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Ana Laíns: "A indústria da música em Portugal (e no mundo) é feroz e desonesta"

Interviews - Janeiro 30, 2020
No ano em que comemora 20 anos de carreira, Ana Laíns decidiu voltar ao palco onde viu nascer a sua carreira profissional para dar um espetáculo de aniversário com muitas surpresas.

Quisemos saber tudo e conversamos com a artista, não só sobre o concerto, mas também sobre estas duas décadas como cantora.

Ao fim de 20 anos, três discos editados em nome próprio e concertos em centenas de palcos por todo o mundo, Ana Laíns decidiu regressar ao estrado que a viu nascer como artista para dar um espetáculo de aniversário com muitas surpresas.

E porque é uma cantora “muito mais de palco do que de estúdio”, Ana Laíns decidiu aproveitar esta comemoração para abraçar um novo desafio: gravar o concerto com vista a editar o seu primeiro álbum ao vivo.



Celebra 20 anos de carreira este ano. Que balanço faz destas duas décadas?

O saldo é francamente positivo. Com momentos altos e outros baixos, como é natural, mas com grandes objetivos concretizados e algumas surpresas que vieram de ‘brinde’, e fazem valer a pena a efemeridade e todas as incertezas inerentes à carreira de cantora num país como Portugal.

E amanhã vai celebrar esse aniversário com um espetáculo no Casino Estoril. Porque é que este lugar é tão especial para si?

O Casino Estoril foi o meu primeiro palco enquanto profissional. Quando vim para Lisboa com 19 anos, perseguindo o sonho de construir uma carreira profissional, eu não tinha nada! Rigorosamente nenhum contacto! Até ao dia em que me cruzo com o saxofonista José Martins, que tocava na banda do pianista José Cabeleira, e ele me informa que a banda precisava de uma cantora! Eu sabia cantar 10 canções sem me enganar! Foi nessa banda que tive o primeiro contacto com a responsabilidade de me comportar profissionalmente perante a minha ‘Arte’. Celebrar 20 anos neste mesmo local foi um presente que quis oferecer-me, porque sou muito ligada ao simbolismo das experiências, dos lugares, e das pessoas no nosso trajeto. É o encerrar de um ciclo.

Com o que é que os seus fãs vão poder contar neste concerto de aniversário? Quem são os convidados que vão pisar o palco consigo?

Este concerto é, seguramente, um dos mais ambiciosos que já produzi. Quis que ele representasse, de forma transversal, todas as ramificações em que cresci profissionalmente. As pessoas poderão esperar um concerto repleto de “lugares incomuns”, quando comparado aos meus concertos habituais! Quero que a Portugalidade que inspira a minha música e o meu posicionamento no mercado esteja bem patente, e inunde o glamour do Salão Preto e Prata de forma arrebatadora.

Os meus convidados foram escolhidos tendo esta mensagem como ponto de partida. Todos fazem o maior sentido para fazer acontecer esta Portugalidade e esta transversalidade que compõe o meu percurso. O Ivan Lins, o Luís Represas e a Mafalda Arnauth foram convidados do meu último disco e são uma presença essencial por tudo o que já mencionei em termos de multiculturalidade e Portugalidade. Os dois Fernandos Pereira são uma coincidência giríssima. O aclamado imitador é um dos meus mais antigos parceiros e amigos, e aqui sairá por completo da sua zona de conforto. O Outro Fernando é uma espécie de ‘guru espiritual’ que me tem cedido o seu ‘Santuário’ da música tradicional portuguesa – Taverna dos Trovadores – onde tenho tido oportunidade de fazer um importantíssimo trabalho de laboratório na minha abordagem ao cancioneiro e à Língua Portuguesa. É o último trovador de uma geração de cantautores fundamentais da Música Portuguesa.

O Silvestre Fonseca é um guitarrista clássico, meu amigo, meu parceiro de muitas viagens. As Adufeiras de Idanha-a-Nova e o Grupo de Cantares de Évora são a aproximação à Matriz etnográfica da minha Música, e uma presença incomum num palco como o Casino Estoril. São os meus convidados mais ‘fora da Caixa’, mas que me fazem todo o sentido em termos de mensagem.

O concerto será gravado com vista a editar o seu primeiro álbum ao vivo. Como é que se sente ao abraçar este desafio?

Estou muito ansiosa e feliz. O meu lugar é o palco. Sou muito mais cantora de palco do que de estúdio. Gravar ao vivo é algo que queria levar a cabo há já muito tempo, e creio que o momento ideal é este. Celebrar 20 anos de carreira com um concerto que será imortalizado em disco. É uma produção ambiciosa em termos de organização logística, e perigosa em termos de resultado, porque não vamos gravar dois concertos e depois escolher os melhores takes. Neste caso tem de sair bem ao 1º take, e talvez esse seja o fator que mais contribui para a minha ansiedade. Mas sei que chegada a hora nem me vou lembrar desta responsabilidade, e vou simplesmente aproveitar o momento.

E para quando é que está previsto o lançamento?

Ainda em 2020. Provavelmente no 4.º trimestre.

Apesar de já ter conquistado alguns prémios, de ser aclamada tanto em Portugal como no estrangeiro, continua a ter uma carreira bastante discreta. É propositado?

Este é um assunto sensível, mas sobre o qual tenho aprendido a falar abertamente, sem o menor preconceito. Quando me lancei no caminho dos discos e dos concertos, foi necessário fazer algumas escolhas, claro. Mas eu não contava com uma forma de estar tão selvagem em termos de ‘mercado’ em Portugal. Sempre tive grande dificuldade em ceder em alguns aspetos que considero basilares na minha música e na minha forma de ver o mundo e as pessoas. Rapidamente percebi que eu não consigo ‘vestir’ a pele necessária para abraçar o mundo mais mediático e o main stream! A indústria da música em Portugal (e no mundo) é feroz e desonesta, tendendo a fazer-nos afastar do que é realmente o nosso propósito enquanto músicos.

Portanto, foquei-me sempre na minha mensagem enquanto cantora, na missão que quero cumprir enquanto intérprete, e decidi fazer o meu próprio management e agenciamento, até sentir que, um dia, alguém em quem eu possa realmente confiar, possa entrar na minha vida e ajudar-me no cumprimento dos meus objetivos.

A discrição da minha carreira é, mais ou menos, uma condição consciente em que me encontro, e me ‘atrasa’ em alguns aspetos, mas me ‘completa’ em muitos outros que são fundamentais para mim. Felizmente, de forma lenta e discreta, tenho conseguido afirmar-me enquanto cantora, quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Como artista, está muito associada ao fado, mas a sua música vai mais além disso. Contudo, sempre associada à ‘portugalidade’. Como é que esse sentimento surgiu na sua carreira e porque é que, ao contrário de muitos artistas da sua geração, gosta de cantar ‘Portugal’?

Há muito tempo que ser associada apenas ao fado não me serve, e não me completa! Costumo afirmar que o Fado, a par da música tradicional portuguesa, com os seus ritmos, instrumentos associados, e a língua portuguesa, são, em simultâneo, a minha matriz. Aliás, quando surjo em 2006 com o meu 1.º álbum – ‘Sentidos’ – esta afirmação já se fazia sentir, pelo que nunca me fez sentido ser apelidada de fadista. O Fado, enquanto meio ambiente, tem uma personalidade muito absorvente, possessiva, e até castradora! Que eu compreendo, porque há de verdade, um grande aproveitamento de muitos cantores, managers e agentes. Então por isto, libertar-me deste rótulo que eu não escolhi, acabou por ser a minha função e objectivo durante muito tempo.

Adoro Fado, e tenho a firme convicção que é, realmente, uma das formas de expressão mais desafiadoras, ricas, e complexas do mundo. Cheio de códigos e regras que o enriquecem imenso enquanto forma de expressão de um povo. Adoro canta-lo, escuta-lo, e senti-lo, mas não me basta! Sou desde cedo, conscientemente apaixonada pela minha condição de portuguesa, e também desde cedo comecei a envolver-me com grupos etnográficos, com a nossa história enquanto povo, e com a nossa língua. E a minha personalidade enquanto pessoa e cantora, acabou por se desenvolver sempre no sentido de valorizar o Lugar onde nasci.

Acredito nisto sinceramente: Um país não é o mal que dizemos dele. É o bem que lhe fazemos! Somos um grande povo, com um ADN privilegiado, com imensa capacidade. Mas somos, concomitantemente, um povo que se auto destrói! Por isso, enquanto eu acreditar que com a minha música posso ajudar na construção de uma nova imagem de nós próprios, enquanto portugueses, vou ter motivos para cantar!

Qual foi o maior elogio que teve ao longo destes 20 anos?

Numa noite de tertúlia na Taverna dos Trovadores, em Sintra, um senhor com cerca de 90 anos (92 se não me falha a memória), veio ter comigo e disse: “Muito obrigada menina. Vivi 92 anos para a ouvir cantar”. Nada poderá superar este momento, e vou lembrar-me sempre dele enquanto for viva.

E o maior desafio?

Resistir à tentação de desistir. Não é fácil ser-se uma cantora que não cumpre as normas instituídas pelo mercado, e ter sempre a nítida sensação de ter de remar contra a corrente.

E onde se vê daqui a 20 anos?

Não me vejo. Tal como não me via há 20 anos nesta correria para produzir este concerto no Casino Estoril, pelos motivos que me levam a fazê-lo! Mas sei que quero muito continuar a seguir este caminho. Quero ser velhinha um dia, e ter memória! E que as minhas memórias continuem sempre a deixar-me de lágrima no canto do olho, orgulhosa dos meus pequenos feitos.


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