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Arquivo - Fevereiro 16, 2008
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Conversa com vista para a história do fado

| Como é, usando as palavras do musicólogo Rui Vieira Nery, ter cem anos de fado - os seus, aos quais soma os da sua mãe, Lucília do Carmo? Como é conviver com uma herança assim?


Carlos do Carmo | Diria que é uma herança responsável, que me tem permitido reflectir bastante sobre este enigma chamado fado. Tenho feito ao longo de todos estes anos o meu pequeno tratado sociológico individual, possível graças ao contacto com as pessoas e tenho compilado os quês e os porquês, e acho isso interessantíssimo porque reflicto vindo de longe - de um tempo em que o que me foi narrado era apenas o esboço do início do profissionalismo do fado, ou seja, a transição da tertúlia amadora para o profissionalismo. E vivendo isto tudo, juntamente com as transformações da sociedade, esse século de fado é para mim um motivo de orgulho - passe a imodéstia.

A sua mãe, Lucília do Carmo, profissionalizou-se em que altura?

Muito cedo, entre os 17 e os 18 anos, por necessidade absoluta de ganhar a vida - vida difícil, tempos difíceis e complexos. Isso nunca me foi escondido pelos meus pais, embora eu nunca tenha sido atacado por essas dificuldades, porque me protegiam, mas eles sentiram-nas realmente.

Como era esse fado já remoto, que também conheceu, durante o antigo regime?

O meu pai foi um homem que ao conhecer a minha mãe alterou radicalmente a sua vida. Ele era livreiro, e apaixonou-se pela miúda, que tinha bastante menos idade do que ele, e tornou-se empresário de fado, mas naturalmente com toda a bagagem que trazia, uma bagagem cultural diferente do ambiente do fado à época. Era um homem dialogante, conhecedor, e muito sensível, que tinha, por exemplo, feito teatro amador quando era jovem. Tinha uma grande preocupação com a dicção, e ensinava a minha mãe a dividir os versos. Eu lembro-me de estar em casa e de ouvi-lo a ensinar a minha mãe a dividir verso a verso. Mas, nessa época, a preocupação central era contar a história. O fado teve uma fase, longa, em que o grupo de versos era extenso, podia demorar-se sete ou oito minutos a contar uma história em fado. O advento do disco é que o traz para os três minutos e obriga a um poder de síntese por parte do poeta, que passa a contar a história em três, no máximo quatro sextilhas. Ou em cinco quadras, seis, no máximo. Essa necessidade de síntese levou a que a história tivesse de ser muito clara, da primeira à última quadra ou quintilha, isto falando do fado tradicional, que é o que assenta nestes parâmetros. Estamos a falar, por exemplo, de cinco quadras que têm uma só música, e se a pessoa fica a repetir aquela música, torna-se monótono, e isso implicava um exercício contínuo de alteração de estilo, e entre esse estilo (que tinha uma função criativa quase jazzística) e o contar da história, tinha de ficar um talento. Eu cresci a ouvir pequenas críticas, coisas que eram ditas em surdina, e que representavam o lado danoso, diria, da censura. Havia uma certa rebeldia, que não se queria ajustar à ideia de que não se podia cantar com alguma liberdade criativa. E o facto de haver o lápis azul, e de cada fado passar por uma censura, provocava desagrado entre os mais velhos, e rumores, coisas ditas à boca pequena...

... que diziam, por exemplo, o quê?

«Não se pode dizer o que se quer», «não se pode dizer o que se pensa». Recordo o velho Alfredo Marceneiro a fazer referência a nomes que eu vim de novo a descobrir agora neste levantamento que está a ser feito para a candidatura do fado a património mundial da Humanidade - nomes que foram quase anulados, ou mesmo silenciados pela ditadura, e que contudo foram importantes na história do fado. Porque tiveram outra visão estética, e levaram-no para outros terrenos, como o das letras, que revelavam preocupações sociais.

Preocupações que não as do fado tradicional...

Uma outra pessoa que me deu uma noção do fado do início do século XX foi o meu velho amigo Frederico de Brito, um homem que compôs para mim as "Canoas do Tejo" e outros fados populares, e que era, como o Marceneiro, um sábio. Era letrista e músico. Há músicas dele muito populares, que as pessoas cantam e nem sonham que são dele. Ele tinha sido chauffeur de praça, e era chamado «o poeta- -chauffeur». Era um homem muito interessante, um autodidacta com muito talento. Uma coisa que me fascinava nesses homens era que cada um tinha um ponto de vista, uma forma de analisar o fado, de o sentir, de o pensar, de o conceber e de o interpretar. E essa diversidade criou a tal idade de ouro - isto parece uma contradição, mas o fado acabou por ter a sua idade de ouro dentro do regime. Porquê? Porque tinha aquele grupo de homens, que cantavam ao despique, que criavam estilos, e ao fazerem-no faziam músicas, e essas músicas (que têm normalmente os nomes deles, ou então os que eles colocavam por qualquer circunstância àquelas melodias) são as do fado tradicional, que todos cantamos.

Quando foi essa idade de ouro do fado?

Estamos a falar dos anos 20, 30 e 40, anos de grande criatividade. Havia uma grande figura que era o Armandinho, o guitarrista, que transpunha aquilo para música. Tudo isto são narrativas do Marceneiro. Surgem depois as mulheres grandes intérpretes, não tão criativas do ponto de vista da composição, mas grandes intérpretes. Falamos de um tempo em que cada fadista se demarcava completamente do outro, cada qual tinha um caminho, um estilo, e o público tinha uma diversidade imensa para escolher. As pessoas elaboravam listas para mim, este é o primeiro, e aqueles o segundo, o terceiro, o quarto... mas ia-se por ali abaixo sempre em grande nível, do primeiro ao último, em homens ou mulheres o nível era sempre elevado. E, no entanto, ouvir um, não era ouvir outro. Cada um tinha o seu estilo, a sua estética, a sua forma de cantar, a sua voz e, claro, o seu repertório. A minha geração recebe isto com o peso da responsabilidade.

Há uma característica no fado que considero curiosa e que é o facto de o fado existir numa espécie de universo auto-referenciado, de que são porventura exemplo os nomes dos fados.

Se o Pedro Rodrigues tinha uma melodia nova, criada por ele, era inevitável chamar-se Pedro Rodrigues (risos). Ou a Marcha do Alfredo, que é uma música do Marceneiro. Há depois outros casos, como o d'O bailado, que é uma música que é mais conhecida através da "Estranha forma de vida". Diz-se a um guitarrista «Olhe, por favor, quero cantar o Alexandrino», e o guitarrista pergunta: «Do Marceneiro ou do Joaquim Campos?» Porquê? Porque eram formas distintas de estilar esse fado alexandrino, esse tipo especial de verso. Creio que esta auto-referência correspondia apenas à necessidade de nomear as coisas.

Concorda ou não que o fado tem uma faceta de coisa fechada, onde apenas se é aceite e se pode singrar se se fizer um determinado percurso, com determinadas provações?

Uma das coisas por que me bato é para que não se guarde essa ideia de que isto é só para iluminados. O fado é cultura popular, mas devemos estar informados sobre ela, até para formarmos o nosso gosto e a nossa opinião. Em cada dez pessoas com quem falo sobre fado, nove dizem-me que não percebem nada de fado, que só sabem ouvir, que gostam ou não, e não saímos disto. A passagem da tradição oral tem estado a ser mal feita, e essa tem sido uma das preocupações que me tem ligado a trabalhos de equipa, para ver se conseguimos que o fado não seja um ilustre segredo de cozinha, que não se passa a ninguém. O fado começa por requerer um dom, algo que a natureza dá às pessoas.

A que corresponde esse dom?

Corresponde a uma forma diferente de cantar. Cantar o fado é vestir uma pele de qualquer coisa que, embora sendo música popular, não é bem uma canção. É outra coisa ainda, que tem outra forma de pulsar, e de dizer o verso, é mais intenso, e a verdade é que estes mistérios permanecem misteriosos até para mim. O fado porquê? Porque eu descubro isso em mim, na minha cabeça, na minha maneira de sentir e de cantar. Eu transformo tudo num fado, e esse lado tem uma magia que corresponde a algo a que chamarei dom. Que ou se tem ou não se tem.

Aquilo a que chama dom será talvez a mistura de uma vocação musical com um sentimento ou, se quiser, um entendimento sentimental desta canção («Fulano de tal canta com muito sentimento»).

Sentimento, sim, mas também alegria. Não entendo o fado que não seja cantado com alegria. O fado corrido é a base para todos os fados que nós queiramos cantar que tenham alegria, uma motivação positiva, qualquer coisa onde caiba a palavra esperança. O fado tem um leque vastíssimo de opções. Podendo até ser dançado. Que não haja um tabu em relação a isso, o fado pode ser dançado e coreografado com toda a naturalidade, e está certo, não é ofensivo, porque se formos à génese do fado percebemos que ele era também dançado. Esta canção tem sofrido metamorfoses que têm a ver com os tempos, e isso é normal, mas há pessoas que ficam muito chocadas se um jovem fadista aparece a fazer um remix.

A sua participação no filme 'Fados', de Carlos Saura, esteve envolta em polémica precisamente devido a algumas visões menos ortodoxas do fado. Há muita gente, porventura mais conservadora, que diz que o fado não é o que é mostrado no filme, que aí aparece desvirtuado. Isso, esse conservadorismo corresponde ou não a uma sensibilidade que nunca deixou de existir no fado?

Os debates são sempre coisas interessantes, úteis, vivas, e eu não me sinto dono da verdade, ou da ideia de que esta transformação do fado me pertence. Tento entender as coisas à luz da realidade da própria vida, e se a vida de hoje é completamente diferente da de há quarenta ou cinquenta anos, concordará que o fado que nós narramos também é diferente. Até porque se não o fizer deixa de fazer sentido, e transforma-se numa coisa cristalizada, parada no tempo. Com todo o respeito que tenho pelas melodias tradicionais, que são evidentemente autênticas pérolas (acabei de gravar um disco com fados tradicionais, músicas do Armandinho, do Alfredo Marceneiro e do Joaquim Campos, músicas com sessenta, setenta, oitenta anos, porém com poemas actuais, escritos por pessoas que nunca o tinham feito para fado), é preciso compreender que um homem como o Saura, que é um cidadão do mundo, com uma visão muito particular da vida, e que tem uma obra, ao fim de três anos a estudar o fado, apresente um filme que não é uma coisa convencional. E depois não vamos pensar que os noventa países que compraram o filme são países de pessoas burras...

Pessoalmente subscrevo sempre que se façam outras coisas com as preexistências, em tudo na vida. Mas há em todas as áreas, e no fado também, um núcleo duro de gente agarrada às tradições da pior forma que é a que nega a evolução. A Internet está cheia de comentários agressivos contra si por causa da maneira como o fado é mostrado no filme de Carlos Saura. Que «ainda por cima é espanhol», lembram alguns, num arremesso primário.

As pessoas têm de parar para pensar, em vez de serem apenas movidas pelo ímpeto que nos acusa de termos mexido na vaca sagrada. Respeito a diversidade das opiniões, mas elas têm de ser fundamentadas, e não apenas afirmar-se contra alguém. O Paco de Lucia deu uma volta extraordinária ao flamenco, internacionalizou-o, e é uma festa ver tudo aquilo que emana da sua criatividade. É preciso fazer sentir a essas pessoas que a vida não pára. Quando há trinta anos gravei o disco "Um homem na cidade" as críticas imediatas que recebi foram violentíssimas, mas curiosamente hoje é unânime que se trata de um dos grandes discos da história do fado. Não podemos passar toda a vida a cantar os mesmos fados, metidos num gueto. Sobre o respeito pela tradição, não me venham dar lições, porque essas pessoas não gostam mais de fado do que eu. Contudo, estou sempre disponível para ouvir um jovem, com tudo o que lhe vai na alma, misturar com naturalidade um fado com um rap. Isso não me choca nada, nem me agride. Qual é o problema de haver um rapper a homenagear o Marceneiro? O Marceneiro era um músico de jazz, um músico aberto, a criatividade dele perdura ao longo dos tempos porque ele era um homem muito talentoso. Quando apareceu o Piazzola, a crítica foi violentíssima, a Argentina arrasou-o. Contudo, é tão mais agradável ouvir Gardel tendo em linha de conta que apareceu o Piazzola! O novo não deslustra o velho.

Em que ponto está o processo de candidatura do fado a Património Mundial da Humanidade?

Está muito bem encaminhado, contou com uma grande entrega por parte de uma equipa de gente jovem envolvida no processo. Provocou a emoção que provoca o fascínio da descoberta. Quando as pessoas começaram a enviar os espólios familiares, as coisas das famílias do Marceneiro, do Carlos Ramos, da Berta Cardoso, etc., o estudo sistematizou-se e nunca mais parou. A curiosidade e o envolvimento de todas estas pessoas levaram ao aprofundamento do trabalho e há gratíssimas surpresas, caso do antropólogo Paulo Lima, que escreveu um livro sobre a história do fado operário no Alentejo. Todo este trabalho recente em torno do fado leva-nos a crer que podemos levá-lo para um patamar interessante de reconhecimento internacional. É um trabalho que nunca está concluído, embora o objectivo da candidatura tenha acelerado o processo.

O que vai trazer ao fado esse reconhecimento?

Quando uma coisa é transformada em património, há um conjunto de regras cujo cumprimento é exigido a quem cuida. À semelhança do que acontece com o Centro Histórico de Guimarães, do qual a população cuida como se de um bebé se tratasse. O orgulho e a vaidade que têm, sendo que cada cidadão é um vigilante, porque interiorizaram que se assim não for aquele património se perde, e a UNESCO não tem problema nenhum em retirar o seu selo, se for caso disso. O Museu do Fado tem hoje uma base de dados imensa, que todos os dias cresce, permitindo que todos possam ter acesso à vasta informação sobre o fado. A somar a isto, digo-lhe que em cem anos tivemos apenas dois grandes contributos na forma de livros, o do Tinop [João Pinto Ribeiro de Carvalho (Tinop), autor de "História do fado"] no início do século XX, e cem anos depois o do Rui Vieira Nery, "Para uma história do fado". Finalmente, procedeu-se a uma ordenação e a uma sistematização da informação disponível sobre o fado.

Tudo isso a que tem vindo a dedicar-se transformou-o num consensual e aclamado embaixador do fado. Como convive com esse epíteto?

As pessoas demonstram-me amiúde a simpatia e o carinho que têm por mim, ando na rua e vivo isso constantemente. Mas será a generosidade das pessoas, porque não me sinto embaixador de coisa nenhuma. Graças ao fado, pude viver uma vida muito bonita, pude viajar praticamente pelo Mundo inteiro, pude conhecer pessoas extraordinárias (foi graças ao fado que tive o privilégio de conhecer a mulher com quem casei há 43 anos), enfim, devo ao fado um sem-número de coisas belas. Sendo filho de uma das grandes protagonistas da história do fado e de um homem que foi um importante empresário de fado, eu tenho responsabilidades, e não as alijo, tomo-as com toda a seriedade e gosto. Trata-se agora de organizar as coisas de maneira a que as gerações vindouras tenham a casa arrumada. Depois, com o seu talento e a sua capacidade, façam o que entenderem, inovem, partam a loiça toda, inventem, arranjem, mas sabem que isto foi assim, que se passou desta forma. E que deixou de ser uma coisa em gueto, fechada, só para alguns iluminados, como se fosse uma coisa transcendente, que é propriedade de uma ou duas centenas de pessoas. Não é.

E de uma ou duas famílias...

Pois, mas não é. O fado é património de todos, e isso está bem patente no facto de os cinco milhões de portugueses que estão fora de Portugal serem potencialmente mais consumidores de fado do que os dez milhões que estão cá dentro. Por uma razão muito simples é que sendo beirões, transmontanos, ilhéus, o que for, há no fado uma raiz que é comum a todos. O fado tem características muito misteriosas...

... e congregadoras

Sim, tem-nas. Desde que não se limite ao fado da desgraçadinha, que não subscrevo, que fique claro. Não tenho nada a ver com isso. Não gosto, não gostava, e penso que não irei gostar. O fado é uma canção ampla, mais aberta do que por vezes se pensa. É como a caça, depende do caçador. O fado tem de ser ensinado, fazer parte dos currículos escolares, porque, afinal, qual é a cantiga que resiste século e meio? A canção napolitana está a esvair-se, a canção provençal idem, e o fado mantém uma extraordinária vitalidade.

Que disco é este que lançou em Novembro?

Chama-se "À noite". Eu queria muito cantar Armandinho e Joaquim Campos, e juntar num disco esses pilares do fado. E ao mesmo tempo combater a ideia de que não há quem escreva letras para fado. Há que bater à porta das pessoas. Quem afirmaria há dois anos que o Nuno Júdice ia escrever belos fados? Ou a Maria do Rosário Pedreira? Ou o José Manuel Mendes? Ou o Fernando Pinto do Amaral? Ou o Júlio Pomar? E queria que este disco fosse sobre a noite. Sou um homem da noite, tenho vivido grande parte da minha vida de noite. Decidimos lançar este disco de uma forma diferente, de uma forma que pretendeu combater a actual crise da indústria discográfica, e fizemo-lo com o jornal "Público" e a revista "Visão", e o disco foi vendido em oito mil postos, que são os quiosques deste país, e na primeira semana vendeu trinta mil cópias. Foi feito fora dos circuitos convencionais. Fizemos também uma outra coisa, para os coleccionadores editámos 500 LP, numerados, só para eles, que estão nas Fnac. E tem corrido muito bem. Talvez nunca tanto como desde "Um homem na cidade", o que tem a sua piada, porque eu tenho 68 anos, não sou propriamente um estreante, tenho 45 anos de actividade. O disco conta uma história que começa com um primeiro verso que diz «tão longas eram as noites» e acaba com um verso que diz «a noite é minha amante». O alinhamento foi muito ponderado, e no momento da gravação houve uma grande entrega, nenhum fado foi gravado mais do que duas, excepcionalmente três vezes, foi uma coisa intensa e única. E está a resultar, as pessoas gostam, e fazem-no saber.



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