lisboa e é uma cidade que adoro. No Rio de Janeiro, tive a mesma sensação.

 

Sensação de deslumbramento?
A.Z. — Lisboa é das cidades mais deslumbrantes do mundo. Mas, para além desse deslumbramento, o que faz as cidades? As pessoas que conhecemos nelas. E no Rio de Janeiro foi isso que aconteceu: conheci pessoas, fiz amigos, criei um núcleo que me faz sentir em casa. É o que acontece em Lisboa, é o que acontece quando vou ao Alentejo.
Também sentiste esse choque na chegada a Lisboa, vinda do Ribatejo?
A.M. — Sim, esse choque foi enorme. E teve repercussões incríveis na minha personalidade. Na altura, quando vim para Carcavelos, tinha 13/14 anos, estava a formar a minha personalidade e, de repente, ir para um sítio completamente novo, onde as pessoas já tinham as suas amizades e os seus grupos, foi um choque grande e duro. Fechei-me muito mais.
A.Z. — Temos aí mais uma coisa em comum: somos muito tímidos e não temos aquela iniciativa de chegar e meter conversa. É um processo muito doloroso. Quando se chega de novo a um sítio, ser-se aceite pela comunidade, por aquelas pessoas é complicado.

 

Essa timidez tem ou tinha algum peso no momento de cantar? Ou no momento, em que, entre duas músicas, tem de se fazer conversa com o público?
A.M. — Esse sempre foi o meu grande problema: ter de dizer alguma coisa entre as músicas.
A.Z. — Eu armei-me em engraçadinho. Para combater ou para camuflar essa timidez, comecei a mandar umas piadas, a dizer umas coisas meio espontâneas, aquilo que me vinha à cabeça. Ajuda, de facto, a que relaxe e tudo à minha volta fique mais relaxado.

Mas isso também exige ter piada.
A.M. — Pois, exactamente, porque ele tem esse lado e resulta.
A.Z. — Há umas que saem e outras que não. Vejo muito o Seinfeld, Monty Python, Gato Fedorento e Porta dos Fundos para procurar inspiração [risos].

 

Sentem que há expectativas diferentes no fado pelo facto de se ser homem ou ser mulher?
A.M. — Exigem mais das mulheres, não é?
A.Z. — A concorrência também é muito maior. Na minha geração, estou praticamente sozinho com o Ricardo Ribeiro, estamos ali descansadinhos os dois. O Camané já é mais velho.
A.M. — E porque há uma referência, a referência maior foi de facto uma mulher, a Amália Rodrigues. E é uma referência tremenda.

 

António, acha que teve mais liberdade por essa razão?
A.Z. — Não sei se foi por causa disso, nem sei se tive mais liberdade. Mas, até mesmo na forma descontraída como as pessoas falam das coisas, nota-se bem que a exigência é maior para as mulheres do que para os homens. Cada vez que aparece uma nova fadista é feito logo um grande aparato, mas ao mesmo tempo também é feito um julgamento mais cruel e mais severo do que com os homens, que não aparecem tanto. Há imensos a cantar em casas de fado, mas aquele salto para os palcos e fazer concertos em nome próprio, ter discografia, não acontece muito. Por outro lado, também há mais oportunidades para as mulheres do que para os homens.



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