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Gisela João ao vivo no Coliseu dos Recreios

Concertos - Fevereiro 01, 2015
Continua a brilhar alto a estrela de Gisela João. Coliseu cheio para ver um espetáculo especial, com muitas canções inéditas no alinhamento e uma viagem desde os tempos "da Gisela pequenina à Gisela gigante".

No início era o mar. Metáfora de saudade e distância, descoberta e emoção, a temática marítima foi uma constante ao longo da primeira noite de Gisela João no Coliseu de Lisboa. No cenário simples mas inteligente pensado por André e. Teodósio, as ondas azuis faziam a ligação com a voz que se ouvia entre canções, numa série de interlúdios sonhadores. A voz de Gisela, falada, com orgulhoso sotaque do Norte, discorria, sem nunca revelar demasiado, sobre a viagem em que pretendia levar todos os que embarcaram nesta aventura de partilha. Confundindo-se com o burburinho de uma sala cheia de gente e expectativa, o murmúrio do mar deu assim o embalo inicial a uma noite memorável.

Galardoada, aclamada e acarinhada pelo seu primeiro álbum, lançado há quase dois anos, Gisela João nunca escondeu a ambição que a leva a sonhar com espetáculos mais caprichados, cujo conceito abrace mais do que a música. O concerto desta noite foi, além de um resumo do caminho percorrido até agora e de uma sentida homenagem aos seus grandes heróis, uma espécie de portal para o que poderá estar para vir. Além das ondas do mar e dos interlúdios falados, metade voz da consciência, metade separador de capítulos, em palco vimos uma árvore, sob a qual tocaram os "meninos de ouro" da fadista (Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Francisco Gaspar no baixo e Nelson Aleixo na viola), e o nome da protagonista do serão - em grande, bem visível, mas escrito sob a forma de nuvem. De um bucolismo fantasioso, o cenário espelhou sem pretensiosismo a informalidade que Gisela veio trazer ao fado: a sua espontaneidade é encantadora (gargalhada geral quando, entre músicas, interpelou "os senhores que estão a ir embora... vão à casa-de-banho, é?"), mas nunca distrai os espectadores do essencial, ou seja, do absurdo talento de uma predestinada que, cada vez mais nos convencemos, nasceu para (nos) cantar.

Se há precisamente há um ano, no Centro Cultural de Belém, nos deu as boas-vindas com uma prosa manuscrita, distribuída à entrada, nesta estreia no Coliseu Gisela disse as boas noites aos seus "amores" no primeiro "diário de bordo" (assim chamou aos interlúdios pré-gravados) que se fez escutar. E se há um ano o alinhamento se concentrou sobretudo no seu inabalável álbum de estreia, este ano houve surpresas a rodos, com a minhota a fazer seus vários fados que nunca ouvíramos na sua voz. Foi o caso da castiça e saltitante "Senhor Extra-Terrestre", canção que Carlos Paião escreveu para Amália Rodrigues, mas também da sublime "Que Deus Me Perdoe", o fado que, era Gisela uma criança com responsabilidades de adulta, a convenceu que os poemas não eram, afinal, "uma seca". Recordando o tempo em que cantava fado "numa danceteria do Porto", a menina-mulher de Barcelos encarnou ainda, mais do que cantou, "O Meu Corpo" (Ary dos Santos/Fernando Tordo), acabando prostrada perante a força da própria interpretação e de um coliseu que não aguentou até aos últimos trinados dos "muchachos" das cordas para irromper em aplausos eufóricos.

Quer nos momentos de maior gravidade, virtude que consegue sempre encontrar no mais fundo de si e que contrasta de forma gritante com a jovialidade do seu temperamento, quer na dança extrovertida de "Malhões" ou "Bailarico Saloio", Gisela João vai dos zero aos cem em menos de um ápice. A sua entrega nunca sai do vermelho: vermelho-vivo de paixão, de carne viva, de tudo ou nada. É desarmante vê-la sair incólume da visceralidade de "Vieste do Fim do Mundo", um dos mais belos temas que já gravou, para um sorriso aberto de garota deslumbrada com o Coliseu cheio que tem perante si. Recentemente, em várias entrevistas, confessou que interiorizou a ideia de que agora é como um atleta olímpico, no que toca à exigência e preparação com que precisa de encarar o seu ofício, e é realmente olímpica a classe com que chega ao final do espetáculo aparentando estar tão fresca, tão alegre e tão disponível como no seu começo. Pelo meio ficaram duas horas de homenagem aos fadistas que mais a marcaram (Beatriz da Conceição, Max, Maria da Fé - presente na plateia - foram lembrados) e uma montanha-russa de emoções que de derivativo nada tem. Gisela, é justo dizer, pega nas canções, puxa-lhes as orelhas, vira-as do avesso e torna-as suas. Sem fechar a porta ao fado ("e fugindo ao fado fugia de mim", lembra em "Que Deus Me Perdoe"), abre-lhe janelas para outros mundos, e isso é a marca de uma intérprete inimitável.

Numa altura em que pensa já no segundo álbum, Gisela João não desvendou o que aí vem, mas a avaliar pelas canções que decidiu, pela primeira vez, apresentar ao grande público, é legítimo esperar que o nível da estreia se venha pelo menos a manter. Assenta-lhe às mil maravilhas a aura intemporal de muitos dos fados que escolheu cantar (o tradicional "Fado Acácio", que já ouvíramos no CCB, podia ter sido escrito para ela), assim como lhe servem como uma luva os poemas de palavras fortes e concisas, que deixam um lastro de emoção após a primeira vez que as escutamos. Após "Meu Amigo Está Longe", maior do que a vida, exatamente do tamanho do coração de quem o canta, "Labirinto" levou o Coliseu ao delírio com o desespero final das palavras, em forma de flecha, de David Mourão-Ferreira: "Não foi nada, não foi nada, podia ter sido amor!". Numa das melhores sequências da noite, seguir-se-iam a homenagem a Max, com "Pomba Branca", e um arraial popular maravilhoso, a trazer o São João e a Ribeira do Porto para o Coliseu, pela pena sempre acutilante de Ana Matos, aka Capicua.

Seguindo um alinhamento generoso e claramente escolhido com esmero, para mostrar de forma mais livre do que cronológica a viagem "da Gisela pequenina até à Gisela gigante", amiúde a emoção assomou e transbordou; numa interpretação incandescente, a nossa heroína dá-se ao fado e ele tudo lhe retribui. Assim foi em "Canção Grata", com fabuloso poema de Carlos Queirós (1907 - 1949), a mostrar que tudo o que são palavras cortantes se tornam, na sua voz, algo maior; mas também na festa contestatária de "(Casa da) Mariquinhas" ou, já no encore, na velocidade vertiginosa de "Antigamente". Surpresa mais ou menos guardada desde a semana passada, altura em que a nortenha subiu ao palco do Coliseu do Porto, a chegada do Rancho Folclórico de Barcelos para "cantar e bailar" "Valentim" trouxe uma alegria genuína e popular ao Coliseu, que por esta altura já tinha Gisela dobrada e guardada no coração. Capaz do sentimento mais comunitário e do mais profundamente pessoal, ainda que sempre transmissível, Gisela deixaria para um dos encores aquele que é, porventura, o nosso tema favorito do seu disco de estreia: em "Madrugada Sem Sono", possuída, de joelhos, sob a trovoada das cordas dos seus meninos, provou mais uma vez que a canção (originalmente do repertório de Beatriz da Conceição) podia ser rebatizada de Fado Gisela, tal é a forma como a sorve e expele em palco.

Depois de chamar ao palco toda a sua equipa, com quem partilhou lágrimas e ovações, Gisela abandonou então o palco em pleno estado de graça. Minutos antes, ameaçara a despedida: "Não vos posso prender aqui para sempre". Ora aí é que ela se enganou.Lia Pereira ()


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