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Katia Guerreiro: "O José Mário trouxe-me um universo novo..."

Entrevistas - Dezembro 17, 2022
Novo álbum "Mistura" é uma despedida ao seu guru. Ao mesmo tempo, o disco é um recomeço.

"Mistura" é também como uma viagem biográfica, com as mãos produtoras de três dos homens da sua vida musical: José Mário Branco, Pedro de Castro e Tiago Bettencourt.

“Mistura” é como uma prova de estafeta cujo testemunho começa nas mãos de José Mário Branco e passa para outras?

Isso é uma boa analogia (risos). Seguramente que sim. É uma passagem de testemunho, com a marca muito importante do José Mário Branco na nossa forma de trabalhar, de forma muito depurada e com certos cuidados que se não tivesse trabalhado com ele, não sei se teria tido. Sinto sempre a estrelinha do José Mário a brilhar na minha cabeça e, como eu, o Pedro de Castro, que havia trabalhado com ele de uma forma muito intensa e condensada. Depois disso, começou a fazer trabalho de produção. Acho que bebeu muito dessa fonte, o que é bonito. Ele era capaz de trabalhar em várias áreas musicais. Acho que passou o testemunho, como se diz no atletismo. Passou-se o testemunho de uma forma muito interessante. Neste disco, tenho também a participação do Tiago Bettencourt, com quem eu tinha trabalhado em 2014 [no álbum "Até Ao Fim"], mas que ele próprio, desde que lhe fiz o convite, me dizia: "mas porque é que não vais ter com o José Mário?". Havia sempre aquele farol que era a produção do José Mário Branco.

A participação de Tiago Bettencourt é descrita na ortodoxia como “especial”, mas imagino que seja mesmo muito especial.

É extremamente especial. O que quis neste álbum foi reunir os meus três pilares fundamentais dos últimos oito anos, desde que comecei a ter um produtor musical. O primeiro foi o Tiago Bettencourt. Até lá, andei a trabalhar com a prata da casa. Sempre fomos muito autodidatas. A determinada altura, senti necessidade de ter um olhar externo sobre aquilo que faço, que ajudasse a recolocar-me. Depois de ter perdido a presença do José Mário, entendi que seria uma boa ideia ir buscar estes pilares. Tenho os três produtores de mãos dadas neste disco: dois temas ['Xaile Negro' e 'Tempo de Viver'] que tinham ficado de fora do último álbum, completamente misturados e masterizados. Estavam gravadíssimos e feitos e foram retirados no momento final antes de serem enviados para a fábrica, porque entendemos que o álbum estava longo. Eu própria achei que estes temas estavam a perder destaque, por ser um álbum tão longo e porque, junto de outros, perdiam o seu brilho. O José Mário concordou e íamos pegar nesses dois temas para arrancarmos para o álbum seguinte. Estava tudo encaminhado nesse sentido. Depois, o Pedro de Castro e o Tiago Bettencourt tiveram cada um a sua identidade. Não houve aqui uma tentativa de harmonizar e de fazer equilíbrios. Cada um é o que é, tem a sua forma de ver, de ouvir e de trabalhar comigo. Mas há denominadores comuns aqui, claramente.

Disseste há pouco que passaste a ter certos cuidados desde que começaste a trabalhar com o José Mário Branco. Que cuidados são esses?

A palavra para mim sempre foi muito importante. Mas fazer a reflexão antes de a interpretar em estúdio foi uma coisa que nunca tinha feito da forma como o fiz. Claro que refletia muito e tentava absorver ao máximo os poemas que ia cantar. Mas o José Mário trouxe-me um universo novo, para me ouvir a dizer os poemas, para que as palavras sejam cantadas como se fossem ditas. Sou tida como uma intérprete com muito boa dicção e portanto a mensagem chega às pessoas. Mas a forma como a dizemos tem que ser muito respeitada. Apesar das frases musicadas não serem exatamente iguais, há uma forma de contornarmos isso para que a palavra seja cantada do mesmo modo em que é dita. Isso é muito bonito. A importância do fecho das vogais é uma forma completamente diferente de trabalhar a palavra. Acabávamos frase a frase a ir buscar o sentido mais profundo que as frases tinham, para que, quando fosse para estúdio, eu já estivesse muito amadurecida no poema. Acontece muitas vezes estarmos a interpretar em disco e as coisas ganharem uma outra forma em palco. Quando vamos para palco, já têm uma densidade extraordinária.

Imagino que a "Mistura" tenha a ver com as várias mãos que o disco teve. Mas há também uma grande mistura de tópicos.

O título do álbum vem de um fado que tem exatamente o mesmo nome, da autoria da minha querida amiga Maria Luísa Baptista, que fala da mistura de almas que tenho e que são minhas. Todos nós as temos. Mas, ao mesmo tempo, acaba por ter um sentido para o todo da obra, que é a mistura de almas, que giram à minha volta, e que são intervenientes deste álbum. Só havia uma pessoa dos compositores e letristas deste álbum com quem eu não tinha relação nenhuma: o Sr. Feliciano da Silva, com 92 anos de idade. 

O Sr. Feliciano da Silva [letrista de Santo António da Aldeia] foi apanhado de surpresa? Como é que reagiu à canção?


Foi completamente apanhado de surpresa. Não estava nada à espera. E o neto foi surpreendê-lo na véspera de lançarmos o primeiro single. Eu estava muito preocupada com a reação ia ter. Aos 92 anos, ver pela primeira vez um poema seu cantado, imagino que seja uma emoção muito forte. O neto do Sr. Feliciano da Silva teve o cuidado de filmar a reação dele. Foi tão bonito ver o ar dele deliciado e a dizer: “estou encantado”. Neste disco fazemos homenagem a pessoas que já cá não estão, como o José Mário Branco, a Maria Luísa Baptista, o Carlos Mendonça. E depois homenageamos este senhor, que já editou quatro livros em edições de autor, em Oliveira do Hospital, com o apoio da Câmara Municipal. E,de repente, vê a sua obra a ganhar um destaque extraordinário. Começou a ser uma estrela em Oliveira do Hospital, agora vai ao dentista ou ao supermecado e começam a passar a música. É tão bom presentear as pessoas com estas coisas.

Voltas a usar letras da Maria Luísa Baptista.

A Maria Luísa era a minha segunda mãe e deixou-nos em 2016. Mas continua viva nas suas palavras, naquilo que deixa. Aliás, o poema do 'Tempo de Viver' da Manuela de Freitas que fecha o disco, [termina com o verso], "de mim só o que dei é que ficou". No fundo, estas pessoas que já cá não estão, deixaram-me muito. Continuam vivas. Hei de mantê-las vivas tanto quanto possa.

Já conheces há muitos anos o Rui Veloso. Isso deu confiança especial para arriscares ter a guitarra elétrica na tua música, com os seus múltiplos efeitos [no tema-título 'Mistura']?

Sem dúvida. O Rui já me conhecia quando eu ainda não tinha disco gravado. Eu já conhecia o Rui por causa dos Charruas e da relação que tinha com a Maria Luísa Baptista e com o João Baptista. A Maria Luísa e o Rui tinham um carinho muito grande um pelo outro. Já o conheço há 22 ou 23 anos. O Rui andava com os meus filhos ao colo. Somos mesmo muito amigos. Já cantei com ele, já fizemos espetáculos juntos. Gravámos juntos, tenho um espetáculo com ele. Estávamos a acabar o trabalho de produção deste tema e o que aconteceu foi que no final, o ambiente trouxe a intuição que eu manifestei de imediato com o Pedro de Castro. Quase que dissemos ao mesmo tempo: "isto merecia uma guitarrinha do Rui Veloso". Nós até tratamo-lo por Gaudêncio. E até dissemos: "isto merecia uma guitarrinha do Gaudêncio". Era o ambiente que estava criado que convidava muito que o Rui estivesse aqui. Ele surpreendeu-me ainda mais com a sua participação. Eu estava à espera de uma coisa e, quando em estúdio, ficámos deliciados com aquilo que ele criou. Foi lindíssimo.

Há aqui um encontro com a Rita Redshoes [autora e compositora do fado 'Espelho Teu'].

É a primeira participação dela. Gosto muito de coisas novas. Encontrámo-nos na vida há relativamente pouco tempo, há cerca de dois anos. Ficámos de imediato muito cúmplices, fazendo concertos juntas. Há um dia, nos bastidores de um espetáculo, olhei para ela e sussurrei-lhe ao ouvido: "queres fazer uma canção para mim e para o meu novo disco?". E ela ficou muito comovida. É uma pessoa muito doce. Eu admiro muito a Rita, porque é uma muito corajosa, trabalhadora e talentosa. É muito observadora. E depois, criámos esta afinidade de quase irmãs. E convidei a Rita para fazer parte desta mistura toda. 

Tu escreves dedicatórias à margem de cada letra de canção. Isto parece-me muito ternurento. Estas dedicatórias valorizam o áudio-livro.

Este é um livro com música. Não é um livro com poemas, é um livro com música. Todas essas palavras já têm um som. Quem tiver o livro na mão e ativar o QR code, pode ir folheando e ir descobrindo os sons das palavras. Pode ter o livro na mão e ir cantando, mesmo que seja à sua maneira. Isto passa a ser um objeto de quem o tiver, além de que é um livro que não está acabado. É um livro que começa por mim mas que é terminado por quem o recebe, na medida em que pode escrever o que entender nas páginas em branco: as suas emoções, as suas reflexões. Até pode usá-lo como objeto de trabalho. Quando for trabalhar, vai estar acompanhado de música e de poesia, e de fotografias e de reflexões. Ainda por cima, está um objeto muito bonito. 

Essa ideia das dedicatórias a um canto é tua? Isto dá um carga pessoal muito grande.

No fundo, acabo por me expor muito neste livro. Não são só os poemas que me chegaram às mãos e interpreto, são as reflexões que expõem a minha alma e o que sou.



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