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Origem e estrutura do Fado

Tudo isto é Fado - Setembro 14, 2021


"O barão de Lahontan, que esteve em Lisboa no século XVII, diz que alta noite vagueavam guitarristas pelas ruas tocando umas árias fúnebres como o De Profundis" - refere Alberto Pimentel (16). E Pinto de Carvalho (17) opina que "as canções populares lusitanas apresentam um carácter lamentoso e amoroso, o que já foi notado por Link, um alemão ilustre que viajou entre nós nos fins do século XVIII". Não é bem assim.


Nem todas as nossas canções populares apresentam "um carácter lamentoso". Algumas são mesmo alegres. Mas foi, sem dúvida, obedecendo a um pendor específico da nossa raça que o fado, na linha das cantigas de amigo e de amor, e do romance, assimilou uma certa carga sentimental e dramática, que pesa no temperamento português.

O Prof. Gonçalo Sampaio, no seu trabalho As Origens do Fado (18), explica-as assim:
"Os numerosos cantos de S. João que se encontram no nosso país, desde norte a sul, são simples modificações de um canto primitivo, que ainda vive e que vem reproduzido, com insignificantes alterações, em muitas das corais do Minho. Esse canto, cuja origem se prende com as antiquíssimas festas pagãs do Sol, realizadas em Braga, e transformadas pelo cristianismo em festas joaninas, tem uma importância fundamental na música popular portuguesa, pois não só se encontra em muitas dessas corais, como disse, mas também dele derivam outras, assim como um não pequeno número de monodias.

"Entre estas destacam-se particularmente os fados, de que existem muitas variedades, algumas já bem afastadas do seu tipo original e característico, nascidos nas vielas da capital, talvez após a lei que, em 1761, aboliu a escravatura no continente do País.


"Sabe-se com efeito que uma parte dos pretos libertos por este diploma se entregou à vadiagem, aos vícios e ao roubo, pejando sobretudo o bairro de Alfama, onde vivia de mistura com as mulheres de má nota, promovendo desordens e cantando uma canção langorosa a que chamavam fado. Foi esta a génese do fadista e, provavelmente, a do seu canto triste, fatalista e decadente.


"Ora, comparando as respectivas músicas, resulta que o fado não passa, afinal, de uma leve modificação, quase meramente rítmica, do S. João, que o fadista adulterou ao prolongar muito naturalmente a primeira nota radical, para dar à canção o expressivo do lamento pela fatalidade do seu destino. Alterada assim a primeira fracção rítmica da frase, o princípio da simetria e da proporção, universalmente imposto pelo ouvido, determinou o resto que quase nada é; e assim apareceu uma canção de ritmo especial e, portanto, de aparência inteiramente diversa daquela que lhe deu origem".


É uma interpretação. No entanto, se o relacionamento do fado com os cantos de S. João não suscita grandes objecções, dado que aquele, no dizer de Rodney Gallop, não passará de uma "síntese, estilizada por séculos de lenta evolução, de todas as influências musicais que afectaram o povo de Lisboa", já o mesmo não sucede com a hipótese de a "canção langorosa" dos pretos libertados, de Alfama, ter sido a génese do fado. Esses pretos, pelo facto de terem sido libertados, deveriam antes cantar canções alegres, mas se cantavam a tal "canção langorosa", ela não poderia ser senão de raiz diferente, por óbvias razões de ordem cultural, do seu temperamento indolente e de influências ancestrais da raça.



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