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No Porto, o fado apareceu há mais de 100 anos

“Não sou historiadora, sou fadista, tenho 74 anos, canto há mais de 50 e tenho a quarta classe”, resumiu Maria da Fé quando lhe pedimos que comentasse as palavras de Rui Vieira Nery.

O musicólogo, filho do célebre guitarrista Raul Nery e autor do ensaio de referência Para Uma História do Fado (2004), tinha explicado  que “as tradições populares do Porto, como o São João, têm muito do folclore do Minho e do Douro Litoral mas não foram influenciadas pelo fado”. Acrescentou: “Alguém com mais de 30 anos saberá dizer que o fado no Porto ganhou força nas últimas décadas, o que acompanha o renascimento que houve no resto do país, com novos intérpretes e públicos, mas há pouco fado no Porto, é uma tradição recente”.

Em vésperas da segunda edição do festival de fado Caixa Ribeira – sexta e sábado no Porto – quisemos saber como é que esta tradição de Lisboa chegou ao Porto e que expressão tem hoje?

O Porto no fado

Maria da Fé, um dos muitos nomes do fado que nasceram na Invicta, entende que “o fado é português” e “não tem tradição no Porto como não tem em lado nenhum, ou seja, tem tradição em todo o mundo”. Em linguagem quase mística, afirma: “O fado é um condão que se tem e não é fadista só quem canta, também é quem ouve”.

Recuando ao início do século XX, surge o livro História do Fado, de Pinto de Carvalho, também conhecido como Tinop, ainda hoje uma referência para estudiosos. Saiu em 1903 e é considerado o primeiro do género alguma vez escrito. Pinto de Carvalho dizia ser “indubitável” que o fado só apareceu em Lisboa depois de 1840. “Até então, o único fado que existia, o fado do marinheiro, cantava-se à proa das embarcações” e foi esse estilo que “serviu de modelo aos primeiros fados que se tocaram e cantaram em terra”.

Naquele tempo, não se tornara ainda uma canção fortemente urbana. Era suburbana, diríamos hoje. Cantava-se nos arredores rurais de Lisboa, nas hortas: Cova da Piedade, Dafundo, Palhavã, Arroios, Lumiar. Num estilo vernáculo, o autor apresenta uma extraordinária descrição do fadista do fim de século na capital:

“Minado de taras, avariado pelas bebidas fortes e pelas moléstias secretas, com o estômago dispéptico, o sangue descraseado e os ossos esponjados pelo mercúrio”, o fadista “atinge a perfeição ideal do ignóbil”, cantando com “uma entoação febril e húmida de soluços, olhos quebrados e a inamovível ponta de cigarro soldada ao lábio inferior.”

Porém, acrescenta Tinop, “nem só a gentalha da ralé se fadistiza”, pois a “fadistagem também se recruta na burguesia”. Afirma que “o figurino fadistal lisbonense teve imitadores no Porto” e foi Camilo Castelo Branco quem o deixou registado no romance Eusébio Macário de 1879, falando de “facadas e muito banzé” madrugada fora. Ainda Camilo sobre o Porto:

“[Os fadistas, por volta de 1850] ainda os não havia fora das tabernas da Porta de Carros e das alfurjas [pátios interiores] da Porta Nobre, ramificações do [botequim] Pepino em Cima do Muro. O faia [fadista] começava então a surdir na capital das cavalariças dos fidalgos pela coesão do filho segundo com o lacaio.”
O fado “só modernissimamente chegou ao Porto e se canta nas duas Beiras”, sublinha Tinop no livro de 1903, o que permite hoje afirmar que é um fenómeno portuense com mais de um século. Há outras razões para acreditar nisso.

As gravações

O alentejano José Moças, colecionador e responsável pela editora Tradisom, garante ter em sua posse a “primeira gravação de fado conhecida”, feita em novembro de 1900 no Porto. “É um disco de grafonola, de 78 rotações, e faz parte de um conjunto de mais de 80 gravações das quais até hoje se descobriram 67”, conta. “Tenho quatro desses discos, dois deles são fado: o Fado Hilaryo, interpretado por Duarte Silva, e Oh Julia, por José Brito.”

O registo foi feito por William Sinkler Darby, engenheiro de som britânico que passou pelo Porto em 1900. “A ligação dos ingleses ao Porto era antiga, por causa do vinho, e talvez isso explique que ele lá tenha ido. Foi uma viagem à Europa continental para divulgar o aparelho que fazia gravações, depois o engenheiro seguiu para Madrid. Ele trabalhava para a Berliner, que mais tarde veio a ser a EMI.”

Referindo-se às vozes nas duas gravações, descreve-as como “muito certinhas e expressivas, sem grandes rodriguinhos, como alguns fadistas hoje fazem”. A maneira de cantar é “muito clara, com boa dicção, mas a voz é muito aguda, o que pode ter que ver com a maneira como se captava o som”. Há quatro anos, José Moças cedeu toda a coleção, cerca de seis mil discos, à Universidade de Aveiro, para tratamento, digitalização e classificação. Mas mantém usufruto vitalício do acervo. “O processo atrasou-se e estes discos de fado ainda não estão digitalizados e estudados”, lamenta o colecionador.

Outro elemento que pode ajudar a perceber a antiguidade fadista no Porto – o que não é igual a dizer que o fado tem tradição popular na cidade – é citado por David Ferreira, ex-diretor da EMI-Valentim de Carvalho em Portugal, filho do poeta David Mourão Ferreira.

“Não sou autoridade na matéria, mas se bem me lembro do que escreveu Rui Vieira Nery, o fado nasce em Lisboa e é transportado para o resto do país a partir da década de 1880 através do teatro de revista”, lembra David Ferreira, destacando a melodia Fado Menor do Porto, que Amália gravou nos estúdios Abbey Road, em 1952, com o poema de Norberto de Araújo Não é Desgraça Ser Pobre. “Há um discos dela em que a melodia aparece creditada como sendo de Santos Moreira, viola de Amália, o que não é verdade.” O autor será José Joaquim Cavalheiro Júnior, personagem de biografia incerta que também escreveu o Fado Porto. Supõe-se que tenha estado no ativo entre os anos 1920 e 40. “Normalmente, quando estas atribuições erradas aparecem é porque o compositor original estava esquecido, o que me leva a crer que o Fado Menor do Porto é muito anterior à década de 1950”, regista David Ferreira.

Se a composição deriva do Fado Menor (um dos três fados que popularmente se diz terem sido os primeiros, ao lado do Corrido e do Mouraria), David Ferreira não sabe. Se o título permite dizer que foi composto no Porto, também é incerto. Em rigor, sabe-se que ao longo do século XX muitos foram os músicos e intérpretes sonantes nascidos na Invicta ou ligados à cidade. No site do Museu do Fado encontram-se notas biográficas dos principais nomes:

Beatriz da Conceição
(1939-2015) – Nasceu no Porto e começou a cantar em Lisboa, na casa de fado de Márcia Condessa, por volta de 1960.
Fernando Maurício (1935-2003) – Nasceu na Mouraria, claro, na Rua do Capelão, numa família de cinco irmãos. A mãe era do Bonfim, no Porto.
Florência (n. 1941) – Nasceu no Porto e começou a cantar aos 13 anos no Concurso das Cantadeiras do Norte de Portugal, no qual representou a freguesia do Bonfim, ganhando a final no Coliseu do Porto.
Gisela João (n. 1983) – Nasceu em Barcelos e viveu seis anos no Porto onde “acabou no circuito boémio da Invicta, a encantar numa casa de fados da Ribeira”, refere a nota biográfica do Museu do Fado.
Joana Amendoeira (n. 1982) – Nasceu em Santarém e estreou-se aos 11 anos na Grande Noite do Fado do Porto.
José Fontes Rocha (1926-2011) – Nasceu na freguesia de Ramalde e tocava guitarra desde adolescente. Mudou-se para Lisboa em 1956 e começou por acompanhar Fernando Farinha, antes de se tornar guitarrista de Amália Rodrigues.
José Nunes (1916-1979) – Nasceu no Porto, em Paranhos, e é descrito como um guitarrista criativo que irá influenciar Fontes Rocha e António Chainho, entre outros instrumentistas.
Lenita Gentil (n. 1948) – Nasceu na Marinha Grande, mas viveu no Porto a partir dos 14 anos e aí se iniciou no fado, nos Serões para Trabalhadores transmitidos pelos Emissores do Norte Reunidos.
Maria da Fé (n. 1942) – Nascida no Porto, começou a cantar em criança e aos 13 anos ganhou um concurso organizado pelo Jornal de Notícias e o empresário Domingos Parquer, na Feira Popular do Porto.
Mísia (n. 1955) – Nasceu no Porto e foi viver para Barcelona aos 18 anos.
Pedro Homem de Mello (1904-1984) – Nasceu ni Porto o poeta que Amália eternizou em fados como Povo que Lavas no Rio, Fria Claridade ou Rapaz da Camisola Verde.
Tony de Matos (1924-1989) – Viveu até aos cinco anos no Porto e começou a cantar em 1945, já em Lisboa, na Emissora Nacional.

Apesar destes 12 nomes, que representam um levantamento não exaustivo, Rui Vieira Nery entende que “não se pode dizer que haja um elevado recrutamento de vozes do Porto, é um fenómeno ocasional”. Acrescenta, até, que “a certa altura havia uma certa gala de rejeição do fado por parte dos portuenses, por ser um fenómeno lisboeta, dos mouros” e a “única voz que fazia o pleno”, em termos de aceitação, era Amália Rodrigues.

A mesma impressão guarda David Ferreira, falando em “revoadas” de popularidade e rejeição do fado no Porto. “A cidade teve alturas em que reforçava o seu regionalismo e se tornava menos sensível ao que vinha de fora”, diz. “Quando estive na EMI, senti por volta do fim dos anos 80, inícios de 90, que era complicado vender discos de fado no Porto, pelo menos em comparação com Lisboa.”

Outra questão importante será a do sotaque com que se canta. No livro Ao Fado Tudo se Canta? (2010), o autor Daniel Gouveia defende que o fado “não aceita imitações, nem sequer o mínimo desvio à pronúncia de Lisboa, sem que daí resulte imediatamente a ideia de falsificação”. Conta uma história curta, em tom de elogio:

"Em certa casa de fados da Margem Sul [do Tejo] havia uma fadista do Porto. Sentada à mesa com colegas ou clientes, conversava com a pronúncia mais tripeira que se possa imaginar, fazendo gala nisso. Quando ia cantar, fazia-o com impecável pronúncia de Lisboa. Voltava à mesa e tínhamo-la de novo nortenha."
Daniel Gouveia nota que a sua opinião não deve ser considerada radical, pois também “não se pode cantar um corridinho algarvio ou uma moda alentejana com pronúncia fechada de Lisboa”, porque “soa igualmente a falso, é pobre e carece de autenticidade”.


As influências

Que condições históricas levaram a que o fado – cuja origem os estudiosos dizem ser desconhecida, podendo apenas intuir-se – nascesse em Lisboa e não numa cidade grande como o Porto? Mais uma vez, é Rui Vieira Nery quem apresenta argumentos. “O fado relaciona-se com o porto de Lisboa, as rotas de comércio com o Brasil, o fenómeno migratório de gente desalojada com as guerras liberais ou à procura de melhor vida com a revolução industrial.” É por isso um género que resulta de um “caldeirão cultural”. Se o Porto conservou “tradições culturais autóctones, Lisboa criou novos rituais coletivos”, descreve.

Para Maria da Fé, Lisboa “tornou-se capital do fado, porque foi aqui que as casas nasceram e se concentraram”. “Noutras cidades do país, o fado não tem o mesmo sabor, não é a mesma coisa”, garante, logo acrescentado que se começasse hoje a carreira não sairia do Porto. “Adoro a minha terra natal, a minha gente, as tradições dos bairros. Vivi no Porto todo, morei em tantos sítios da cidade, essas raízes estão cá dentro para toda a vida.”

Pedimos-lhe, ainda, que recordasse o panorama fadista portuense de quando era criança. Mas as memórias são difusas. “Gravei o primeiro disco numa editora que funcionava numa loja de eletrodomésticos do Arnaldo Trindade, frente ao [café] Majestic. Gravei porque aconteceu.” Esse primeiro tema chamava-se Eu Canto Fado e Sou Tua, de Casimiro Ramos.

À época, afirma Maria da Fé, não havia casas de fado como na capital. “Muitas pessoas do Norte não gostavam de vir para Lisboa, mas tinham de compreender que no Porto não havia casas de fado para seguirem esta arte. As casas de fado no Porto ficavam por cima ou na cave de boîtes e cabarets. Havia uma ou duas quando eu era miúda, mas nem podia lá entrar, porque a maioridade era aos 21 anos, não aos 18.” Atualmente, existem pelo menos três com atividade regular.

O Museu do Fado editou o livro Há Fadistas!, com fotografias do jornalista e escritor Pedro Teixeira Neves e textos de Maria do Rosário Pedreira, Sara Pereira e Rui Vieira Nery. Inclui 300 fotografias captadas em cem casas de fado de norte a sul do país. O autor esteve também no Porto e arredores no verão do ano passado. “Julgo que visitei todas as casas ali existentes ou pelo menos as mais representativas, sendo que todas elas, umas de forma mais profissional, outra em modo amador, apresentam fado pelo menos uma vez por semana”, explica.

Pedro Teixeira Neves concluiu que “há fado a norte e enraizado”, ainda que se trate de um “universo fadista bem mais restrito do que o de Lisboa”, o que se nota na repetição de intérpretes e músicos em vários locais. Tal como na capital, existem casas profissionais, com elenco residente, público turista e preços altos; e casas de fado vadio, sem horário fixo, com muitos clientes portugueses e onde canta quem aparece. “A alma, pareceu-me ser a mesma em todos os fadistas que conheci, seja a norte ou a sul, no fundo é de uma paixão que se trata e nessa matéria não há fronteiras nem territórios demarcados”, conclui.
Bruno Horta


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