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Amália Rodrigues - Os Discos

Amália era já uma estrela em solo português quando chega ao disco pela primeira vez. Durante a década de 40 as propostas de gravação feitas a Amália foram sendo recusadas pelo seu empresário da altura, José de Melo, temeroso que o disco de 78 RPM então em progressiva divulgação viesse prejudicar a carreira de palco da artista.

Os dezasseis temas que Amália regista nos estúdios da companhia brasileira Continental, em 1945, durante uma estadia profissional de grande sucesso no Rio de Janeiro, apenas são gravados porque nunca ninguém pensou que os 78 RPM resultantes chegassem a Portugal.

Resolvido o tabu com a evidência de que os discos eram um factor importante de divulgação e popularização (e, ao contrário do que se dizia, geravam um maior interessedo público nos seus concertos), os anos 50 trouxeram o verdadeiro arranque da Amália de estúdio. Na editora Melodia lança uma dúzia de discos de 78 RPM, gravados no período compreendido entre 1950 e 1952, alguns dos quais já com orquestra, registando para a posteridade os muitos temas que criara em palcos de revista e casas de fado; é um período de aprendizagem do formato e do estúdio.
Assina em 1952 pela Valentim de Carvalho, que envia logo a nova estrela do seu catálogo a gravar em Londres, nos estúdios de Abbey Road propriedade da multinacional EMI com quem a casa mantinha e manteria relações privilegiadas.

Em Portugal e no Brasil, Amália é já uma estrela; inicia-se o processo de divulgação internacional, facilitado pelos laços com a EMI, que começa a editar os seus discos em Inglaterra, França ou EUA, coincidindo com as primeiras tentativas de apresentações em palco nesses países. As cerca de 50 gravações editadas neste período dividem-se entre a canção de raíz popular muito aplaudida pelos estrangeiros ("Coimbra", "Uma CasaPortuguesa") e os fados mais trágicos e tradicionalistas, iniciando-se a colaboração com o poeta David Mourão-Ferreira em 1953 com "Primavera".

A verdadeira explosão internacional dá-se em 1955 com a gravação de "Barco Negro", uma estilização afadistada de um original brasileiro (com uma nova letra de David Mourão-Ferreira) que, interpretada por Amália no filme francês "Os Amantes do Tejo", dá a volta ao mundo. França torna-se no seu segundo mercado, prontificando a edição do célebre álbum ao vivo no Olympia (1957) e, em 1958, a sua contratação pela editora independente francesa Ducretet-Thomson, que a alicia para longe da Valentim de Carvalho alegadamente com uma soma mirabolante. É uma relação breve, prolongada até 1960, claramente virada para a exploração do exotismo da sua voz.

Se os anos 60 são unanimemente considerados a sua "década de ouro", isso não se deve apenas à sua voz, que se encontrava agora enriquecida por vinte anos de carreira e de vivências emocionais, possibilitando desvendar novas densidades interpretativas; mas também aos riscos (calculados mas nem por isso menos arriscados) que soube correr, com a ajuda de David Mourão-Ferreira e do compositor francês Alain Oulman, verdadeiros directores musicais da sua carreira durante os dez anos que se seguem.

Duas obras-primas absolutas balizam a década: o álbum do "Busto"(1962), intitulado apenas "Amália Rodrigues" mas que ficou assim conhecido pelo busto de Amália que surgia na capa, e "Com Que Voz" (1970), onde as melodias de Oulman e as palavras de poetas portugueses, de Pedro Homem de Mello a Camões passando por Alexandre O'Neill e David Mourão-Ferreira,constroem algo que está já para lá do fado e ao qual só a voz de Amália consegue dar significado e forma. É uma outra Amália, mais madura e mais intensa, que se revela nestes discos ou ainda em "Fado Português"(1965) ou "Maldição" (1967), sublinhando a componente dramática e o poder interpretativo da sua voz.

Os anos 60, contudo, começam também já a revelar a dicotomia quase esquizofrénica da sua carreira artística e que atingirá o seu cume nos anos 70: à tragédia nocturna e sombria de "Maldição" ou "Com que Voz", Amália faz corresponder a alegria solar e bairrista de "Vou Dar de Beber à Dor" (1968), que se torna rapidamente no seu disco mais vendido de sempre,ou a homenagem terna e experimental às suas raízes beirãs de "Amália Canta Portugal" (1967), onde retoma temas folclóricos acompanhados por orquestra. Entre a festa e a tragédia, Amália preferia não escolher.

Os anos 70 iniciam-se com a edição de "Com que Voz" (disco gravado ainda em 1969) e do duplo álbum com Vinícius de Moraes, e correspondem a um reviver do interesse internacional em Amália. Durante parte substancial dos anos 60 só França se mantivera fiel à artista, mas "Com Que Voz" reacende a chama internacional, e ei-la a percorrer o mundo em infindáveis digressões durante a década de 70, regravando inclusivé muitos dos seus clássico em versões em língua estrangeira. Este relançamento internacional coincide, aliás, com o 25 de Abril e o desinteresse de um público nacional virado para outro lado mas que, felizmente, dura pouco. No período compreendido entre 1974 e 1977 são editados sucessivamente "Encontro", gravado com o saxofonista Don Byas; "Amália no Luso", registo de uma actuação de 1955; várias recolhas de material perdido em EP's e singles; e, finalmente, o primeiro disco de estúdio desde "Com que Voz", "Cantigas numa Língua Antiga" (1977), composto por fados de Alain Oulman.

Regressa aos discos em 1980 com "Gostava de Ser Quem Era", uma colecção de fados originais com letras da própria cantora, dando início a uma década onde Amália se despede do estúdio e a sua obra gravada é finalmente redescoberta por Portugal. Em 1985, uma colecção de êxitos, "O Melhor de", monopoliza as tabelas de venda, ultrapassando os cem mil discos vendidos; mas Amália começa a sofrer de problemas nas cordas vocais. A "Gostava de Ser Quem Era" sucede "Amália Fado" (1982), um disco de homenagem ao compositor Frederico Valério, e "Lágrima"(1983), que ficará como o seu último disco de estúdio composto por material original. Continuará a cantar ao vivo - o seu concerto de regresso aos palcos em 1987, depois de uma operação delicada, será inclusive lançado em disco - e regressará a estúdio várias vezes, estendendo um longo adeus. Os últimos discos de inéditos publicados ainda em vida serão já, contudo, colecções de material de arquivo: "Obsessão", de 1990, com inéditos dos anos 80, e "Segredo" de 1997, com inéditos dos anos 60 e 70.
Jorge Mourinha



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