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Manuel João Vieira: "Não sou fadista, não sou coisa nenhuma"

Entrevistas - Outubro 18, 2020
Saiu na semana passada o duplo álbum de fados humorísticos de Manuel J Vieira, "Anatomia do Fado".

O mítico comandante dos Ena Pá 2000 e dos Irmãos Catita é um respigador recreativo, que recupera memórias de uma velha Lisboa e de si próprio, aproveitando, neste caso, a sua experiência de fadunchos com o projeto Lello Perdido.

Se ainda houvesse nas casas de fados aqueles intervalos humorísticos ao fado dramático, Manuel J Vieira teria a sua oportunidade. Como já não existem, o músico dá-lhe nova vida ao seu estilo muito particular, sem lenço ao pescoço e com a devida distância.

Manuel J Vieira continua a brincar com coisas sérias. E a brincar, a brincar, faz coisas sérias. E pode não parecer, mas também as diz, como nesta entrevista.

Estou a falar com o fadista Manuel J. Vieira, a sua personagem?
Pá, não desenvolvi nenhum nome associado a esse aspeto, mas que tem um projeto que é o Lello Perdido que é um campo onde me debruço sobre algumas possibilidades do fado humorístico, nalgumas extensões dos anos 50, como o Joaquim Cordeiro. Este projeto começou sobretudo com o fado humorístico e com algumas versões do fado que não sendo humorístico, tinha letras tão antigas que a alteração de valores implica que essa distância temporal dê a sensação de serem demasiado infantis. Mas algumas letras têm uma carga muito forte. Como é o caso da 'Abnegação', que é um conto, em que alguém cuja filha morre a bordo de um navio e que não quer enterrar e a atira para o mar. A seguir, há um senhor que se atira da proa do navio para a salvar. "Depois disso, salve a minha filha que aqui a tem, que a minha já não precisa de companhia". É essa a distância do que é hoje a conceção da letra de uma canção.

Ajeita-se com um lenço ao pescoço na pele de fadista? Ou nem por isso?
Não preciso, acho que tenho um pescoço médio. Tenho feito este trabalho há já algum tempo. A minha forma de me defender pelo facto de não ser fadista, ou, noutros casos, de não ser cançonetista, ou de não ser rock & roller, é usar o humor e a ironia. A partir do momento que tenho esta defesa, acho que tudo é possível. É isso que possibilita abarcar todos estes terrenos, se não teria vergonha. É um caso de não ter vergonha de ser parvo.



Bebe muito e diz muitas ordinarices, este fadista Manuel J. Vieira?
Digamos que bebe pouco, com moderação. Mas bebe com moderação duas vezes. O vinho é que educa e o fado é que instrói. Acho que isso é uma máxima importante que está presente neste disco. Há algumas músicas que ainda consegui fazer. Mas tive que beber ainda mais uma garrafa de tinto para ainda ficar pior. É complicado o fado em estúdio. Mas eu não sou fadista. Não sou coisa nenhuma. Sou uma não-identidade. Mas tenho gosto em cantar fados e de os recuperar. Em miúdo, na altura do 25 de Abril, eu preferia as músicas de intervenção, do José Afonso e do José Mário Branco. Na altura, o fado era associado ao Antigo Regime e a canções de dor de corno e a um tipo de tragédia mórbida que não nos interessava. Portanto, não foi feita justiça ao fado. Nas raízes, temos um fado anarquista. Há raízes operárias no fado, além dos bordéis. Havia fados anarquistas e comunistas por altura do fim da monarquia. O fado tem muitas facetas e eu interessei-me pelo fado humorístico que intervalava os fados sérios e trágicos. Este era um fado que não era sério e que era para desanuviar mas que deixou de ser usado nas casas de fado. Existiam fados pornográficos com letras tão terríveis que eu corava a cantar. Comecei a cantar fados com os Irmãos Catita no Cinearte, antes dos Lello Perdido, como o 'Fado da Trincheira', os 'Preguiçosos' do Joaquim Cordeiro, etc.
Neste disco também tenho alguns originais que resolvi pôr à última da hora. Eram canções que estavam reservadas para um álbum de amor, que é uma coisa que eu não tenho jeito nenhum e ainda não sei bem como hei de fazer. Como eram fados, acabei por pô-los neste disco.
Tenho imenso respeito pelo fado vadio, acho que o fado popular é uma música com imensa dignidade, a par de outras canções populares do país que infelizmente não são património mundial. A música popular portuguesa é um tesouro riquíssimo onde os músicos deviam pegar. Portugal está a desportugalizar-se. Não quero ser uma espécie de Chega cultural ou de brigada cultural revolucionária mas acho que devíamos prestar atenção às coisas que são nossas.

O Manuel J. Vieira é um recriador da velha boémia de Lisboa?
Sou um requeijão da velha boémia.

Está ligado a Campo Ourique, um bairro que tem sido desaportuguesado e que tem perdido as suas famosas tascas. Preocupa-o este afrancesamento, em que o gourmet está a substituir o tremoço?
Preocupa-me mais a questão da arquitetura e da demolição dos prédios característicos e que têm alguma dignidade, algum sentido das proporções e alguma tipicidade e que estão a ser substituídos por coisas amorfas de cimento de muito mau gosto. Fiz um trabalho de recolha para as Belas Artes sobre arquitetura interior e de equipamentos de cafés que vinham dos anos 70, antes de serem transformados nos anos 80 por monstros de alumínio e, já nessa altura, havia uma adulteração do nosso património visual. Não me chateia tanto a questão que tanto atormenta os portugueses da comida da mãezinha. Cada um come aquilo que gosta.

Tendo em conta fados como o 'Ser Milionário' ou 'Ser Fascista', posso presumir que o Manuel J Vieira é um fadista de intervenção?
Acho que existe um lado de intervenção, mais ligado a esse fado anarquista. O 'Ser Milionário' é uma crítica interessante e uma constatação, como aquele milionário que havia nos filmes do Charlot. É um milionário dos anos 50 que ia ao Tavares [Rico, restaurante tido em tempos como o mais caro de Lisboa]. Há coisas que são eternas. O Ser Fascista era um tema do [Artur] Gonçalves, que fez o 'Vira da Minha Terra', que é um corridinho. Acho que temos que fazer justiça a esses artistas. Há uma letra que considero um paradigma neste disco que é o 'Sem Pés Nem Cabeça' e que é ainda mais revolucionário porque subverte totalmente a lógica de uma letra de fado ou mesmo de uma letra de uma canção. A nível internacional, mundial e planetário, não conheço nenhuma letra assim.

Porque pôs de fora do disco os fados pornográficos? Teve medo da polícia da moral?
Nos meus discos, ponho a pornografia à vontade, com os sexos pendurados, tudo isso está escarrapachado nas capas dos discos dos Ena Pá 2000. Resolvi fazer uma pequena pausa e concentrar-me noutras coisas. Eu queria fazer um álbum para a família. De fora deste disco ficaram dois fados: um que é acerca de matar criancinhas, que era demasiado forte dentro desse ponto de vista, e outro que é o 'Fado da Velhinha', acerca de um senhor que frequenta casas de prostituição e que, neste caso, é aliciado por uma mulher muito mais velha para ter sexo oral. Mas depois revela-se o final da história, que toda a gente vai gostar de certeza.

A pintura da capa e as ilustrações são do Sanita Pintor?
O Sanita Pintor faz parte de um episódio de uma exposição de 1990, "Os Ases da Paleta". As ilustrações são minhas, do Manuel Vieira, sem o João, e são de uma exposição no Museu do Fado, em 2017, salvo erro. São desenhos que têm como tema o fado e que incluem letras que são temas de fado. Está mais do que ajustado. A capa é do meu pai (João Vieira), chamada "Pai Vadio", onde as célebres figuras da pintura do José Malhoa do "Fado", estão nuas. Daí o título, "Anatomia do Fado".

O Manuel J. Vieira é um amaliano?
A Amália tinha uma voz soberba e incomparável. Gosto muito de algumas orquestrações para músicas populares. Há muitas coisas que gosto na Amália, mas não sou um amaliano porque não sou obcecado com a Amália em particular.

Vêm aí as Presidenciais. O que é feito do Candidato Vieira?
O Candidato Vieira está calmamente à espera que os cidadãos e cidadãs se organizem para tratarem das assinaturas para que eu possa ser candidato. O Candidato Vieira é um indivíduo isolado, que não tem secretariado e que, portanto, tem algumas dificuldades, dado ter que viver do trabalho, sem pertencer a nenhum partido nem fazer parte de nenhuma Junta de Freguesia. O Candidato Vieira tem alguns trabalhos que tem que fazer infelizmente e que nem sequer tem fins-de-semana. Portanto, precisava de um secretariado, que arranjasse as assinaturas para que eu pudesse formalizar a sua candidatura. Infelizmente, os cidadãos ainda não se manifestaram nesse sentido. O Candidato continua a aguardar e sempre pronto ao menor sinal de possibilidade de se dedicar de alma e coração a esse grande projeto que é salvar Portugal e o mundo.

Portanto, ainda vai a tempo de se candidatar?
Infelizmente, o secretariado ainda não me telefonou para me dizer que tem aqui as minhas 7500 assinaturas. Entretanto, tenho esse pequeno problema técnico. É apenas esse problema técnico de não haver assinaturas que me separa da concorrência às eleições. Já agora, estou aberto a qualquer partido, desde o Chega ao [PCTP] MRPP, passando pelo Bloco Central, pelo Partido Comunista e outros, para defender qualquer ideologia por aquele que pague melhor. Alargo aos clubes de futebol, claro, e também a eleições internacionais como na Bolívia, Chile ou, sei lá, Estados Unidos.

Pensei que esse Candidato Vieira estivesse ocupado em defender o burro mirandês.
Já pensei no lince da Malcata e nos dinossauros. Há muitos animais em Portugal que merecem ser salvos além do [burro] mirandês. E há também muitas línguas regionais além do mirandês. Há o basco da Cova de Iria, que é um idioma basco que sobreviveu numa pequena aldeia mesmo, mesmo no centro da Cova. Tenho um conhecimento de coisas que mais ninguém tem. Seria uma boa aposta que cada português se organizasse para participar no meu secretariado, que vai ter dinheiro chorudo da corrupção que, garanto, os portugueses poderão ganhar. Vou fazer também o Instituto Superior da Corrupção, exatamente em Vila de Rei, no centro de Portugal. Portanto, estão todos convidados. Já sabem, se eu ganhar, ganhamos todos. A cada português um Ferrari e um burro mirandês. O burro mirandês não consome praticamente gasolina nenhuma e não polui o ambiente. E ainda estruma os campos. Quer dizer, é só vantagens. E é um bom companheiro, sempre disponível para ouvir.

E é peludo e bonito.
Para quem gosta de pêlos, não é? Há hoje depilação brasileira para burros. Mas agora não vou falar de fétiches.

Não se confunde com tantos personagens? Deve ser uma estafa, não?
Os personagens são úteis como uma espécie de preservativo que utilizo quando mergulho em público. Todos nós temos máscaras. Normalmente, aperfeiçoamos mais uma delas. Mas no mundo da fantasia e da ficção, ou no mundo da arte, podemos permitir-nos às máscaras que quisermos. Só acho que desenvolvi pouco essas máscaras. Não há comparação com outros personagens excecionais, como na literatura. Eu acho que isto é só uma graçola.


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