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“Aqui na tua terra as crianças ainda sabem o teu nome”. A carta aberta de Júlio Resende a Amália

Archive - Outubro 06, 2019
Pianista vai interpretar Amália, uma das suas maiores paixões musicais, em concerto. Recorde a sentida interpretação de 'Estranha Forma de Vida' em exclusivo.

O pianista Júlio Resende apresenta a 8 de outubro um concerto de piano solo no Teatro da Trindade, em Lisboa. Trata-se de um espetáculo com Amália Rodrigues em mente, "uma abordagem livre numa espécie de carta aberta que [o artista] gostaria que tivesse sido lida pela própria Amália Rodrigues”, falecida há 20 anos.

"De Júlio Resende para Amália Rodrigues" é descrita como "uma carta musical que recorda o percurso e amigos da fadista. Uma carta de saudade que não esquece o percurso em Hollywood onde Amália cantou e os amigos transatlânticos Vinicius de Moraes e Caetano Veloso" pelos quais também o pianista também nutre admiração, o pianista que compôs para Amália, Alain Oulman, Vitor Pavão dos Santos, "que lhe escreveu a sua melhor biografia", e o público da fadista.

A ligação de Resende ao fado é conhecida: em 2013 editou "Amália por Júlio Resende" e dois anos depois "Fado & Further". Leia a carta:

De: Júlio Resende
Para: Amália Rodrigues

Querida Amália,
Espero e desejo que estejas bem. Ninguém sabe o que acontece quando morremos, mas é certo que tu vives ainda. Porquê, perguntas? Ora essa, é simples a resposta. Porque ainda ninguém te esqueceu, querida Amália. Já viste quantas vezes gostamos de dizer o teu nome ou escutar a tua voz, quer seja nas ruas do Chiado a vender discos como se vende o peixe que com grande esforço se foi apanhar ao mar, quer seja em casa, fechados, e a sonhar cantar assim? Ai meu Deus, algumas mulheres se pudessem cantar assim matavam. Ai meu Deus, e os homens, esses, ainda lutam para mostrar que o Fado não é só feminino como tu eras.
Mas Amália, eu não quero ser ‘amaliano'. Perdoa-me!
Acho que o melhor modo de te respeitar é perturbar a paz pública. Porque tu nunca quiseste seguir ordens musicais, nem manter tudo na mesma. E é assim para mim também, minha querida. Por isso Amália, eu estou aqui para assaltar as tuas músicas, pegar nelas como em pedras na praia e atirá-las ao mar, e espantar-me, espantar-me muito ao contar o número de ricochetes que a pedra faz até se afundar lá ao fundooo, finalmente. E há lá coisa mais bonita? Perguntem a quem já atirou pedras ao mar. Tenho sido um perturbador da ordem e, acredita, muito inspirado por ti, pela tua capacidade em dizer “Não, eu não quero fazer o mesmo que já se fez ou se faz. Eu quero bordar a minha música e a minha vida ao modo que sou.” E eu sou isso, um improvisador, Amália. Sou diferente todos os dias, quer componha uma canção, quer faça um solo ao piano. Nunca nada está terminado para mim e, mais importante que a construção do meu castelo de areia, é a diversão em destruí-lo no final, mesmo que seja pela força do mar ou das minhas mãos, nada melhor que ver a torre cair e o pátio desabar, e pensar, perante o amontoado de areia, vamos lá fazer um castelo diferente desta vez.
Assim te digo: Muito Obrigado Amália, por me inspirares a fazer castelos de areia e a manter-me criança. Que bom! Porque aqui as crianças ainda sabem o teu nome.
Aqui as crianças ainda sabem o teu nome. Aqui, na tua terra, as crianças, ainda sabem o teu nome!
Ninguém te esqueceu, Amália! Espero que continues bem.

Um beijo deste teu amigo, que nunca conheceste,
Júlio Resende.


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