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Sara Correia: “O Fado cabe em vários géneros musicais”

Notícias - Março 01, 2024
“Não sou de mais lado nenhum, sou de Chelas“. As palavras são do primeiro single de Liberdade, o mais recente disco de Sara Correia.

Curiosamente, enquanto conversamos, estamos a pouco mais de um quilómetro do icónico e muitas vezes incompreendido bairro que a viu crescer, mas a distância encurta-se ainda mais ao longo da nossa conversa. As suas origens são um dos motes de Liberdade e algo que Sara carrega em tudo o que faz.

Falar com Sara Correia é fácil; a nossa conversa flui com leveza. Ocasionalmente, apresenta uma resistência pragmática, particularmente quando falamos de Chelas. No entanto, na maioria das vezes é de trato doce e sorriso aberto, particularmente quando conversamos sobre a sua relação com o público ou sobre a sua grande paixão: o Fado.

“O Fado é a minha matriz. Não sou a Sara sem o Fado, nem o Fado o é sem a Sara“, conta-nos, sem uma ponta de soberba. Mesmo tendo apenas três discos editados até hoje, a sua marca no Fado é já indelével. Desde os 9 anos que o canta, apesar de sempre ter feito parte da sua vida, tanto que o trata como se fosse família. Conviveu com ele em casas de Fado, onde cantava “7 dias por semana, durante 15 anos“. “Tinha que me virar“, diz-nos com a resignação e experiência de quem, apesar do trabalho árduo, corre por gosto.

Ao discutirmos a forma como a música, em particular o Fado, a tem moldado, Sara refere que fez com que crescesse demasiado rapidamente. “Hoje em dia nota-se muito mais variedade de idades, mas antigamente eram pessoas já com mais idade. Isso trouxe-me essa carga do Fado, de ouvir certas conversas que não eram para a minha idade. Aprendes mais rápido“, conta-nos entre risos. “Passei por etapas da minha vida que devia ter vivido e não vivi“. Apesar disso, não se sente triste nem arrependida. “Cantar é o meu sítio”, afirma orgulhosamente, e tudo o que aprendeu com os fadistas de diferentes gerações fortaleceu a sua pessoa.

Quando lhe pergunto se acha que o Fado ainda representa verdadeiramente Portugal, a resposta é um categórico e contundente “sempre”. Como uma verdadeira embaixatriz, afirma que é o “cartão de visita” do nosso país: “só existe aqui“. O conselho que dá a qualquer pessoa, mesmo que à partida pense que não se identifica com o Fado, é o de ir a uma casa de fados pelo menos uma vez. “Ninguém sai de lá indiferente. A não ser que não tenha coração.”

Quando lhe perguntamos o que significa para ela ser uma auto-proclamada “fadista do povo“, a sua postura enrijece-se. “As pessoas têm muita tendência de achar que, por sermos do bairro, somos menos do que os outros, temos menos oportunidades ou não sabemos comunicar“, algo que Sara desmente completamente. Por isso mesmo, exacerba a sua ligação ao bairro, pois ser fadista do povo é nada mais nada menos que não ter medo de se associar à sua realidade. “Gosto muito de ver os miúdos [do bairro] a cantar a “Chelas”, isso dá uma esperança de que tudo é possível e que não temos de ter vergonha de onde vimos.“

A pop de “Chelas” pode parecer um elemento ‘estranho’ no meio de Liberdade, um álbum assumidamente fadista, mas a dramática voz de Sara, esculpida pelo Fado, encaixa que nem uma luva na canção. “Acho que o Fado cabe em vários géneros musicais, e só agora é que as pessoas estão a perceber que não há mal nenhum nisso“. Nos seus trabalhos, a artista vai namoricando aqui e ali com outros géneros musicais, mas ainda não se vê a fazer um trabalho inteiro de mistura de estilos. “Primeiro quero montar os meus alicerces e mostrar do que é que sou feita“. Apesar de toda a confiança que vai transmitindo no seu discurso, tem a modéstia de reconhecer quando não se sente preparada para algo. “Ainda tenho de caminhar para isso“, ri-se.

É também por isso que não escreve música para si mesma. “Tenho um respeito enorme à língua portuguesa. Considero tanto os poetas e quem escreve bem, que não se pode escrever só porque sim. Vejo a escrita e a composição de uma maneira muito mais séria.” No entanto, isso não significa que não controle o processo criativo por detrás dos seus discos. Aliás, Liberdade foi o disco que lhe trouxe a maior liberdade criativa que alguma vez teve. Mas esse é apenas um dos significados por detrás do nome do disco.

A ideia musical de Liberdade partiu de si, tendo-a desenvolvido posteriormente com a ajuda de Diogo Clemente, o músico e colaborador que está consigo desde o início da sua carreira, e dos diversos colaboradores que escreveram e compuseram cantigas para o álbum. Entre o rol de músicos, encontramos Carminho, Carolina Deslandes, Joana Espadinha, Pedro Abrunhosa e Tiago Bettencourt, pessoas escolhidas por Sara pela admiração e carinho que nutre por elas. “Tudo aquilo que cantei neste álbum são coisas feitas para mim, as pessoas conhecem-me e sabem o que podem escrever“.

Para alguém tão habituada a cantar em casas de Fado, onde a proximidade do público é mais do que meramente metafórica, levar essa intimidade para grandes concertos pode ser um desafio. “Na casa de fados, cantamos ao ouvido das pessoas. No concerto é como se estivesses a cantar para o céu.” No entanto, uma longa jornada de concertos no estrangeiro redobraram a sua certeza na sua arte, mesmo com a barreira linguística. “Algumas pessoas disseram-me que nunca tinham sentido aquelas emoções. É por isso que o Fado é tão mágico e místico. Adoro cantar para pessoas que nunca ouviram Fado.“

Dificilmente encontraremos alguém que nunca tenha ouvido Fado nos próximos concertos que a fadista dará nos Coliseus — dias 9, 10 e 11 de Março em Lisboa, e dia 22 do mesmo mês no Porto. Sobre esses concertos, Sara mantém a surpresa e a expectativa. “Para ser especial, tenho de ter as pessoas comigo“.


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